Porque gostar de 007 e não de James Bond

Há algumas semanas, fui convidado pelo pessoal do Novo Fã Podcast para participar da sua edição nº 007, onde falaríamos dos livros que originaram o agente secreto mais famoso da cultura pop: Bond, James Bond.

Mesmo com o tempo meio apertado, resolvi aceitar pelo fato de que teria a oportunidade de revisitar histórias e personagens que povoaram minhas tardes adolescentes. Assim como a ficção científica, a espionagem era um tema recorrente das minhas leituras juvenis, e foi através de Ian Fleming e seus 11 livros que me iniciei nesse gênero pelo qual sou apaixonado até hoje.

Então foi com empolgação que comecei minha mini maratona rumo ao passado.

Goldfinger

Como no podcast cada participante iria indicar um livro específico, iniciei minha jornada logicamente pelo livro que me coube: Goldfinger.

Capa_goldfinger_007.inddAlém de gostar muito do filme, escolhi falar desse livro por lembrar que havia sido também o que eu mais gostara de ler quinze anos atrás, principalmente por ser mais longo que os outros, com muitas reviravoltas.

O enredo gira em torno da perseguição a um contrabandista internacional de ouro, que todos sabem ter negócios escusos, mas que até então não cometera nenhum erro que permitisse a sua captura. Passando por Miami e por boa parte da Europa, essa é uma das mais famosas aventuras de 007, imortalizada no cinema pela cena da garota coberta de ouro.

Li a primeira parte do livro com um sorriso nos lábios. Encontrei exatamente tudo que lembrava ter me cativado da primeira vez que o li: a intricada teia de espionagem que se formou no mundo durante a Guerra Fria; o agente torturado pelas ações do passado e pelo fardo de carregar o 00 (a licença para matar); o vilão que se sente acima da lei e dos Estados.

Mas, começando a segunda parte, o sorriso desapareceu.

Como você deve saber, em toda aventura de 007 existe sempre uma Bond Girl. Em Goldfinger, no entanto, James Bond se envolve não com uma, mas com três garotas, uma em cada parte do livro. Eu já sabia que ia encontrar um James Bond sedutor e desapaixonado, que tenta não se envolver demais. É isso o que vemos nos filmes, e é meio que a característica marcante do personagem, seja ele interpretado por Sean Connery ou Daniel Craig. O que eu realmente não estava preparado para encontrar era um Bond extremamente machista, beirando a misoginia.

tillyIsso se mostrou quando Bond encontra a segunda moça de sua jornada, Tilly Soames, que por coincidência também está atrás de Goldfinger. O agente tem verdadeiras explosões internas de raiva ao ter seus planos frustrados pela inexperiência da jovem e por esta resistir às suas investidas amorosas.

“Maldita cadelinha estúpida!”

Ler isso me chocou profundamente, porque eu nunca imaginava encontrar isso ali. E eu já tinho lido o livro! Como eu não percebera isso da primeira vez? Talvez se tivesse sido apenas essa a manifestação chocante de Bond, a explicação poderia ser a de que não estava prestando atenção e acabei passando direto. Mas não foi a única.

Avançando na história, vemos um Bond demonstrando novamente ser machista, como também racista e homofóbico.

Oddjob_(Harold_Sakata)_-_ProfileO racismo de Bond se mostra quando este entra em contato com os empregados de Goldfinger, que são coreanos, principalmente o seu capanga de chapéu coco, Faz-tudo.

“…Bond pretendia continuar vivo de acordo com suas próprias condições. Entre essas condições incluía-se o fato de obrigar Faz-tudo ou qualquer outro coreano a ficar exatamente em seu lugar, que, na opinião de Bond, era bem abaixo do lugar dos macacos na hierarquia dos mamíferos.” (p. 148)

Mais à frente, ganhamos de brinde opinião de Bond sobre a homosexualidade, quando somos apresentados à terceira Bond Girl da história, Pussy Galore, que é a líder de uma gangue apenas de mulheres:

