3cm

Você acredita em coincidências? Não precisa. Elas acreditam em você.

3cm é um conto escrito por Gabriel Franklin e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


3CM

O primeiro tiro errou seu coração por apenas três centímetros.

Os mesmos 3 centímetros de dilatação que faltaram para sua mãe lhe ter num parto normal. Submetida a uma cesárea, ela faleceu devido a uma complicação durante a cirurgia, deixando-o praticamente órfão.

Seu pai nunca se recuperou do golpe de perder o amor da sua vida ainda tão jovem, e o culpou durante o curto espaço de tempo em que viveram juntos. A vingança vinha em forma de negligência, pois a criança era muito nova para receber outras formas de maus tratos. A fome fez o estrago que os socos fariam dali a alguns anos. Mas os socos nunca vieram. Logo depois que completou 2 anos, seu pai enforcou-se na viga da sala, que cedeu com seu peso, deixando como única lembrança seus pés balançando a três centímetros do chão.

Então órfão de fato, ele foi morar com alguns parentes distantes, tios de sua mãe, que não sabiam sequer de sua existência, até o momento em que o serviço social chegou trazendo-lhe no dia mais frio do ano, que deixara uma camada de três centímetros de neve no asfalto.

Teve uma infância normal, apesar de estar sempre doente nos primeiros anos. Resolveu compensar a fome que passou ao nascer, comendo tudo que via pela frente. Recuperou o peso ao longo do tempo, mas sua altura era sempre abaixo da média para sua idade. A menina que lhe deu seu primeiro beijo, durante um baile da escola, era uns bons três centímetros mais alta.

Não era inteligente, mas também não era de todo burro. Sempre se contentou em ser mediano, e estava feliz em continuar o negócio do tio, uma marcenaria. Participava de todo o processo: desde a derrubada das árvores, até a transformação da matéria bruta em mesas e cadeiras. Mas seu passatempo preferido era esculpir peças delicadas, depois de passar horas exaustivamente escolhendo o pedaço de madeira correto. Uma vez escolhida a matéria-prima adequada, em poucos minutos ela se transformava em lobos, aviões, pirâmides e até bonecas. Todos medindo três centímetros.

Foi exatamente com sua mais recente peça nas mãos, tomando uma cerveja no bar que sempre frequentava depois do trabalho, que ouviu a notícia do ataque. Algum porto do outro lado do mar, com nome de pedra preciosa, foi bombardeado pelo inimigo e agora eles estavam em guerra. Antes de a notícia no rádio terminar, ele já estava se levantando, deixando no copo o colarinho de espuma, que detestava, mas que o dono do bar adorava se gabar de ter exatos três centímetros de espessura. Uma arte. Segredo de família.

Alguns meses depois, chegou uma carta. Ele olhou o remetente e nem sequer a abriu. Mais um mês e chegou outra. E mais outra. As cartas iam chegando, mas ele simplesmente as ignorava e empilhava. Não era covardia. Não era nem sequer medo de morrer. Ele só não tinha com quem deixar a oficina. Um dia, bateram à sua porta. Era o Exército. Não lhe deram tempo nem de pegar itens pessoais. Ali mesmo foi examinado. Por sua altura, ou pela falta dela, e pelos músculos acumulados no trabalho diário, foi designado para a infantaria e despachado para o sul, para aprender a matar. Deixou a oficina para trás, ainda com a pilha uniforme de cartas intocadas, com três centímetros de altura, na mesa ao lado da porta, que ficou aberta.

Seu tempo na guerra foi estranho. No começo ele não conseguia pensar em nada, apenas em agir e sobreviver. Passava dias e mais dias sem dormir um minuto sequer. E quando dormia, era logo acordado pelo soar das armas e os estrondos dos morteiros. Havia momentos, no entanto, em que ele se via entregue a um sentimento de contemplação. Eram breves, mas ele os aproveitava para pensar em como a vida era ínfima.

Durante um desses momentos veio o tiro. A bala, uma Mauser 8mm, viajou quase 600 metros até lhe varar de ponta a ponta, passando por entre duas costelas e perdendo-se nos campos enlameados da França. Foi um belo tiro. Um tiro limpo. Mas errara o alvo. Por três centímetros.

Ele nem sequer o sentiu de fato. Só se deu conta de que tinha sido atingido quando o sangue quente correu por suas costas. Não havia dor, apenas uma imensa descarga de adrenalina. Nesse momento, ainda de pé, ele compreendeu tudo. Compreendeu que por uma série de coincidências, que ele até então ignorava, aquela medida permeara toda a sua vida. O nascimento, a morte do pai, a infância, o trabalho. Tudo. Até chegar àquele momento, em que os três centímetros lhe salvaram a vida. Sim. Estava salvo. Um pequeno sorriso lhe surgiu nos lábios.

Se tivesse continuado o pensamento, teria percebido seu erro. A sua medida, assim como o Pi dos cabalísticos ou o Phi dos iluminados, era um acaso do Universo, e como todo acaso, não era bom ou ruim. Não salvava ou condenava. Simplesmente era.

Mas não teve tempo de ter a revelação completa. Foi interrompido por uma pequena ardência em sua testa, três centímetros acima do olho esquerdo.

O segundo tiro o matou ainda com o sorriso nos lábios.


Esse conto foi escrito por Gabriel Franklin para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Gabriel Franklin é formado em Direito e cursa Letras pela Universidade Federal do Ceará. Trabalhou muito tempo como atendente de uma das maiores livrarias do Brasil e dedica-se, desde 2013, a dar opiniões no Iradex, tanto no site como no podcast. Seu objetivo? Ler todos os livros do mundo.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Felipe Lopes

    3cm é a distância que a Lágrima percorreu no meu rosto.
    Belo conto.

  • Adah Conti

    Segurei o folego até o fim. Ótimo.

  • Leonardo Melo

    :~)

  • Felipe Andrade

    Que conto irado, muito bom!

  • Emilia Braga

    Faltou o ar aqui! Cabrito, tu escreve muito! 🙂

  • Bruno Trajano

    Ual! Tenso! Forte! Cativante!
    bem bacana!