Éff | Amostra Grátis de HQ Entrevista

Quando eu comecei a fazer os textos do Amostra Grátis de HQ, o meu interesse era de mostrar para conhecedores e desconhecedores de quadrinhos a imensa quantidade de artistas que disponibilizam na Internet tiras e HQs completas de forma gratuita. Além disso, apresentar essas produções a possíveis consumidores, para que o quadrinista também tenha, sempre que possível, um feedback financeiro através da compra de algum quadrinho ou de apoio em campanhas de financiamento coletivo.

Mas eu não havia pensado em realizar entrevistas para essa coluna.

Bem, vamos mudar isso.

fernando caldas

Um dos casos mais interessantes de páginas nacionais de quadrinhos independentes que eu vi nos últimos tempos foi a do Éff, codinome do quadrinista sergipano Fernando Caldas. Motivo: eu conheci a página dele por causa de uma postagem patrocinada, estratégia simples mas tão pouco utilizada pelo produtor de quadrinho independente aqui do Brasil. Hoje, sua página tem pouco mais de 90 mil curtidores. Com o passar dos dias, fui acompanhando as postagens da página do Éff, cheguei a adiciona-lo no Facebook e pensei: por quê não entrevista-lo pro Amostra Grátis de HQ? Aqui está o resultado.

Entrevista com Éff

Pedro José: Qual seu nome, idade, de onde você é e onde você vive?

Éff: Assino meus trabalhos como Éff, que é como gosto de ser chamado, mas meu nome é Fernando Caldas. A explicação da mudança veio da adolescência quando assinava como F e com o tempo adotei o Éff para que fosse uma palavra inteira e não só uma inicial. Tenho 23 anos. Sou de Aracaju e é onde moro.

PJ: Você foi um dos primeiros quadrinistas que conheci que usou o patrocínio do Facebook para atingir novos públicos. Eu, por exemplo, fui um dos que conheci o que você fazia através de uma postagem patrocinada. A ideia de utilizar essa estratégia veio de você? Quais os resultados que você obteve dessa forma?

Éff: A ideia da postagem patrocinada veio quando percebi que mesmo tendo na época mais de 500 seguidores na página o Facebook só mostrava para uns 50 e uns 10 curtiam. Eu ficava puto, obviamente. Então comecei a impulsionar ao menos uma postagem a cada dois meses com o valor mínimo que o site permitia. Foi um investimento pequeno, mas como eu queria continuar impulsionando as postagens lancei um zine pra arrecadar o dinheiro que gastaria com elas. Funcionou bem, impulsionei várias outras postagens com o dinheiro. Com o tempo fui impulsionando cada vez menos. Mas como o Facebook ainda invisibiliza na timeline quem não financia, volta e meia impulsiono uma nova postagem.

eff

PJ: Seu trabalho fala muito da sua própria vida, tem muito de crônica, de intimidade. Qual o motivo de você ter escolhido esse campo para a sua obra? Como é, para você, expor questões íntimas a você? Como o público recebe o seu conteúdo?

Éff: O sentido para que o personagem principal ser eu mesmo é simples: quero lançar outros projetos que não são quadrinhos no futuro, como músicas. Então, quero muito ter uma unidade entre todos eles e a forma de mostrar isso é sendo autor e personagem. Existem muitos quadrinhos que são descrições fieis da minha vida pelo simples fato de que eu vejo o quadrinho como um registro. Então estou registrando momentos como num álbum de fotografias. No futuro, quero olhar pra todos eles e ver a minha evolução, a evolução do universo que estou tentando construir pra mim. Não comecei a fazer quadrinhos com essa temática, comecei fazendo charges sindicais para o sindicato dos professores da UFS, apesar de gostar bastante desse viés dos quadrinhos, não planejo um projeto com charges politicas tão cedo novamente. Sobre o público, ele recebe o conteúdo muito bem, me sinto a vontade para falar sobre qualquer coisa e acho que as pessoas se sentem a vontade também quando veem os meus desenhos. Procuro uma sinceridade com meu público, ser o mais honesto possível. Existem pessoas que não perdem nenhuma tira que posto e eu sinto que faço quadrinhos pra elas, que elas são as donas dos quadrinhos. Por esse motivo, no livro que lancei, não tem nem meu nome na capa, queria que as pessoas que lessem ele pegassem a publicação e não vissem como o livro do Éff, mas como um livro que é delas. Que a posição do personagem na capa, deitado e tranquilo fosse como elas quisessem ficar pra ler o livro e também por isso toda a publicação é num tom de laranja que me remete uma sensação de calma, felicidade, conforto e nostalgia.

Capa do livro-coletânea das micronarrativas desenhadas por Éff, lançado pela editora Tribo, lá do Rio Grande do Norte.

Capa do livro-coletânea das micronarrativas desenhadas por Éff, lançado pela editora Tribo, lá do Rio Grande do Norte.

