Primeiros Segundos #19 - Projeto | Iradex

Primeiros Segundos #19 - Projeto

O fim do ano se aproxima, despertando em nós os desejos e promessas para um novo ciclo, um recomeço, uma oportunidade de deixar tudo para trás e fazer tudo diferente.

Mas, se tudo ficou pra trás, o que restou de nós? O que somos? Ainda somos nós?

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Texto, locução e edição por Mackenzie Melo. Participação especial: Marcelo LV Cabral, Átila Costa e Ju Pereira.


Projeto (versão em texto)

Ele falou ... ele falou, vejam, nós estamos prestes a fazer algo que ninguém nunca fez antes. Nós treinamos para isso nossa vida inteira. Nós vamos conseguir, mas antes eu quero falar uma coisa pra vocês. Não importa o que aconteça, quando sairmos dessa sala, nós saímos como um time, não como indivíduos. E aí ele disse: vamos trancar as portas, e ficamos lá até pousarmos ou abortarmos ou colidirmos.
Você não imagina o que isso significou... não dá nem pra explicar...

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Seja bem-vindo a mais um Primeiros Segundos. Eu sou Mackenzie Melo e me sinto honrado de poder contar com seu ouvido e sua mente para fecharmos essa porta e só sairmos aqui quando o episódio terminar. Afinal de contas, como podemos nos considerar um time se não ficarmos juntos também nos momentos mais difíceis? Prometo que a dor do episódio de hoje será menor que a dos episódios anteriores. Se não pelo conteúdo, sim porque esse será mais curtinho...

Aproveite esses minutos extras que você não terá que ler (ouvir) para dar uma passadinha no site do Iradex ou no seu agregador favorito e deixar um comentário e sua nota para este e outros episódios do PS. Seria ótimo poder ouvir sua opinião. Muito obrigado

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Nós vemos o mundo, em geral, a partir dos nossos próprios olhos, através das lentes que construímos e que tisnam, pintam, colorem, distorcem ou limpam aquilo que observamos.

Creio que quando falo em “ver” o mundo, subentende-se que estou falando de uma leitura não necessariamente visual, mas acima de tudo, cognitiva, inteligente, instintiva.

A partir dessa visão, centrada em um ponto – o eu –, conseguimos construir uma percepção do mundo em que vivemos e no qual (in)felizmente nos enclausuramos. Isso perdura por algum tempo. Algumas vezes pela vida inteira. Mas não creio que essa seja a regra geral.

Durante o período em que nos damos conta que somos uma individualidade até o momento em que deixamos, na morte, esse corpo que nos pertence temporariamente, (quase) sempre aparece algo que nos dá uma pancada e quebra nossa casca, limpa nossa lente, abre nossos olhos. E é então que começamos a ver o mundo a partir de outra perspectiva. Não necessariamente de uma perspectiva mais certa ou mais errada. Entretanto, seja uma ou seja a outra, quando isso acontece sempre adicionamos novos elementos à visão que já temos da vida. Experiência.

Ao repetirmos algo inúmeras vezes, aquilo começa a fazer parte de nós e dificilmente conseguimos sentir com precisão como éramos quando não sabíamos desse algo, pois intimamente temos a sensação de que sempre soubemos fazer aquilo. Um exemplo simples, que creio aconteça com todos nós, é escrever nosso nome. A não ser que um grande evento em nossa vida tenha causado a perda do controle motor fino em nossas mãos, é difícil conseguirmos escrever o nosso nome da mesma maneira que escrevíamos quando não sabíamos escrevê-lo. Teríamos que aprender como escrever quando não sabíamos escrever. O mesmo pensamento serve com o ficar de pé, tomar um banho, levar a colher à boca para comer, cortar um bife... Me pergunto: será que podemos desaprender coisas assim sem eventos catastróficos nos acontecerem? Será que conseguimos esquecer total e completamente quem e o que somos? A série que terminei de reouvir recentemente me fez e me faz pensar sobre isso. Só que ela não fala sobre isso especificamente.

Project NOVA (Projeto NOVA) é um podcast de ficção científica que se centra na história de quatro (4) pessoas estranhas umas às outras. Elas estão em estado de hibernação e três delas são acordadas por um computador inteligente que cuida da estação de mesmo nome do projeto, NOVA. Quando acordam, percebem que estavam dentro de cápsulas de hibernação, em uma sala própria para isso, mas em um lugar desconhecido para eles. Nem os ouvintes nem elas sabem os próprios nomes e são conhecidas como Sujeito-1 Sujeito-2, Sujeito-3 e Sujeito-4. Pelo menos até perto do final do primeiro episódio.

