LONGE DO HYPE #6 - RAW

RAW – GRAVE (2016)

Como admirador de filmes de horror, confesso que fui pego de surpresa por esta peculiar obra francesa, escrita e dirigida pela iniciante Julia Docournau. Em seu primeiro longa, ela consegue fazer um dos melhores filmes dos últimos anos dentro do gênero, realizando a façanha de soar delicado e selvagem simultaneamente.

Festejado em diversos eventos cinematográficos ao redor do mundo e responsável por desmaios no Festival de Toronto, o enredo narra a história da introspectiva Justine, uma caloura do curso de veterinária, vegetariana, que é obrigada a comer fígado de coelho cru durante um trote. O que segue a partir daí é uma espécie de metáfora do desabrochar feminino. Porém, conduzido pelo canibalismo e o despertar sexual, que são os elementos que conduzem a maior parte da trama.

É notório o apreço da diretora à sutileza. O longa não se comporta como um caça-níqueis feito para atrair o público com takes gratuitamente violentos, pois os momentos mais intensos são pontuais e só existem para ilustrar a evolução do roteiro, embora bastante perturbadores. A câmera na mão, os cortes rápidos e os close-ups nos instantes frenéticos também abalizam o esmero técnico da obra.

A transição da protagonista acuada para a criatura com desejo irrefreável só foi possível graças a interpretação visceral de Garance Marillier, sedutora e animalesca nos momentos em que o enredo pediu. Assim como foram importantes os personagens secundários em seus papéis de catalizadores para as ações da mesma.
Em uma comparação rasteira, Raw, batizado de Grave nos EUA, poderia ser descrito como um parente europeu de Cisne Negro (Aronofsky), livre dos limites morais das produções de Hollywood, abençoado espiritualmente por David Cronenberg e com uma assinatura singular, que só uma diretora mulher poderia deixar.

NOTA: 9 pintinhos mal passados.

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