PJ: Em entrevista recente ao Jornal Correio, você afirma que Sirlanney, Bechdel, Sacco e Caeto são algumas das influências do seu trabalho. Você saberia dizer qual o motivo? O que cada um acrescenta à sua obra?

Éff: Bechdel é a influência de maior peso, ela me mostrou que sexualidade, família, problemas de trabalho e de relacionamento, podem ser muito bem costurados no nosso trabalho, e que quadrinhos também podem ser uma autoanálise, mesmo sem ter foco nisso no livro que li dela. Considero a Sirlanney uma revolução nos quadrinhos nacionais pra mim, ela trouxe todo esse uso da internet para expor o trabalho e também mostra uma linguagem que se aproxima da crônica quando tem tanta gente que foca em só postar charges. A influência dela foi o que me fez abandonar as charges e me sentir confortável com isso. Lembro que viajei pra Goiânia só pra participar de um evento que ela estava ministrando uma oficina, acabei errando e participando da oficina da LoveLove6 sobre zines e acho que depois desse bate-papo com ela eu fui pra casa e comecei os rascunhos do que seria meu zine e as primeiras postagens de quadrinhos na página. Citei Sacco pois é meu foco na carreira, fazer livros que sejam registros não só da vida dele, mas de experiências importantes e jornalísticas. Joe Sacco não nos mostra as informações com charges rápidas, criticas, ele entra no universo do qual fala e a partir disso faz registros de uma vivência, todo o trabalho dele é genial. Sobre o Caeto, conheci o livro dele, Memória de Elefante, enquanto procurava quadrinhos pra me inspirar na nova linguagem que buscava na época, eu pintava quadros e me vi num paralelo com algumas passagens que ele fala em sua obra e o fato de ser brasileiro me fez sentir que podia fazer mais quadrinhos também.

eff sergipe

PJ: Recentemente, você compilou algumas de suas páginas para um livro lançado pela Editora Tribo. Qual a principal diferença, para você, do seu trabalho online para seu trabalho impresso?

Éff: Acho que a maior diferença depois de lançar um material impresso vem da cabeça das outras pessoas. Existe certa deslegitimacão como quadrinista e artista que escutei algumas vezes, e parece que eu tinha a necessidade de lançar um livro pra ser considerado um. Já tive quadrinhos que chegaram a acessos exorbitantes na minha página, e em apenas um ano fazendo eles consegui mais de 80 mil seguidores no Facebook, 13 mil no Instagram. É muita coisa pra quem começou do zero. Porém, quando vi listas no fim do ano passado com os destaques de 2015, os meus 80 mil não eram nada, vi quadrinhos que não possuem uma repercussão nem de 2 mil seguidores nas redes sociais entrarem nessas listas, simplesmente por serem lançamentos impressos. O quadrinho na Internet parece invisível para a crítica, o que é algo pouco inteligente, já que é o tipo de quadrinho que mais tem alcance. Já levando para o lado do público, foi a primeira vez que eu vi várias pessoas querendo me conhecer simplesmente para poderem assinar aquele livro. Minha maior sorte são as pessoas que me acompanham, elas são fiéis e carinhosas, tratam meus desenhos como peças que tem que depositar muito carinho. Muitas me mostram nas mensagens o livro chegando do correio e esse laço de amizade que elas mostram por mim, me faz nunca mais parar de fazer quadrinhos na vida.

Desculpas (tentando fazer outras animaçõezinhas)Desculpas (tentando fazer outras animaçõezinhas)https://www.instagram.com/eff.eff.eff/

Publicado por Éff em Domingo, 14 de fevereiro de 2016

PJ: O que esperar de suas futuras produções?

Éff: Tenho um grande planejamento na minha cabeça das coisas que vou lançar, e meio que penso em ir colocando pistas umas nas outras pra que funcionem como uma conexão. No livro que lancei esse ano, dois dos quadrinhos que estão nele viraram músicas, pois eu queria mostrar que meu próximo foco seria trabalhar os quadrinhos dessa forma, sendo acompanhados com músicas. Comecei no dia 16 de março a mostrar às pessoas que esse segundo projeto já está se movendo e ele se chama Fazendo Música. É uma graphic novel e vou posta-la na Internet como fiz com as tirinhas. Mas, além disso, tenho rascunhos de outros projetos de fantasia também, que quero por em pratica no futuro para descansar o autobiográfico. Já aviso que não esperem só quadrinhos sempre, quero flertar quadrinhos com várias outras coisas.

eff fernando caldas

Para saber mais do autor

As postagens patrocinadas do Facebook me fizeram abrir os olhos para a produção do Éff, e eu mal imaginava que isso era somente a ponta de um iceberg de planejamentos. O autor sergipano tem o que falta a muitos quadrinistas brasileiros: noção de empreendedorismo, investimento, dedicação. Fico aqui no aguardo do que esse cara vem oferecer no futuro.

Sem Fim: Luiz Gonzaga é o Batman

Eu não sei se você tinha noção, mas Luiz Gonzaga é o Batman e Zé Ramalho escreveu uma música sobre a vida e obra de Robin até virar Nightwing. Vai ouvindo.