Das quatro pessoas, uma não consegue ser revivida pelo computador e será reciclada (morta mesmo, para ser mais claro), já que esse é o protocolo estabelecido pelos criadores do Projeto NOVA. A cápsula parece estar com um defeito físico e a inteligência artificial não tem como consertá-la. Para o computador, Sujeito-4 já morreu, logo, reciclagem é a única saída. É quando um dos que acabou de acordar percebe isso e informa ao computador. Só que isso de nada adianta. Assim, já que eles podem ver que Sujeito-4 ainda respira, sem detecção possível pelo computador, eles acabam decidindo tentar algo para evitar que a eliminação de Sujeito-4 aconteça.

Paro a minha recontagem da história por aqui, pois sinto que, já neste primeiro episódio, se contar mais do que contei, entrego mais da história do que deveria.

Eu, particularmente, decidi ouvir Project NOVA sem ler nada sobre ele, a não ser que era um podcast de ficção científica.

Hoje, ao terminar de escrever esse texto/gravar esse episódio, já ouvi as duas temporadas do podcast duas vezes cada. Não são muitos episódios e eles não são longos, mas mesmo assim não é todo podcast que me faz querer ouvir a história duas vezes. Sei de amigos que jamais fazem isso, mesmo que amem a obra em questão.

Já eu não sou tão assim pois volto a ver ou ouvir coisas que realmente gosto para notar nuances diferentes, entender melhor certas passagens, etc.

Gostei tanto de Project NOVA que fiz isso. Pretendo, inclusive, ouvir uma terceira vez quando a terceira – e aparentemente – última temporada for lançada em agosto de 2020. Espero, junto com os Sujeitos, descobrir o que danado é o Projeto NOVA, o que eles estão fazendo lá, porque realmente foram colocados dentro da estação NOVA, onde ela está localizada e o motivo de não lembrarem muito de suas próprias vidas antes de serem acordados pelo computador no primeiro episódio.

Project NOVA é um podcast realizado pela Evil Kitten Productions, que faz outros áudio-dramas originais. Até hoje, como falei anteriormente, foram lançadas duas temporadas de 8 episódios cada. Cada um dos episódios tem no máximo 20 minutos e passam voando. A escrita é sensacional e nos apegamos tanto aos personagens que parecemos nos tornar amigos íntimos deles, já que nos sentimos presos com eles nessa estação cheia de armadilhas e perigos.

- “Só que, até agora, Mackenzie, você não falou nada do porquê de ter citado aquela história inicial sobre aprender, desaprender e etc.” algum de vocês pode estar dizendo por aí.

É verdade. Eu já tinha esquecido. Obrigado por me lembrar, computador.

Em um papo durante o episódio 4 da primeira temporada, dois dos sujeitos estão conversando:

- Isso ainda lhe incomoda? Não saber quem você é?
- Um pouco. Mas estou mais preocupada com as coisas que eu lembro.
- Por que?
- Memória é algo traiçoeiro. Nossas personalidades, aquilo que nos torna... nós mesmos, muito disso vem de nossas memórias. Eu amo bacon, só que não lembro o porquê. Eu não sei nem que gosto ele tem. Mas eu sei o que é e eu sei que eu quero um pedaço. Esse é o tipo de coisa que me incomoda.
Quem sou eu? Sou o que lembro, o que esqueço, a soma das duas coisas ou algo muito maior do que isso? Quando esqueço algo, realmente esqueço ou isso fica guardado lá em algum cantinho bem obscuro e quase inacessível de nosso ser?

Lembro agora enquanto escrevo – de verdade, sem querer fazer piadinha – do filme Como se fosse a primeira vez (50 First Dates, 2004, com Drew Barrymore e Adam Sandler) onde um certo tipo de problema com memória é representado. Lucy, representada por Drew Barrymore, sofre um acidente e a partir daí não consegue mais registrar os novos dias na sua memória. Assim, todos os dias, para ela, é aquele Domingo em que ela sofreu o acidente. Ela não guarda memórias novas, mas o que ela já era até aquele dia e tinha aprendido até aquele momento continua com ela. Assim, cabe a pergunta: Se isso acontecesse conosco e continuássemos vivendo e supostamente aprendendo novas coisas, mas não conseguíssemos nos lembrar delas no outro dia, quem realmente seríamos? Volta a pergunta que fiz antes:

Somos o que lembramos, o que esquecemos, a soma das duas coisas, algo menor ou algo maior que a soma das duas?

