Cowboy | Crônicas Messejanenses

Messejana é um bairro, mas bem poderia ser uma cidade, tanta é a sua riqueza. Suas lendas, causos e percalços vão ser relatadas a partir de hoje nas Crônicas Messejanenses.

Cowboy é uma crônica escrita por PJ Brandão e distribuída em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


COWBOY

009 é a senha que peguei. 007 é o que mostra o letreiro digital, em caracteres vermelhos. Sento em uma das cinco ou seis cadeiras da gráfica rápida, do lado de uma moça com o celular na mão, e aguardo pela minha hora de ser atendido. Preciso imprimir uns boletos. Na frente dos computadores, uma mulher pede pra uma funcionária bolar um panfleto para sua lojinha de doces e salgados. Atrás da mulher, um menino. Serelepe, a criança se joga no chão, gira, dança sua coreografia caótica e infantil.

Um casal entra na gráfica. O homem vai para um dos computadores na parte de lan house (50 centavos, 15 minutos), a mulher senta numa das cadeiras vagas e espera. Ela reconhece o menino e o chama. Relutante, o menino nega. Não fala com estranhos, como dizem as grandes leis não escritas. A mãe dele, no entanto, reconhece a mulher. Após um breve segundo de trocas de sorrisos e acenos, a mãe permite o menino falar com a mulher recém-chegada. A moça do meu lado atende o celular.

Do colo da mãe, saltitante, o menino puxa uma sacola branca e grande. Dentro, a cabeça de plástico de um cavalo. Um daqueles cavalos de brinquedo, com uma cabeça equina e um cabo de vassoura. O menino coloca o animal artificial entre as pernas e começa a galopar pela gráfica. Enquanto isso, a moça do meu lado, desliga o telefone e me entrega sua senha.

Moça: - Toma, não vai dar tempo de imprimir minhas coisas, preciso ir. Minha senha é a 008, é a próxima.

Agradeço, junto a um sorriso. A moça vai embora. O menino galopa. A mulher chama o garoto pra conversar. Ela pergunta quantos anos o menino tem, ele responde com a mão.

Menino: - Tenho isso, ó.

Levanta três dedos. A mulher sorri e pergunta qual o nome do cavalo.

Menino: - O nome dele é Cavalo.

Mulher: - Mas um cavalo chamado Cavalo? Não pode. Tem que arranjar um nome pra ele.

Menino: - Hum... Então... O nome dele vai ser 1, 2, 3!

E continua seu galope. Uma mulher chega à gráfica procurando fazer impressões. Entrego ela a minha senha antiga, a 009. Faço dobradura com o papel 008. A mãe do menino fica satisfeita com a arte desenvolvida pela funcionária, se dirige ao caixa, para fazer o pagamento. Ela se despede do casal de amigos e leva o filho. E o cavalo. Antes de sair o menino retorna pro seu dilema.

Menino: - Pronto, mãe, já sei! O nome dele vai ser Valente.

Foram-se os dois. O letreiro digital apita e mostra o número 008, em caracteres vermelhos.


Essa crônica foi escrita por PJ Brandão para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor:  Pedro 'PJ' Brandão é roteirista e professor de roteiro para quadrinhos. Nascido e crescido em Messejana, vê o mundo como uma grande biblioteca e de vez em quando lê algumas crônicas no dia a dia da cidade e do mundo que habita.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.