O Pintinho | Amostra Grátis de HQ

Um dos maiores preconceitos relacionados aos quadrinhos que abordo durante as primeiras aulas do curso de roteiro no qual leciono é o mito de que só sabe fazer quadrinhos quem sabe desenhar. Acontece que o “saber desenhar” é bem relativo, e muitos traços são importantes para muitos tipos de histórias diferentes. Como abordei em um post da coluna Quadrinhos, A Mídia lá no Tapioca Mecânica um dia desses, tem quadrinhos que são deliberadamente mal desenhados, e o tosco acaba se tornando estética. Essa estratégia narrativa é utilizada pelo quadrinho apresentado nessa semana aqui no Amostra Grátis de HQ.

o pintinho alexandra moraes

O Pintinho, criação da jornalista Alexandra Moraes, é mal feito propositalmente. Claramente desenhado em poucos minutos no Paint, o forte da tirinha se encontra no choque entre textos bem escritos representando os diálogos de mãe e filho e o desenho tosco que pode causar uma má impressão logo de cara (e continua causando quanto mais você lê).

Os personagens principais são muito bem estabelecidos através de suas conversas. O Pintinho é um pequeno revolucionário, ou pelo menos tenta, muitas vezes caindo em contradição em suas palavras inflamadas de ideologismos. Do outro lado, a Galinha, mãe, dona de casa, pensamento classe média e que, sempre que possível, ignora as palavras inflamadas do filho para poder curtir sua aula de lambaeróbica.

o pintinho verba vollant

Acontece que as experiências entre mãe e filho retratadas nas situações surreais da tira são muito inspiradas na maternidade da própria Alexandra, como ela afirma em sua entrevista (ótima por sinal, leia aqui) para a Revista TPM.

“(…) às vezes os diálogos destoam da coisa da maternidade. Eu falo sobre tudo alí: música, política, alguma bobagem. Mas, na maior parte do tempo, são suposições minhas do que poderia ser uma conversa com o Benjamim (filho de Alexandra), até porque quando comecei o Tumblr, ele tinha cerca de 2 anos, antão não podia conversar ainda. E o assustador é que muita coisa que imaginei, muitos diálogos que era só suposição, acabaram acontecendo depois entre nós dois.

o pintinho liberdade alexandra moraes

O Pintinho faz parte do meu Top 3 de melhores séries de tirinhas do Brasil devido a esse visual tosco que esconde diálogos muito bons, personagens muito bem elaborados, e por sempre ser um ótimo exemplo para derrubar por terra os preconceitos relacionados a quadrinhos e um bom desenho. Da política nacional à quitação do carnê, do carnaval brasileiro à música popular, da filo. Uma boa ideia na cabeça e o Paint instalado no computador são mais do que o necessário para fazer uma boa HQ.

Conheça mais da autora

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Caixa de Histórias 41: Longe das Aldeias

Neste episódio buscamos conhecer nossas raízes em Longe das Aldeias de Robertson Frizero.

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Comentado no episódio

Trilha Sonora

Dark Times de Kevin MacLeod está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution

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Contato


Não há intenção de violar o direito autoral, o uso de trechos de obras literárias aqui se baseia no inciso III do artigo 46 da Lei 9.610/98 que diz que ” Não constitui ofensa aos direitos autorais a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem”.

Ômega

Para cada pergunta existe uma resposta. Mas até que ponto estamos preparados para ela?

Ômega é um conto escrito por Claudio Gaspari e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


ÔMEGA

Então, Ele voltou.

Na época mais irrelevante, no momento mais inesperado, no instante mais ordinário, Ele retorna, ao mesmo tempo em que a humanidade se espremia na usual rotina do dia a dia.

João acordou cedo para trabalhar na lanchonete do pai, Mark limpava sua glock no porão de casa, Safira estava nervosa pelo dia do seu casamento, Abu cozinhava uma sopa de coelho, Akim se desesperava pela morte da mãe e Karen caía da bicicleta.

Ninguém, nem o mais fervoroso crente, acreditaria que aquele seria o dia específico da sua volta.

Não houve prévio aviso, nem show de luzes, toque de trombetas, ou cântico angelical. Ele simplesmente retornou.