Pussy_Galore's_Pilots“Conhecia muito bem esse tipo e achava que ele, assim como seu correspondente masculino, era conseqüência direta da concessão do direito de voto às mulheres e da ‘igualdade entre os sexos’. Em resultado de cinqüenta anos de emancipação, as qualidades femininas estavam-se extinguindo ou transferindo-se para os homens. Por toda parte havia tipos duvidosos de ambos os sexos, ainda não completamente homossexuais, mas confusos, sem saber o que eram. O resultado era um rebanho de infelizes desajustados sexuais — ocos e cheios de frustrações, as mulheres querendo dominar e os homens querendo ser mimados. Sentia pena deles, mas não tinha tempo a perder com eles.” (p. 181)

A duras penas terminei o livro, e ao fim estava arrasado.

Não conseguia compreender como deixara passar isso tudo. Como é que uma das lembranças literárias que eu mais cultivava era recheada de elementos abomináveis?

Atormentado por esse questionamento, passei para o próximo da lista, querendo verificar se era um caso isolado, ou se realmente encontraria esses elementos em todas as obras de Ian Fleming.

Cassino Royale

Download-Cassino-Royale-Ian-Fleming-ePUB-mobi-pdfFoi com expectativa e apreensão que iniciei essa que é a primeira aventura de James Bond, publicada em 1952. Já o encontramos como um experiente agente do Serviço Secreto Britânico (MI6), que recebeu o posto de 00 depois de uma missão nos EUA. Seu objetivo agora é desbancar (literalmente) um agente a serviço do Smersh (Serviço de Contraespionagem Soviético) que joga num cassino no interior da França.

O enredo original difere da sua adaptação cinematográfica de 2006 (a primeira com Daniel Craig), que atualizou a missão para os tempos modernos, apesar de manter cenas clássicas como a do cassino (mudando apenas o jogo de baccarat para poker) e a da tortura na cadeira.

Vesper_Lynd_(Eva_Green)Por ser um livro mais curto que Goldfinger, infelizmente não demorei a encontrar o que temia.

Novamente, ao ser apresentado à Bond Girl da história, Vesper Lynd – uma agente da Seção S (especializada em assuntos Soviéticos) enviada à França para lhe auxiliar na missão de desbancar Le Chiffre –, Bond tem seus arroubos de machismo.

Quanto aos outros dois elementos, racismo e homofobia, não os encontrei nesse livro, talvez pelo simples fato de não haver nele personagens que despertassem tais preconceitos em Bond.

Creatura ad Creatorem

Ainda havia um terceiro livro para ler, Dr. No, mas eu não aguentei. Ao invés disso, resolvi tentar entender o porque de algo tão bizarro ter causado tanto impacto na cultura mundial ao longo do século passado, e continuar sendo um dos ícones do nosso tempo.

ian fleming

Ian Fleming

Apesar de ter trabalhado um breve período como jornalista, Ian Fleming não era escritor profissional, escrevendo seus livros apenas na última década da sua vida.

Suas histórias de espionagem eram em grande maioria baseadas em seu conhecimento interno acerca do funcionamento do Serviço de Inteligência Britânico, uma vez que fazia parte deste, tendo inclusive atuado diretamente em diversas operações durante e após a II Guerra Mundial.

Talvez por não ter sido agente de campo, Fleming transpôs para seu personagem elementos seus que ele acreditava serem dignos de reprodução em um herói.

No mesmo sentido, com as ações de Bond, Fleming também se realizava por tabela, conseguindo alcançar na ficção um destaque que não obtivera na vida real.

O fato de que seus livros venderam mais de 30 milhões de cópias durante sua vida, e quase o mesmo número apenas dois anos após sua morte, demonstram que ele era apreciado por seus contemporâneos, seja por seu estilo de escrita, pelos temas que abordava (como a supremacia britânica sobre o mundo, os efeitos da guerra e luta do bem contra o mal) ou pelas opiniões que expressava (as mesmas que achei absurdas).

