Mais uma noite

Toda uma vida pode passar por sua cabeça enquanto o sono não vem. Memórias, medos, lembranças. Horas tornam-se anos e tudo pode acontecer. Vamos dormir?

Mais uma noite é um tocante conto escrito por Gusta Mociaro e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


MAIS UMA NOITE

A chuva caia implacável como não se via há anos. O som das gotas atingindo o telhado era como o de milhares de baquetas rufando tambores agudos. O marido, imóvel, parecia não se importar com o barulho. Estava tranquilo, num repouso limpo, estático.

- Amor, você já está dormindo? Amor?

Quieto, pálido, o homem continua ali, como se nada ouvisse.

- Jorge? JORGE? Ai minha nossa senhora, não pode ser. JOOOOOOOORGEEEEEEEEEE?

Nada. Nem um suspiro. Os olhos de Telma se tornam rubros e úmidos. Seu coração acelera mas o tempo parece congelar. O quarto, antes iluminado pelo velho abajur no criado-mudo, desaparece enquanto a escuridão preenche cada centímetro. O som da chuva é substituído por um silvo feroz. As pernas amolecem e Telma desmaia desajeitada.

Em meio a penumbra, ela se vê deitada no chão. Os pingos no telhado retornam junto com sua consciência. Ainda incrédula, apoia uma das mãos na lateral da cama e vagarosamente eleva a cabeça ao nível do colchão. Seu pesadelo continua ali, estirado, sereno.

- Não Jorge, você não pode me abandonar! Não pode. Vamos, abra esses olhos e fale comigo. Eu preciso ouvir sua voz mais uma vez.

O rosto encharcado, os sentimentos gritam em sua cabeça. Tudo está confuso.

- Jorge, você não faria isso comigo. Você não me abandonaria, Jorge. Meu amor, você não faria isso comigo.

Além dos olhos, a pele de Telma agora ganha tons de fogo. O sangue ferve e o desespero é substituído por um ódio irracional. Ela senta ao lado do corpo do marido, seca as lágrimas, e o encara com furor.

- Quer saber? Você faria sim! Claro que faria. Você sempre me abandonou. No começo era o futebol. O bar. As horas extras do trabalho. E agora essa história de truco. Você nunca gostou de jogo de cartas. Por que agora? Acho que você queria mesmo era ficar longe de mim. - as lágrimas voltam - mas eu não. Eu não sei viver sem você.

Telma toca a face do marido. O corpo continua quente mas parece que já se passou uma eternidade desde que ele adormeceu. A solidão castiga, o sofrimento é lento.

Agora em pé em frente à cômoda, ela reaviva lembranças nos porta-retratos. Segura e traz para perto dos olhos a foto das bodas de prata. Eles ainda eram relativamente jovens e comemoravam felizes aquele momento. Hoje, poucas horas antes, falavam sobre as bodas de ouro que estavam próximas. Já não tinham mais amigos. Nunca tiveram filhos. Dessa vez a festa seria apenas para o casal. Um jantar romântico. Provavelmente uma sopa bem saborosa. A dentadura que Telma usava há alguns meses ainda doía quando ela tentava morder algo mais duro.

- Eu deveria ter ido no seu lugar! Você sabia se virar. Continuaria dormindo suas noites tranquilas e fazendo seu café amargo ao amanhecer. Eu não. Eu vou continuar me revirando na cama noite após noite, sentindo a falta do seu calor ao meu lado. Deus, eu imploro, me deixe ir no lugar de Jorge.

Ela volta então para a cama, deita ao lado do seu amor, segura firme a mão rígida e fecha os olhos. O mundo parece parado.

Jorge tosse 3 vezes, ajeita o travesseiro e vira para o lado.

- JORGE? JORGE?

- O que foi, meu bem? A insônia te pegou novamente?

- Jorge...

- Vem cá, deita aqui pertinho, vou te fazer dormir nos meus braços, meu amor.

A chuva preenche o silêncio. A noite segue seu curso.


Esse conto foi escrito por Gusta Mociaro para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Gusta Mociaro é front-end developer e viciado em internet.

Escritor? Nem de longe. Mas um grande fã de boas histórias.

Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Arthur Zopellaro

    Você sabe transmitir sensações e emoções muito bem! Consegui sentir o medo da Telma enquanto o quarto escurecia.
    Seus contos além de bons, dão uma aula!

    Obrigado pelo texto!

    • Gusta Mociaro

      Valeu Arthur.
      Esperando para ler mais dos seus também. =)

  • Emilia Braga

    Fiquei emocionada com esse.
    Lembrei-me das palavras de meu avô, em uma visita recente que o fiz, narrando seu susto no meio da noite, dia desses, ao tocar sua esposa e a sentir fria, imóvel, atônita, felizmente despertando alguns instantes depois. Foi pressão baixa, mas o seu relato pra mim, de um breve desespero por não saber como seria sua vida sem ela, foi de gelar o coração.
    Amei o texto, principalmente por me remeter ao meu velho e ao seu momento desconfortável que ele ainda conseguiu exprimir o quanto o amor continua jovem. <3

    • Gusta Mociaro

      Com a idade isso acaba virando um medo real e constante, né?. Que terrível pensar nisso.

      Abraço pro seu avô, e não leia esse conto pra ele não. Deixe ele sorrindo com as histórias do Alf.

  • Parabéns! Muito bom mesmo.
    Me identifiquei muito com a Telma, sei muito bem como é ficar fritando na cama e não conseguir dormir.

    • Gusta Mociaro

      Obrigado Aleques!

  • Mackenzie Melo

    Nesse caso eu me senti como o Jorge. Fiquei mesmo foi com pena de minha esposa, pois ela é a da insônia e eu sou o que durmo fácil e sou duro de acordar…

    Muito bom Gustavo!

    • Gusta Mociaro

      Sou desses também. Nem imagino como é chegar perto de um colchão e não dormir.

      Valeu!

  • Adah Conti

    Excelente Gustavo!

    • Gusta Mociaro

      =)