Entretanto, cada ser vivo tomou conhecimento. Como uma espécie de senso comum, o mundo soube que Ele estava de volta.

E sim, Ele era tudo o que se imaginava, com Sua onipotência, onisciência e onipresença. Mas, sincronicamente, Ele não era nada do que esperávamos.

E a dúvida primordial, finalmente, estava respondida. A grande e maior pergunta de todas. O questionamento definitivo:

“Por quê?”

A resposta não era o que a humanidade desejava, pois Ele não estava sozinho. Alguns dos Seus estavam com Ele, observando e admirando a vastidão da criação.

A sensação de todos mudou. O que antes era nirvana se alterou para invasão. Todas as almas foram tocadas, lidas e comentadas. Mas não havia o que fazer. Apenas se entregar e esperar.

Ninguém nunca soube quanto tempo durou. Dias? Anos? Séculos? Milênios?

O fato é que, assim como Ele veio, se foi.

E todos souberam que o fim havia chegado. O objetivo havia sido alcançado e Ele não precisava mais de nós.

Não houve grito, choro ou desespero. A humanidade entendia e aceitava o seu destino.

E o Tudo se tornou o Nada.


Esse conto foi escrito por Claudio Gaspari para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


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[one_half]Sobre o autor: Claudio Gaspari é pai, marido, nerd, blogueiro e cirurgião dentista nas horas vagas.[/one_half]

[one_half]Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.[/one_half]

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Memórias de um Esclerosado | Amostra Grátis de HQ

O post fixado no topo da página Memórias de um Esclerosado, de Rafael Corrêa, já joga na cara de quem vai ler os trabalhos do autor gaúcho a proposta da HQ em construção.

Em 2010 fui diagnosticado com esclerose múltipla, uma doença autoimunitária que ataca o sistema nervoso. Aqui contarei, em forma de quadrinhos autobiográficos, um pouco desta experiência.

rafael correa memorias de um esclerosado

Em postagens esporádicas, Rafael publica páginas sobre sua vivência junto com a doença degenerativa e sem cura que afeta principalmente o sua capacidade motora, incluindo as mãos. Espera-se de uma narrativa dessa muita tristeza, mas Rafael expõe seu drama pessoal com toques de humor, medo, angústia e saudosismo, de uma forma tocante. A página no Facebook se aproxima dos 9 mil curtidores, e no Tumblr do projeto Rafael reveza entre novas páginas e fotos do processo criativo.

rafael correa memorias de um esclerosado 2

memorias de um esclerosado

As primeiras páginas do trabalho de Rafael resultaram em uma exposição no Pinacoteca Bar, em Porto Alegre. O jornal Sul 21 fez a cobertura do lançamento da exposição e aproveitou para entrevistar o autor gaúcho sobre sua vida e obra. Vencedor de 27 prêmios internacionais, Rafael falou sobre as principais dificuldades em trabalhar com a doença. Vale a pena dar uma olhada na matéria completa feita pelo jornal nesse link.

“Eu sou canhoto e, infelizmente, a doença se manifestou no lado esquerdo”, conta. Corrêa diz ter dificuldade para caminhar, por isso usa uma bengala, e para controlar o braço e a mão esquerda. “Para desenhar, ficou bem mais difícil. Tem um certo tempo de trabalho que eu tenho que aceitar. A mão cansa, a fadiga é muito grande, a ponto de não ter a destreza”.

Um dos principais reflexos da esclerose em seu trabalho é o fato de que não consegue mais desenhar por muito tempo seguido. “Trabalho meia hora, descanso bastante, para depois retornar. Não tenho como desenhar o dia inteiro como fazia antes. Eu tive que aprender a desenhar de uma maneira diferente, segurar a caneta, respeitar o corpo”. afirma.