O mundo durante a década de 1950 estava em transformação, principalmente com relação às mulheres. Devido à sua participação ativa no esforço de guerra e à conquista de uma série de direitos que 10 ou 20 anos antes pareceriam impensáveis, as mulheres começaram a ocupar espaços que antes eram de exclusividade dos homens. Estes, não satisfeitos, utilizaram-se de vários meios para se opor a esse avanço, de forma a retornar a seus status de privilégio anterior à guerra.

As opiniões machistas que Fleming expõe através das palavras e pensamentos de Bond são claramente reflexo desse incômodo em relação à emancipação feminina. Interessante notar que Bond se considera no direito de se relacionar com diversas mulheres sem nenhum tipo de compromisso, mas as julga quando percebe que estas tem um “passado” de vários casos, ou que já atingiram uma determinada idade sem ter contraído casamento.

Da mesma forma, por fazer parte do um dia glorioso Império Britânico, Fleming se posiciona fortemente contra as minorias étnicas e a imigração, “males” que enfrenta o Império enfrenta durante seu período de decadência.

Sobre a homossexualidade, não há nem a necessidade de se explicar mais do que o simples fato de que sua prática era considerada crime no Reino Unido. Temos casos célebres de castrações químicas submetidas como punição, como o do matemático Alan Turing (O Jogo da Imitação) ou do empresário Brian Epstein (considerado o quinto Beatle).

Assim, criador e criatura estão envoltos em liames de projeções e reflexões de seu tempo, tanto que fica complicado separar os dois e dizer quem influenciou quem.

007 x Bond

Certo, consegui compreender mais ou menos porque Fleming fez sucesso na época em que partilhava suas opiniões com as dos seus leitores. Mas eu não nasci em 1960 (e talvez você também não).

Nasci no final da década de 80, e só fui ler Fleming no início dos anos 2000. Teoricamente, eu não sou o público que Fleming visava atingir, mas ainda assim fui influenciado, pois como é que eu pude não achar estranhas essas opiniões ou simplesmente ignorá-las?

Fiquei atormentado por esse questionamento, e tenho que confessar que ainda estou, pois não encontrei resposta pra ele.

O que posso dizer é que, na mesma medida que fiquei chocado com o que encontrei em livros que adorava a 15 anos atrás, também fiquei feliz por ter identificado esses defeitos neles. Sinal de que, de alguma forma, evoluí. Seja porque mudei minhas opiniões, seja porque me atentei a problemáticas que antes não chamavam minha atenção.

Por ser fascinado por espionagem, ainda me pego admirando o universo que envolve o 007. Os apetrechos, os carros, as técnicas de comunicação, o treinamento. A figura do soldado me intriga, até porque a própria guerra é algo fascinante, e os soldados da Guerra Fria eram os espiões.

O profundo conhecimento de Fleming do modus operandi dos serviços secretos nacionais torna sua narrativa bastante crível (apesar dos feitos holywoodianos que as vezes são inseridos nas obras). Nisso ele é competente. Tanto que influenciou uma série de escritores que moram até hoje no meu coração, como Frederick Forsyth, Tom Clamcy e Robert Ludlum.

Acredito que não seja o caso de queimar os livros em praça pública, ou mesmo fazer boicote à sua comercialização. A questão é ler com a consciência de que, como falei, tanto autor quanto personagem são frutos de sua época.

As próprias adaptações cinematográficas, que começaram a ser produzidos uma década depois dos livros, atenuaram vários aspectos do personagem, sinal de que o legado era do universo e não do autor.

Você vai encontrar um 007 dentro de cada espião ou agente secreto que procurar, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Seja no Chacal, em Jack Ryan ou em Jason Bourne. Até na Nikita.

007 não é o problema. O problema é James Bond.

Donnie Darko (DarkSide Books)

Em abril você poderá finalmente entender um dos filmes mais incompreendidos de todos os tempos. Ou não.

Donnie Darko Frame filme 02Donnie Darko Post 01Isso porque a DarkSide Books traz ao Brasil o livro baseado no clássico Donnie Darko, escrito e dirigido por Richard Kelly.

Essa edição promete, além da qualidade que a gente já conhece da editora, uma série de extras para os fãs (e para os não-fãs também), como um prefácio do ator Jake Gyllenhaal, que estrelou o filme de 2001.

