Holy Cow

David Duchovny é um nome que, se não lhe traz nada à mente sozinho, se associado a mais outros dois - Fox Mulder e Hank Moody - definitivamente vai fazer soar alguns sinos (é, eu traduzi uma expressão idiomática ao pé da letra).

david duchovnyO fato é que, antes de ser o astro de séries pop como Arquivo X e Californication, ele é um qualificado estudioso de literatura, com bacharelado (Princeton) e mestrado (Yale) na área. Só não chegou a terminar seu doutorado, cuja tese inacabada recebe o título de Magic and Technology in Contemporary Poetry and Prose (Magia e Tecnologia na Poesia e Prosa Contemporâneas), porque a carreira de ator paga bem melhor.

Mas isso tudo é pra dizer que um livro escrito por um grande astro pode guardar surpresas realmente muito boas. É o caso de Holy Cow.

Primeira obra publicada pelo a(u)tor americano, Holy Cow, como o próprio nome sugere, conta a história de uma vaca chamada Elsie Bovary (que depois muda seu nome pra Elsie Q em homenagem a música do Creedence Clearwater Revival). Elsie é uma vaca jovem, que ainda não deu cria, e que está muito satisfeita com sua vida na fazenda. Até o dia do grande Acontecimento, quando ela descobre a real utilidade dos animais para os homens e resolve fugir.

E ela vai fugir pra onde? Ora, pra onde ela não vá virar comida.

E onde seria isso? Ora, na Índia, é claro!

holy-cow-ilustrac3a7c3a3o-03Para lhe ajudar nessa empreitada, Elsie conta com a inusitada ajuda de um porco, Frank (que muda seu nome para Shalom, já que ele é judeu), e de um peru, Tom (que faz greve de fome para não ser comido no dia de Ação de Graças).

Como quem conta a história é a própria Elsie (que a dita para sua editora, já que vacas não podem digitar ou escrever), acompanhamos a visão dela sobre costumes, crenças e práticas dos seres humanos que, por fazermos parte dessa espécie e estarmos acostumados, esquecemos como são bizarras.

Apesar de alguns o classificarem como uma fábula infantil, o livro traz profundas reflexões. Além disso, ele é lotado de referências (muitas, mas muitas músicas são citadas) e é muito engraçado, com um humor surreal no melhor estilo Guia do Mochileiro das Galáxias e Monty Python, que faz você rir e refletir ao mesmo tempo. Algumas piadas incomodam, mas justamente porque ele toca em pontos que nós não estamos acostumados a refletir. E ele atira pra todo canto: fala sobre religião, indústria alimentícia, vegetarianismo, veganismo, machismo, feminismo (imaginem ai os ismos que vocês quiserem).

foto-2015-12-23-17-47-48-595156405121088-funflyshipDestaque especial para a brilhante tradução feita por Renata Pettengil, editora-executiva de ficção estrangeira da Record (editora que trouxe o livro para o Brasil esse ano), que teve a dificílima tarefa de traduzir (ou não) um livro recheado de trocadilhos com expressões idiomáticas e referências à cultura pop em inglês (já que Elsie Q fala como uma adolescente americana de 15 anos).

Ela já havia feito trabalhos incríveis em O Teorema Katherine, de John Green, e A Bela e a Adormecida, de ninguém menos que Neil Gaiman, e mais uma vez acertou em cheio!

Fik a dik e vale dar uma conferida se você procura uma leitura leve e divertida, mas que é extremamente inteligente, a ponto de fazer você repensar completamente sua vida diária.

  • Adah Conti

    Duchovny. Meu eterno Mulder. Nem precisava ser um bom escritor. Mas é.