Apesar das dificuldades, ele diz que não pensa em deixar de desenhar e passar, por exemplo, apenas a criar histórias. “Eu faço questão de desenhar, porque a estética também faz parte do conteúdo. O desenho precisa ser meu. É muito pessoal”, afirma.

rafael correa

Misturando os acontecimentos relacionados à doença com uma verve poética, repleta de metáforas visuais para representar seus sentimentos em relação às revelações e mudanças que aconteceram em sua vida, Rafael expõe para nós o seu mundo. Memórias de um Esclerosado é uma das obras mais tocantes em construção no momento, ao meu ver, aqui no Brasil. Mal vejo a hora de vê-lo completo e impresso.

rafael correa esclerose multipla

memorias de um esclerosado facebook

O projeto também está sendo traduzido para o inglês, e pode ser lido no Tumblr MSDUP.

MSDUP

Para conhecer mais o projeto

Tá gostando do Amostra Grátis de HQ? Se você não viu alguns dos posts, você pode ver todos aqui nesse link. Se curtiu as indicações, tem alguma sugestão de artista ou crítica sobre a coluna, manda aê nos comentários. O feedback de vocês é bem importante. 😉

 

 

Porque gostar de 007 e não de James Bond

Há algumas semanas, fui convidado pelo pessoal do Novo Fã Podcast para participar da sua edição nº 007, onde falaríamos dos livros que originaram o agente secreto mais famoso da cultura pop: Bond, James Bond.

Mesmo com o tempo meio apertado, resolvi aceitar pelo fato de que teria a oportunidade de revisitar histórias e personagens que povoaram minhas tardes adolescentes. Assim como a ficção científica, a espionagem era um tema recorrente das minhas leituras juvenis, e foi através de Ian Fleming e seus 11 livros que me iniciei nesse gênero pelo qual sou apaixonado até hoje.

Então foi com empolgação que comecei minha mini maratona rumo ao passado.

Goldfinger

Como no podcast cada participante iria indicar um livro específico, iniciei minha jornada logicamente pelo livro que me coube: Goldfinger.

Capa_goldfinger_007.inddAlém de gostar muito do filme, escolhi falar desse livro por lembrar que havia sido também o que eu mais gostara de ler quinze anos atrás, principalmente por ser mais longo que os outros, com muitas reviravoltas.

O enredo gira em torno da perseguição a um contrabandista internacional de ouro, que todos sabem ter negócios escusos, mas que até então não cometera nenhum erro que permitisse a sua captura. Passando por Miami e por boa parte da Europa, essa é uma das mais famosas aventuras de 007, imortalizada no cinema pela cena da garota coberta de ouro.

Li a primeira parte do livro com um sorriso nos lábios. Encontrei exatamente tudo que lembrava ter me cativado da primeira vez que o li: a intricada teia de espionagem que se formou no mundo durante a Guerra Fria; o agente torturado pelas ações do passado e pelo fardo de carregar o 00 (a licença para matar); o vilão que se sente acima da lei e dos Estados.

Mas, começando a segunda parte, o sorriso desapareceu.

Como você deve saber, em toda aventura de 007 existe sempre uma Bond Girl. Em Goldfinger, no entanto, James Bond se envolve não com uma, mas com três garotas, uma em cada parte do livro. Eu já sabia que ia encontrar um James Bond sedutor e desapaixonado, que tenta não se envolver demais. É isso o que vemos nos filmes, e é meio que a característica marcante do personagem, seja ele interpretado por Sean Connery ou Daniel Craig. O que eu realmente não estava preparado para encontrar era um Bond extremamente machista, beirando a misoginia.

tillyIsso se mostrou quando Bond encontra a segunda moça de sua jornada, Tilly Soames, que por coincidência também está atrás de Goldfinger. O agente tem verdadeiras explosões internas de raiva ao ter seus planos frustrados pela inexperiência da jovem e por esta resistir às suas investidas amorosas.

“Maldita cadelinha estúpida!”

Ler isso me chocou profundamente, porque eu nunca imaginava encontrar isso ali. E eu já tinho lido o livro! Como eu não percebera isso da primeira vez? Talvez se tivesse sido apenas essa a manifestação chocante de Bond, a explicação poderia ser a de que não estava prestando atenção e acabei passando direto. Mas não foi a única.

Avançando na história, vemos um Bond demonstrando novamente ser machista, como também racista e homofóbico.

Oddjob_(Harold_Sakata)_-_ProfileO racismo de Bond se mostra quando este entra em contato com os empregados de Goldfinger, que são coreanos, principalmente o seu capanga de chapéu coco, Faz-tudo.