Não sei a resposta, mas acredito que somos maiores que nossas memórias. Somos afetados diariamente por coisas que aconteceram conosco e que não nos lembramos – como diz um dos sujeitos no papo acima: “Eu amo bacon, só que não lembro o porquê.” Repetimos atos, gestos e atitudes que foram feitas repetidamente por nós ou por nossos pais/cuidadores e que não nos damos conta em nosso dia a dia. O quanto a nossa resposta a situações que vemos e vivenciamos é realmente nossa ou apenas um ato repetitivo do que aprendemos e não lembramos? A partir de que momento em nossas vidas começamos a repetir gestos aprendidos anteriormente? Muitas perguntas sem respostas fáceis e que podem requerer de nós mais que apenas alguns momentos de reflexão. Talvez alguém por aí já tenha resposta para elas. Cabe a quem se interessa por ela procurar e/ou responde-las... Fico no aguardo de sugestões ou respostas para ajudar em minha auto-pesquisa.

Bom, voltemos ao Project NOVA e nos encaminhemos para o final deste PS que já está maior do que imaginei, a princípio. Ah, esperem, já ia me esquecendo...

Talvez vocês nem lembrem, mas quero explicar o porquê do início deste episódio estar com aquela fala que até agora pode estar, pode ser meio enigmática.

Um bom time se constrói quando todos se comprometem com o objetivo final. Talvez não o mais eficiente, mas certamente um bom time é definido assim, com base no compromisso com o que desejam alcançar em conjunto e não apenas individualmente.

Em cada time, grupo, equipe existem papeis definidos. Alguns deles são óbvios, pelo menos no geral. Se um dos participantes estudou para ser médico e é o único dentre todos com essa qualificação, essa será a principal função desse participante. Já outras tarefas são menos claras. O líder, por exemplo, apesar de poder ser determinado pela posição hierárquica, é, na maioria das vezes, uma posição natural, que aparece com o tempo e convívio. Uma característica importante das melhores equipes, entretanto, é, como o mote dos três mosqueteiros que cada um é por todos e que todos são por um.

Assim é no Project NOVA, assim é na vida. Cada um vai ter uma função. Quando cada um deles e cada um de nós aprender a sua função específica e decidir cumpri-la bem, independente do resultado final, sairemos da estação NOVA, sairemos de nossa vida sempre vencedores.

Vencedores não necessariamente de prêmios, congratulações, troféus ou aplausos. Vencedores de nós mesmos.

Assim será, pois poderemos olhar para trás com segurança, de consciência tranquila, com orgulho de nosso desempenho, reconhecendo que não fizemos tudo sozinho, que todos foram e são importantes para a vitória e dizermos: saímos dessa sala, desse projeto, dessa vida como um time e não como um indivíduo.

Por isso, vivamos para podermos, junto com nosso time, nossa equipe, nossa família, nos sentirmos vencedores de nós mesmos, de nossas batalhas por mundos melhores, enfrentando e vencendo desafios, juntos, mas cada um com suas habilidades. Bem como nos falou o autor do texto que abriu essa edição do PS, Steve Bales, citando seu chefe, Gene Kranz, dois dos inúmeros indivíduos responsáveis por levarem o homem à Lua pela primeira vez, 50 anos atrás.
Somos indivíduos. Juntos, entretanto, somos mais do que a soma das partes.

Lembremos sempre disso.

Façamos disso, parte do nosso, sempre novo, projeto de vida.

P.s.: quero agradecer, de coração a Marcelo LV Cabral do podcast PODebug, pela paciência de esperar por mais de três meses depois de gravar o texto da abertura, ver sua participação mais que especial, finalmente ir ao ar neste episódio. Amigo, sua voz e sua paixão pela divulgação científica e de crescimento individual é uma marca indelével em minha vida. Ao amigo de longa data Átila Costa do podcast Encontro Verbal e sua querida esposa Ju Pereira só quero dizer que a presença de vocês dois em Brasília torna esse lugar ainda mais incrível pela constante alegria e felicidade que vocês colocam em tudo que fazem. Obrigado, amigos.

P.s.2: a vocês, amigos ouvintes, quero também agradecer o apoio e a paciência de permanecerem juntos do Iradex e de nós que, mesmo durante esses meses sem lançar novos episódios, continuam nos seguindo e enviando mensagens de apoio. Tenham certeza que essas mensagens são sempre combustível para que o PS se mantenha vivo.

P.s.3: Chegamos, com esse episódio na metade da segunda temporada. Em 2020 teremos mais seis episódios, quando fecharemos essa viagem, pousando para descansar no mar da tranquilidade, como uma famosa embarcação especial fez alguns anos atrás...

Nos vemos e nos ouvimos em breve.


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