Somos curiosos por natureza. Mas até aonde vai a curiosidade de alguém? Até aonde vai a curiosidade de uma simples criança?
Veja, mas não aprecie é um conto escrito por Matheus Marinho e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.
VEJA, MAS NÃO APRECIE
Estava na sala e mamãe disse para ficar longe dos ovos... “os ovos de páscoa”. Eu cumpri com o que ela disse, não encostei em nenhum centésimo daquele ovo. Mas havia algo ali que me instigava e despertava uma certa curiosidade em mim. Em comparação aos outros ovos, esse era bem diferente. Nele, havia uma carta pendurada ao plástico. O que dizia essa carta? Uma mensagem do coelhinho da páscoa? Talvez... O que mais poderia ser afinal? Eu me recordo do desenho que havia nele... um coelho negro. Sim, um coelho negro. Ele tinha os olhos avermelhados – como um sol flamejante. É... era como um sol flamejante de fato, me lembro bem disso.
Vi mamãe dizer com o papai:
— Oh! Você compra a droga do ovo mais caro! Como sempre, fazendo as vontades de seu filho. Você nunca vai aprender né?! Eduard!?
— Mas eu... eu... não comprei o ovo – retrucava meu pai. ― Não dessa vez, ele não merece.
— Não comprou? Então quem comprou esse bendito ovo que está em nossa geladeira?! Você pode explicar isso? Edy???
— Não, não posso. Porque eu não o comprei, eu juro para você!
Escutava Papai e Mamãe discutindo. Eles não o compraram. Então... Como ele veio parar aqui, em nossa geladeira? Aquela curiosidade que estava dentro de mim só aumentava, e aumentava – como as despesas do papai.
A noite chegou, e com ela, a minha vontade de encostar nele. Decidi tentar; afinal, que mal faria? Eu precisava sentir em mãos, tocar e entender o que era aquilo. Quando me direcionei ao caminho que me levava à geladeira, escutei mamãe me chamar:
— Robe! Já para a cama! São 23:30, e já está mais do que na hora!
— Sim, mamãe.
Fui caminhando lentamente até o meu quarto. Passei pelo quarto de meus pais e ainda escutava uns múrmuros, como se estivessem discutindo, e segui em direção à minha cama.
O sono era algo bem distante, que parecia chegar nunca. Eu, com o corpo inclinado na cama, ainda pensava:
O que tem naquele ovo? O que está escrito naquela carta?
Essas perguntas soavam em minha mente. Olhei para o relógio: era 00:00. Já era páscoa então. Como já era páscoa, teria permissão para poder desembrulhá-lo. E lá vou eu, descendo as escadas bem de mansinho... Assim que cheguei lá em baixo, na sala, olhei para o quarto de meus pais (queria ter certeza de que eles não despertariam). Não escutei nada, silêncio absoluto.
Dei alguns passos até a geladeira, delicadamente, e ao chegar, destranquei a porta. E lá estava, embrulhado com um papel avermelhado, com um coelho negro estampado, e uma carta pendurada. Coloquei as minhas delicadas mãos de criança nele, e o levei até a sala.
Aquele papel vermelho que o envolvia, realmente se assemelhava a um “sol flamejante”, e aquele coelho me dava calafrios! A vontade de abrir aquilo era algo inevitável. Pus as mãos nele, e o desembrulhei aos poucos.
Quando o abri por completo, visualizava um lindo e delicioso chocolate. Não resisti e quebrei um pedaço. Degustava aquele doce chocolate e... havia me esquecido de algo. A carta... Aquela carta que estivera pendurada no ovo já não estava mais lá. Nesse momento, senti algo espetar por baixo de minha perna. Levantei-me, e aquilo se desgrudou de minha pele, caindo no chão. Era a carta, e o medo tomou conta de mim. Eu cuidadosamente a peguei, e abri. E o que estava escrito era: VEJA, MAS NÃO O APRECIE.
Quando li isso, ainda estava com um pedaço de chocolate na mão. Foi quando a cor negra e escura do chocolate começou a percorrer minha pele. Eu corri para o banheiro, e o que via no espelho era o meu reflexo negro e escuro, como o coelho da embalagem. Fechei os olhos e pensei comigo mesmo que aquilo era só uma simples ilusão, só uma simples ilusão. Quando abri os olhos, meu reflexo normal estava de volta. Corri até o meu quarto e tentei me cobrir com as cobertas.
Aquilo me manteve acordado a noite toda.
Esse conto foi escrito por Matheus Marinho para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.