Vista sua estúpida fantasia de coelho (ou seria de homem) e lembre-se que toda a criatura viva nessa Terra morre sozinha.

 

Caixa de Histórias 40: Cem Anos de Solidão

Neste episódio recebemos Gustavo Magnani pra visitar Macondo e conhecer o dia a dia dos Buendías em Cem Anos de Solidão de Gabriel García Marquez.

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O Morro

Existe um mundo que acontece todo dia. Um mundo que nunca vemos ou tocamos. Um mundo do qual só ouvimos falar. Nesse mundo, o nosso atípico se faz rotina. O nosso bem é protegido pelo mal. Por um preço…

O Morro é um conto escrito por AJ Oliveira e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


O MORRO

A cada virada de maçaneta eu saía de um lugar estranho para outro. Meus móveis demoravam até a me chamar de “você”, mas não tanto quanto os vizinhos, que me olhavam com pena desde a noite passada, quando as chaves da casa me foram estregues.

Antes de sair, encaixei o chinelo entre os dedos. Meus sapatos agradeceram, pois não seriam esfregados a noite inteira devido o carpete de barro que a comunidade chamava de rua.

Foi então que subi o morro.

As crianças visíveis chutavam bolas, as invisíveis chutavam balas. Na verdade, eram capsulas vazias no caminho dos que garantiam nossa segurança com um fuzil na mão.

Eu não sou ninguém pra julgar, mas sou alguém pra subir. E foi o que fiz.

Quanto mais você avança na subida do morro, mais olhares você atrai. Dei por mim com uma escolta de meia dúzia, e a partir dali não teria mais volta. Estava nervosa – quem não ficaria? – pois, naquela comunidade em questão, todas as mulheres devem se apresentar diretamente ao Gilmar, “O Loko”, dono da bocada e, segundo as más línguas, “O cara do Oxi” para diversas regiões do RJ. Peixe grande, ou seja, perigoso até pros que sabem nadar.

Minha mãe dizia que eu me envolvia em tanta enrascada que acabaria casada com traficante, e assim me dar bem na vida. Se ela me visse agora apostaria nisso com todas as fichas, principalmente depois de eu chegar à casa do tal loko, e após duas fortes batidas na porta de um dos “escoltas”, ouvir um “É a marmita nova?”.

E pronto. Independente da situação, essas não são palavras que uma mulher esteja preparada pra ouvir, em momento algum.

Às vezes, o perigo é inevitável. Às vezes, nos trás recompensas. Eu tinha certeza de que não seria a primeira vítima do ser nojento ao outro lado da porta. Sabia que aquele seria, assim como foi o de tantas, o passe para conviver naquele grupo de pessoas.

Recompensas.

Desde o inicio, foi a palavra que me guiou. Sabia que nada viria fácil. Foi então que me entreguei aos meus instintos, e assim que a porta abriu, uma pergunta:

– O que é isso? – gritou o Loko, os olhos fixos nos cilindros apontados contra sua testa, erguidos pela minha escolta.

– Isso é o fim da linha Gilmar, você tá preso! – respondi, com acidez nas palavras – Homens! Algemem-no!

Da porta pra fora o perigo se move como a poeira do carpete carente de asfalto, ou como os moradores da comunidade costumam chamar, rua.


Esse conto foi escrito por AJ Oliveira para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


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[one_half]Sobre o autor: AJ Oliveira é um leitor da filosofia de banheiro público. Aspirante a escritor e podcaster nas horas vagas.[/one_half]

[one_half]Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.[/one_half]

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Pilotando! S02E08: Colony (USA Network)

Nessa edição falamos sobre o piloto da série Colony (USA Network).

Para proteger sua família, um ex-agente do FBI aceita a chantagem de colaborar com o governo para derrubar um movimento de resistência crescente na Los Angeles de um futuro próximo. Um drama naturalista sobre escolhas difíceis, no qual as pessoas terão de ficar juntas para sobreviver a uma ameaça existencial. De um dos criadores de Lost.

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Apresentação: Gabriel FranklinRaphael PH Santos


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