Estação Tupi

Carolina Quarta é uma megalópole feita de pessoas com pressa e de coitados que não veem o tempo passar, onde a conversa precisou de intervenção governamental para não desaparecer.

Estação Tupi é um conto escrito por Alex Nunes e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


ESTAÇÃO TUPI

Estava atrasado e não conseguiria voltar para a estação terminal, teria que pegar o vagão temático da estação perto de casa. As chances de conseguir alguém disponível ou um grupo que me permitisse entrar na conversa eram bem baixas. A maioria dos conversadores leva a temática do vagão muito a sério e acham que se você quer interagir, tem que fazer como todo mundo, voltar até o terminal.

Desde que comecei a interagir no vagão de conversa, sempre volto. Mas hoje estou muito atrasado mesmo. Vou tentar a sorte e ver se consigo uma brecha da minha estação. Caso contrário, só na sexta que vem. Não gosto da interação da volta, os poucos que pegam o vagão, mesmo que estejam dispostos a interagir, estão cansados, estressados por causa do trabalho ou só querem passar o tempo para chegarem mais rápido em casa, sem se interessar realmente pelo papo.

Só de pensar que as próximas duas horas de viagem poderiam ser um tédio me fez pensar em ir de vagão normal mesmo. Todas as funções nos consoles são bloqueadas, sendo permitidas apenas chamadas de emergência nos vagões temáticos. De resto, o console fica quase inútil, sem jogos, sem livros, filmes, sem vídeos, música. Nada.

Como era de se esperar, a plataforma estava completamente lotada, era horário de pico. Na região do último vagão também. Mas o espaço dedicado à entrada para quem vai usar o vagão temático estava vazio. Aproximei meu console para liberar a catraca que dá acesso ao espaço reservado, um estreito corredor feito com tubos de inox. Automaticamente meu console ficou apenas com a função “chamada de emergência” ativa.

O primeiro trem que parou não tinha o vagão temático. As pessoas se encavalavam, se cotovelavam, empurravam, com violência mesmo, sem pudor, tudo para conseguir entrar no trem. Por mais chocante que parecesse, isso era normal para muita gente. As portas do trem seguinte se abriram e eu entrei calmamente. Não havia mais lugar para sentar, mas o vagão estava longe de estar lotado e, como eu previra, todos já estavam conversando. Em cada grupo pelo menos uma pessoa segurava seu console em modo “não perturbe”, com a coloração vermelha.

Nenhuma pessoa se atreveu a entrar além de mim. A multa para quem entrasse em um vagão temático sem estar devidamente cadastrado na prefeitura era pesadíssima, sem contar que na próxima estação um segurança estaria esperando para retirar o contraventor.

Como eu não estava em nenhuma conversa, segurava meu console no modo receptivo. Assim, todo desativado, parecia apenas um pedaço lapidado de vidro, que emanava uma leve luz verde.

Duas estações já haviam se passado e nada de ninguém entrar. Minha esperança era que alguém entrasse a partir da metade do trajeto, ou seja, depois de uns quarenta minutos. Pelo menos eu ainda teria uma hora de conversa.

O cansaço tomava conta de mim, estava quase dormindo em pé e nem percebi o trem parar na estação. Nem me dei ao trabalho de virar, pois normalmente ninguém entra na estação Tupi.

De repente o senhor sentado à minha frente, que conversava com uma bela jovem, se levantou. Fiquei muito feliz, pois achei que ele iria embora e eu poderia conversar com ela. Mas ele ficou parado imediatamente ao meu lado e continuou a conversa, com seu console cintilando em vermelho. Fazer o que? Talvez ele quisesse esticar as pernas. Fiz um movimento para me sentar e ele prontamente me interrompeu apontando para trás.

Quando olho, vejo uma senhorinha, bem velhinha, andando vagarosamente na direção do acento vazio. Não seria dessa vez que eu iria sentar ou conversar. Não era raro que pessoas mais idosas entrassem por engano no vagão, ou até mesmo de propósito, para burlar o sistema. Geralmente não viajavam mais que duas estações e os seguranças conseguiam saber que eram idosos. Mesmo que as regras se aplicassem a eles também, os seguranças não faziam nada. Era uma gentileza que todos concordavam.

A senhorinha vagarosamente abriu a bolsa, procurou por algo. Parecia não encontrar, até que tirou um console com sua luz verde e me perguntou:

— Eu vou descer na estação terminal, quer conversar?

A felicidade com que mudei o status do meu console para “não perturbe” é uma das melhores sensações que tive na vida.


Esse conto foi escrito por Alex Nunes para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Alex Nunes é um Fazedor . Se der na telha, vai lá e faz. Se dá certo? Aí já são outros quinhentos.
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