A Forma da Água | Resenha | Iradex

A Forma da Água | Resenha

A água não tem forma, sua natureza é fluir. Se você a colocar em um vaso, ela vai tomar a forma do vaso. Num copo, ela assume a forma do copo. Mas a água não tem forma, sua natureza é fluir.

O filme A Forma da Água conta a história de amor entre Elisa, uma faxineira muda, e um anfíbio humanoide preso no laboratório em que ela trabalha, nos EUA dos anos 60. Na legenda, este ser aquático é sempre tratado como “forma”, algo que ACHO ter sido feito para justificar o título do filme. Digo na legenda porque no áudio original a palavra SHAPE não é utilizada. Sendo assim, eu encaro o título como algo que se encaixa, que tem o formato (ou a importância) que damos a ela.

A ideia de uma paixão entre uma mulher e um “peixe” pode causar estranhamento, mas ao conhecermos os personagens e a maneira como eles são construídos acabamos nos envolvendo com a história. De repente deixamos de lado as formas externas e só vemos o sentimento, a identificação, a conexão entre eles. E não é assim que o amor deve ser? A química entre os dois é construida por momentos minimalistas. Mesmo que em alguns momentos o filme escancare os sentimentos de seus personagens, é no sorriso contido, no olhar envergonhado, no toque de mão onde a paixão grita de verdade. É interessante notar a evolução de Guillermo del Toro como escritor e diretor, já que uma das maiores criticas em "A Colina Escarlate", seu trabalho anterior, era justamente a falta de química entre o casal protagonista.

Na sua vida simples e solitária, mesmo com a companhia de dois amigos, Elisa esperava algo mais. Algo que mudasse a sua rotina tão belissimamente retratada e que fizesse as músicas dos filmes clássicos que ela vê com o vizinho fazerem sentido em sua vida. Essa sensação de rotina é reforçada pelo fabuloso uso da mise en scène, que nos apresenta recintos com um forte senso de habitação, que realmente passam uma sensação de que pessoas moram nesses lugares. Isso é usado também para diferenciar os personagens. Enquanto a moradia de Elisa é repleta de objetos, espaços, luzes passando um ar de fantasia (quase que um reflexo de seus desejos e sonhos), as instalações militares são impessoais, cheias de corredores claustrofóbicos e extremamente padronizadas.

Falando nisso, A Forma da Água é uma clara homenagem ao cinema, começando pelo apartamento da protagonista, que fica situado em cima de um. O design e origem do humanoide é quase idêntico ao clássico monstro da lagoa negra, e o vilão clássico, as conspirações militares, ação, drama e um certo alívio cômico são claros reflexos de outras obras.

Como alguns dos outros filmes que estão concorrendo ao Oscar, aqui as relações tradicionais de família, amor e casamento também são desconstruídas. Um vizinho ou um amigo podem ser bem mais presentes que um marido ou pai.

Vá de coração aberto e deixe-se encantar pela Forma da Água, uma verdadeira poesia.

1 comment

  1. Mackenzie Melo 2 fevereiro, 2018 at 18:58 Responder

    Lu, fiquei com vontade de assistir o filme, mas muito mais por causa de querer saber que palavra eles usam em lugar de SHAPE do que pela sua conclusão (que achei ótima, por sinal).

    Não sou muito de ler poesia, mas adoro as visuais e musicais. Obrigado.

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