“…Bond pretendia continuar vivo de acordo com suas próprias condições. Entre essas condições incluía-se o fato de obrigar Faz-tudo ou qualquer outro coreano a ficar exatamente em seu lugar, que, na opinião de Bond, era bem abaixo do lugar dos macacos na hierarquia dos mamíferos.” (p. 148)

Mais à frente, ganhamos de brinde opinião de Bond sobre a homosexualidade, quando somos apresentados à terceira Bond Girl da história, Pussy Galore, que é a líder de uma gangue apenas de mulheres:

Pussy_Galore's_Pilots“Conhecia muito bem esse tipo e achava que ele, assim como seu correspondente masculino, era conseqüência direta da concessão do direito de voto às mulheres e da ‘igualdade entre os sexos’. Em resultado de cinqüenta anos de emancipação, as qualidades femininas estavam-se extinguindo ou transferindo-se para os homens. Por toda parte havia tipos duvidosos de ambos os sexos, ainda não completamente homossexuais, mas confusos, sem saber o que eram. O resultado era um rebanho de infelizes desajustados sexuais — ocos e cheios de frustrações, as mulheres querendo dominar e os homens querendo ser mimados. Sentia pena deles, mas não tinha tempo a perder com eles.” (p. 181)

A duras penas terminei o livro, e ao fim estava arrasado.

Não conseguia compreender como deixara passar isso tudo. Como é que uma das lembranças literárias que eu mais cultivava era recheada de elementos abomináveis?

Atormentado por esse questionamento, passei para o próximo da lista, querendo verificar se era um caso isolado, ou se realmente encontraria esses elementos em todas as obras de Ian Fleming.

Cassino Royale

Download-Cassino-Royale-Ian-Fleming-ePUB-mobi-pdfFoi com expectativa e apreensão que iniciei essa que é a primeira aventura de James Bond, publicada em 1952. Já o encontramos como um experiente agente do Serviço Secreto Britânico (MI6), que recebeu o posto de 00 depois de uma missão nos EUA. Seu objetivo agora é desbancar (literalmente) um agente a serviço do Smersh (Serviço de Contraespionagem Soviético) que joga num cassino no interior da França.

O enredo original difere da sua adaptação cinematográfica de 2006 (a primeira com Daniel Craig), que atualizou a missão para os tempos modernos, apesar de manter cenas clássicas como a do cassino (mudando apenas o jogo de baccarat para poker) e a da tortura na cadeira.

Vesper_Lynd_(Eva_Green)Por ser um livro mais curto que Goldfinger, infelizmente não demorei a encontrar o que temia.

Novamente, ao ser apresentado à Bond Girl da história, Vesper Lynd – uma agente da Seção S (especializada em assuntos Soviéticos) enviada à França para lhe auxiliar na missão de desbancar Le Chiffre –, Bond tem seus arroubos de machismo.

Quanto aos outros dois elementos, racismo e homofobia, não os encontrei nesse livro, talvez pelo simples fato de não haver nele personagens que despertassem tais preconceitos em Bond.

Creatura ad Creatorem

Ainda havia um terceiro livro para ler, Dr. No, mas eu não aguentei. Ao invés disso, resolvi tentar entender o porque de algo tão bizarro ter causado tanto impacto na cultura mundial ao longo do século passado, e continuar sendo um dos ícones do nosso tempo.

ian fleming

Ian Fleming

Apesar de ter trabalhado um breve período como jornalista, Ian Fleming não era escritor profissional, escrevendo seus livros apenas na última década da sua vida.

Suas histórias de espionagem eram em grande maioria baseadas em seu conhecimento interno acerca do funcionamento do Serviço de Inteligência Britânico, uma vez que fazia parte deste, tendo inclusive atuado diretamente em diversas operações durante e após a II Guerra Mundial.

Talvez por não ter sido agente de campo, Fleming transpôs para seu personagem elementos seus que ele acreditava serem dignos de reprodução em um herói.

No mesmo sentido, com as ações de Bond, Fleming também se realizava por tabela, conseguindo alcançar na ficção um destaque que não obtivera na vida real.

