Pantera Negra | Resenha

Falo com tranquilidade: Vingadores: Guerra Infinita é o filme da Marvel mais aguardado do ano. Mas com a mesma serenidade é fácil concluir que Pantera Negra é o mais necessário.

A história do filme começa exatamente após os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil, onde o então rei de Wakanda, T´Chaka, é morto em um ataque terrorista, e o príncipe T´Challa, já no posto de protetor, como o Pantera Negra, precisa acumular a função de líder da nação. Mais do que enfrentar o desafio de se tornar um bom rei, T´Challa precisa aprender a lidar com a perda e escolhas passadas do pai e outros ancestrais.

O fato de Wakanda ser um reino extremamente avançado tecnológica e socialmente, todavia mantendo-se escondido e se apresentando ao mundo como um país pobre periférico, não fornecendo ajuda às nações vizinhas de um continente explorado e devastado pela pobreza e guerras, dá um tom político à narrativa. Este ponto é capaz de dar a alguns personagens uma outra dimensão, superando alguns clichês (que não são necessariamente ruins) de filmes de super-heróis, como a prevalência do bem sobre o mal, a conquista mundial ou a busca por vingança. A introdução do filme apresenta este e outros elementos que o tornam bastante acessível para quem nunca acompanhou nenhuma obra da Marvel, o que pode parecer um pouco de retrocesso, mas que depois se justifica.

Desde Guardiões da Galáxia, a Casa das Ideias vem tentando dar estilos diferentes às obras, muitas vezes carregando no humor, que aparece em Pantera Negra moderadamente, de forma bem natural. Apesar de ser a primeira aventura “solo” do herói, não existe uma preocupação com a sua origem, criando um certo ar de espionagem, dado que o manto do Pantera pode ser usado por diferentes guerreiros. A questão familiar desponta com mais intensidade do que em qualquer realização do estúdio, talvez por estar cada vez mais ligado à filosofia Disney, com aspirações shakespearianas claras, sendo impossível não relacionar com o cenário africano e criar uma comparação com Rei Leão, aumentando a expectativa do live action que está por vir.

Ainda assim, é um filme de ação. O diretor Ryan Coogler (de Creed) repete a dose e nos joga dentro dela, nos fazendo sentir cada golpe absorvido por Chadwick Boseman, que vive T´Challa com segurança. Vale um destaque para o plano-sequência de tirar o fôlego dentro de um cassino clandestino, recurso também utilizado em Creed, que foi estrelado por Michael B. Jordan. Aqui, ele vive o vilão Killmonger, um ponto sempre complicado para a Marvel. Desta vez o problema foi resolvido com firmeza. As motivações do personagem são bastante claras, e por que não, compreensíveis, apresentando ramificações que vão além de querer derrotar o protagonista, mas dar uma resposta ao passado, seja ele íntimo ou de cunho histórico/social.

Porém, nada pode ser mais destacado do que uma palavra que não pode faltar ao falarmos de Pantera Negra: representatividade. A começar pelas personagens femininas fortes, duas delas lindamente vividas por Lupita Nyong´o e Danai Gurira, e o peso que as mulheres possuem na cultura e comando de Wakanda, demonstrando altivez, ternura e sabedoria. Somente o fato de ser uma produção hollywoodiana de caráter extremamente comercial, com um elenco majoritariamente negro não faz jus ao peso que esta obra terá na cultura pop. Além de representações plásticas maravilhosas daquilo que reconhecemos como sendo africano, as nuances culturais do continente podem ser identificadas com clareza. Não somente os tambores da trilha sonora. Os ritos de passagem, o respeito a ancestralidade, a espiritualidade, as cores, a força dos povos, o orgulho do pertencimento, família e tribo. Até mesmo o fato de que em um único território de um país contenha diversas tribos que nem sempre estão convivendo em harmonia é caracterizado com respeito. Questões com relação à exploração e à diáspora negra são apresentadas naturalmente, fazendo parte da problemática apresentada na narrativa de maneira consistente e sem revanchismo.

Pantera Negra, tranquilamente, já é um marco na história do cinema de quadrinhos, assim como Mulher-Maravilha foi. Esperamos que também possa ser um marco na guinada de uma Hollywood monocromática para um cinema mais igualitário e plural.

P.S.: duas cenas pós créditos. E não esqueçam de dar uma conferida na trilha sonora comandada por Kendrick Lamar, já disponível.