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Participaram desse podcast: Raphael PH Santos, Kaio Anderson e Gabriel Franklin.


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Ataque ao Prédio (Attack the Block, 2011) | Longe do Hype #04

Vocês conhecem este cara da imagem acima? Claro! John Boyega, o Finn de Star Wars – O Despertar da Força. Porém, na pele do intimidante Moses na pérola de baixo orçamento Attack the Block (Ataque ao Prédio, de 2011).

O filme britânico do diretor Joe Cornish fez sucesso em festivais de cinema em 2011 graças ao charme do projeto, entrosamento do elenco de jovens atores e sua notória homenagem aos filmes de “terrir” dos anos oitenta. Tal qual as saudosas fitas VHS que ornamentavam a categoria Terror nas locadoras de vídeos com monstros fofinhos e dúbios na capa.

O enredo é basicamente sobre uma invasão alienígena no subúrbio de Londres e como o nicho marginal da cidade lida com tal incidente. E o protagonismo fica por conta dos membros de gangues, traficantes de drogas, párias da sociedade e pessoas comuns em situações inusitadas que transitam entre o gore, o absurdo e o escrachado.

Muito sangue, efeitos especiais duvidosos, porém, charmosos, e um espírito despojado fazem desse filme uma pequena pérola que passou longe do hype.

PS: A produção é do badalado Edgar Wright, responsável pela direção de Scott Pilgrim, Todo Mundo Quase Morto e Hot Fuzz. Logo, Attack the Block bebe do mesmo bom humor característico de suas obras.

PS2: Joe Cornish e Edgar Wright trabalharam juntos no script de Homem-Formiga da Marvel Studios.

NOTA: 7 pintinhos sorridentes, cujas presas brilham no escuro.

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Caixa de Histórias 39: Filhos do Éden 2 – Anjos da Morte

Nesta semana voltamos aos mundo dos anjos pra batalhar em Filhos do Éden 2 – Anjos da Morte de Eduardo Spohr

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Comentado no episódio

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Não há intenção de violar o direito autoral, o uso de trechos de obras literárias aqui se baseia no inciso III do artigo 46 da Lei 9.610/98 que diz que ” Não constitui ofensa aos direitos autorais a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem”.

Péssima Noite

Cientistas agora são capazes de reproduzir a última frase de uma pessoa antes de sua morte, levando à resolução de milhares de casos de assassinatos.

Péssima Noite é um conto de ficção científica escrito por Arthur Zopellaro e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


PÉSSIMA NOITE

“Em 1947, a medicina mundial presenciou a primeira reanimação de um cadáver graças ao cientista americano Claude Beck. Após seis anos de pesquisas contínuas, Claude Beck e o russo Натаниэл Клейтман (Nathaniel Kleitman) criaram a primeira máquina capaz de reanimar os mortos. Decidiram chamá-la de Ressuscitadora. Claude e Nathaniel continuam tentando aprimorar a máquina, uma vez que ela reanima o corpo apenas por alguns segundos. Um efeito colateral da Ressuscitadora é forçar o morto a falar novamente suas últimas palavras ditas em vida. Em Novembro de 19…”

Goldyear encostava-se na parede enquanto ouvia à fita. Tentava fixar sua mente no áudio para esquecer do fedor insuportável dos corpos.

Sentiu o cheiro de álcool chegando com o parceiro. Guardou o fone de ouvido e se endireitou.

— Finalmente, Marcus. Fique à vontade para demorar mais da próxima vez.

— Eu tive uma péssima noite. — Ele apertava os olhos tentando afastar a dor de cabeça. — O que nós temos aqui?

Entre eles, um corpo conectado a uma espécie de máquina.

— Eu não faço ideia. — A ironia na voz de Goldyear era notável. — Por que não descobrimos?

— Ligue a máquina de uma vez.  — Marcus apontava para o cadáver.

O necrotério estava equipado com a nova Ressuscitadora.

Goldyear apertou o botão e as engrenagens começaram a girar. O equipamento chiava e liberava fumaça ao mesmo tempo.

O cadáver sentou-se abruptamente, os olhos fixaram-se na parede, e um grito surgiu:

— MARCUS FEZ ISSO. FOI O DETETIVE MARCUS. SOCOoorr…

O corpo perdeu seu último resquício de vida e caiu, tão rapidamente quanto se levantou.

— Então você teve uma péssima noite? — disse a detetive Goldyear tirando sua arma do coldre.


Esse conto foi escrito por Arthur Zopellaro para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


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[one_half]Sobre o autor: Arthur Zopellaro é nerd de nascença e estudante de Sistemas de Informação nas horas vagas. Sempre gostou de histórias, independente do formato (filmes, jogos, etc). Atualmente tenta transmitir sentimentos através de palavras, uma forma de agradecer pelas excelentes obras que o fizeram sentir-se mais humano.[/one_half]

[one_half]Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.[/one_half]

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