O fato de que seus livros venderam mais de 30 milhões de cópias durante sua vida, e quase o mesmo número apenas dois anos após sua morte, demonstram que ele era apreciado por seus contemporâneos, seja por seu estilo de escrita, pelos temas que abordava (como a supremacia britânica sobre o mundo, os efeitos da guerra e luta do bem contra o mal) ou pelas opiniões que expressava (as mesmas que achei absurdas).

O mundo durante a década de 1950 estava em transformação, principalmente com relação às mulheres. Devido à sua participação ativa no esforço de guerra e à conquista de uma série de direitos que 10 ou 20 anos antes pareceriam impensáveis, as mulheres começaram a ocupar espaços que antes eram de exclusividade dos homens. Estes, não satisfeitos, utilizaram-se de vários meios para se opor a esse avanço, de forma a retornar a seus status de privilégio anterior à guerra.

As opiniões machistas que Fleming expõe através das palavras e pensamentos de Bond são claramente reflexo desse incômodo em relação à emancipação feminina. Interessante notar que Bond se considera no direito de se relacionar com diversas mulheres sem nenhum tipo de compromisso, mas as julga quando percebe que estas tem um “passado” de vários casos, ou que já atingiram uma determinada idade sem ter contraído casamento.

Da mesma forma, por fazer parte do um dia glorioso Império Britânico, Fleming se posiciona fortemente contra as minorias étnicas e a imigração, “males” que enfrenta o Império enfrenta durante seu período de decadência.

Sobre a homossexualidade, não há nem a necessidade de se explicar mais do que o simples fato de que sua prática era considerada crime no Reino Unido. Temos casos célebres de castrações químicas submetidas como punição, como o do matemático Alan Turing (O Jogo da Imitação) ou do empresário Brian Epstein (considerado o quinto Beatle).

Assim, criador e criatura estão envoltos em liames de projeções e reflexões de seu tempo, tanto que fica complicado separar os dois e dizer quem influenciou quem.

007 x Bond

Certo, consegui compreender mais ou menos porque Fleming fez sucesso na época em que partilhava suas opiniões com as dos seus leitores. Mas eu não nasci em 1960 (e talvez você também não).

Nasci no final da década de 80, e só fui ler Fleming no início dos anos 2000. Teoricamente, eu não sou o público que Fleming visava atingir, mas ainda assim fui influenciado, pois como é que eu pude não achar estranhas essas opiniões ou simplesmente ignorá-las?

Fiquei atormentado por esse questionamento, e tenho que confessar que ainda estou, pois não encontrei resposta pra ele.

O que posso dizer é que, na mesma medida que fiquei chocado com o que encontrei em livros que adorava a 15 anos atrás, também fiquei feliz por ter identificado esses defeitos neles. Sinal de que, de alguma forma, evoluí. Seja porque mudei minhas opiniões, seja porque me atentei a problemáticas que antes não chamavam minha atenção.

Por ser fascinado por espionagem, ainda me pego admirando o universo que envolve o 007. Os apetrechos, os carros, as técnicas de comunicação, o treinamento. A figura do soldado me intriga, até porque a própria guerra é algo fascinante, e os soldados da Guerra Fria eram os espiões.

O profundo conhecimento de Fleming do modus operandi dos serviços secretos nacionais torna sua narrativa bastante crível (apesar dos feitos holywoodianos que as vezes são inseridos nas obras). Nisso ele é competente. Tanto que influenciou uma série de escritores que moram até hoje no meu coração, como Frederick Forsyth, Tom Clamcy e Robert Ludlum.

Acredito que não seja o caso de queimar os livros em praça pública, ou mesmo fazer boicote à sua comercialização. A questão é ler com a consciência de que, como falei, tanto autor quanto personagem são frutos de sua época.

As próprias adaptações cinematográficas, que começaram a ser produzidos uma década depois dos livros, atenuaram vários aspectos do personagem, sinal de que o legado era do universo e não do autor.

Você vai encontrar um 007 dentro de cada espião ou agente secreto que procurar, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Seja no Chacal, em Jack Ryan ou em Jason Bourne. Até na Nikita.

007 não é o problema. O problema é James Bond.