I, Tonya | Resenha

Por Roberto Rudiney e Luiza Lima

Existem inúmeros filme baseados em histórias de esportistas reais. O boxe já gerou vários clássicos do cinema, bem como o futebol americano, o basquete, o tênis e várias outras modalidades. Em 2018, o esporte a ganhar uma história adaptada para o cinema foi a patinação artística no gelo, no relato da vida de Tonya Harding, uma promissora atleta repleta de polêmicas.

Um dos pontos que mais chama atenção em I, Tonya é a maneira como é construída sua narrativa. Entrevistas com os personagens no futuro são usadas para costurar e dar o desenrolar da história que é nos passada como se fosse um flashback. Disso, se origina um jogo com os pontos de vista daqueles que se situam inseridos na trama.

Em um roteiro, sempre é escolhido o ponto de vista que acompanharemos. Pode ser centrado na figura de um personagem, como é feito em A Ilha do Medo, onde toda a história e informações nos são transmitidas pelos olhos do protagonista vivido por Leonardo di Caprio (aliás, tendo essa informação, revisitar a obra ganha um atrativo a mais). Podemos também acompanhar vários pontos de vista, como podemos ver em "A Grande Aposta", vencedor de melhor roteiro adaptado de 2016, onde são introduzidos vários personagens que abordam uma problemática de ângulos diferentes. Ainda existem outras formas de abordar essa questão, e "I, Tonya" opta por usar elementos de várias delas.

O esquema de entrevistas escolhido faz com que cada segmento de flashback seja mostrado pelos olhos do entrevistado da vez, mas acontece que muitas vezes a história ou opinião de um personagem X vai de encontro com a de personagem Y. Em outras situações, é revelada uma visão a parte dos fatos, quase como um narrador onisciente, que nos mostra que alguns depoimentos podem ser mentiroso.

Toda essa artimanha, além de possibilitar um aprofundamento maior dos personagens e gerar uma atmosfera de dúvida constante, é utilizada como uma ferramenta para se fazer humor. Essa estrutura complexa ruiria caso estivesse apoiada em uma montagem falha, o que não é o caso aqui. O filme é cirurgicamente construído, com cada peça encaixando na outra de maneira coesa, dando uma sensação de caos organizado.

Saltos temporais são feitos, entrevistas cortam a ação, voice-overs também são utilizados, tudo isso de maneira enérgica e sem deixar o público confuso.

A maneira dinâmica como a história é contada não só rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Montagem, como torna mais fácil para o espectador digerir as diversas (e pesadas) situações que são apresentadas.

Todo esse dinamismo dá lugar a uma montagem mais convencional no terceiro ato, o que é justificável já que é o segmento com maior carga dramática da trama, porém o ritmo cai consideravelmente deixando o tempo pesar mais. Felizmente, a obra recobra a força no final e encerra em alto nível.

Vale ainda destacar toda a carga de sentimentos sobre a personagem de Margot Robbie (merecidamente indicada ao Oscar de melhor atriz pelo papel da protagonista). Tonya nos faz torcer, sofrer, amá-la e odiá-la, apresentando uma história que merece ser vista.