Remember a day: Parte 2 - O Forte

As vezes, não há nada pior do que o silêncio.

Remember a day é um conto escrito por Gabriel Franklin e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura. O conto será publicado em 3 partes.


SUMÁRIO

- Parte 1 - O Inimigo

- Parte 2 - O Forte

- Parte 3 - O Lago


O FORTE

“General, estamos aguardando o seu comando”, a voz rouca do ordenança o tirou de seu estupor.

O silêncio era tanto que as palavras, quase um sussurro, ecoaram pelos campos vazios. Vazios de vida, mas cheios de morte. Nem o vento parecia existir naquele momento e a luz dera lugar a uma escuridão repentina que não condizia de forma alguma com a hora. Não era nem meio dia ainda e a floresta estava em preto e branco, como se estivesse de luto. Um luto que não era completo, pois ele e alguns poucos ainda viviam. Mas durante quanto tempo? Essa era a questão.

“Você já sabe o que fazer há muito tempo, Pequenino. Não há porque esperar”, disse outra voz, muito diferente da do ordenança. Até porque não era bem uma voz, mais um rosnado. E ele não a escutou com seus ouvidos, e sim dentro da própria cabeça.

Difícil dizer o que Al’SekhmeTaïr, príncipe do Grande Povo Antigo, de fato era para ele. Guarda-costas, montaria, conselheiro, confidente. A lista era enorme e a relação dos dois fizera inclusive com que o Ancião, que já era velho quando o mundo era novo, deixasse seu povo para trás e fosse o único representante dos Primevos na coalisão que se unira para enfrentar o Inimigo.

Uma decisão da qual a enorme criatura poderia se arrepender, no fim das contas. O Fim estava próximo. As últimas forças da coalizão estavam encasteladas ali, no Forte. E, lá embaixo, o Inimigo esperava. Esperava por uma decisão que todos sabiam que já estava tomada, mas que não deixava de ser menos difícil por isso.

Um ataque final. O ataque final. Poderia ser chamado de suicídio, mas os bardos, se é que ainda restariam bardos depois de hoje, contariam a história com grandes toques de heroísmo.

Os Grifos Brancos começaram a ser preparados logo que os primeiros sinais da reviravolta na batalha campal foram percebidos. Fazia parte do plano. Caso as coisas dessem errado no chão, o golpe de misericórdia viria do alto. Realmente, seria um golpe de misericórdia, mas não para o Inimigo.

Deveria ter esperado mais. Aprendido mais. A culpa era toda sua. Até aquele momento, nunca duvidara da própria capacidade de liderar raças e povos tão distintos, inclusive dele próprio. Era o mais jovem dentre eles todos, e ainda assim os liderara. Para a derrota. Para a morte.

O peso de todas aquelas vidas esmagava seus ombros, mas, como Al’Taïr lhe dissera, ele já tomara a decisão há tempos. Iria atacar. E certamente iria perecer. De que valeria fugir e viver num mundo cinza e sem alegria? Melhor juntar-se ao silêncio e fazer parte do todo que era nada.

Mas, e seus homens? Seria justo com eles? Pensariam o mesmo que seu general? Bem, só pelo fato de ainda estarem ali duas dúzias de guerreiros montados, prontos para o derradeiro ataque, parecia ser indicativo de que de alguma forma ele ainda os inspirava. Morreriam por ele, assim como ele um dia acreditara que viveria por eles.

Olhou nos olhos do que poderia ser o único amigo que já tivera na vida, além de seu pai, e recebeu de volta uma mensagem de compreensão profunda, que não precisava ser traduzida em palavras ou gestos. Era tudo que ele precisava.

Moveu-se na armadura, que nunca deixaria de ser desconfortável não importava quantas batalhas lutasse, e encarou seus irmãos em armas.

A hora chegara.

 “HENRYYYYY”, o grito quebrou o encanto da imaginação.

E o general, que estava prestes a saltar do Forte rumo à eternidade, baixou a cabeça e suspirou, pois até os generais obedecem quando suas mães os chamam para almoçar.

Continua...


Esse conto foi escrito por Gabriel Franklin para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Gabriel Franklin é formado em Direito e cursa Letras pela Universidade Federal do Ceará. Trabalhou muito tempo como atendente de uma das maiores livrarias do Brasil e dedica-se, desde 2013, a dar opiniões no Iradex, tanto no site como no podcast. Seu objetivo? Ler todos os livros do mundo.
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