As Caixas

Somos acumuladores. Temos o hábito de guardar tudo em caixas. Tudo mesmo. Até nossos sonhos e nossas loucuras.

As Caixas é um conto escrito por Flávio Lidio e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


AS CAIXAS

A vida já tinha chegado a um ponto de acomodação onde tudo ao seu redor estava esquecido em caixas velhas. Uma única nuvem restava-lhe fora de suas caixas, e basicamente esse era seu motivo de viver. Nessa manhã completava quatro anos nessa situação.

Acordou assustado. Teve um pesadelo estranho onde deixava cair o copo no chão. Nem lembrava onde estavam os copos, mas sua preocupação parecia ter vindo dos reflexos nos cacos espalhados pelo chão. Após o susto, levantou-se e foi dar uma olhada em sua nuvem.

Não a encontrou. O vazio ricocheteou em suas costelas, atravessando não apenas seu coração, mas também seus pulmões. As caixas começaram a criar forma em pelo quarto e seu corpo rapidamente se encheu de energia. Agora ele realmente estava acordado. Começou a procurar pelas caixas mais úmidas e frias, pois onde há nuvem, há água. Dentro da primeira, encontrou uma chuva calma e distraída, que não vinha nem ia para lugar algum. Poderia ser tão boa quanto uma nuvem, se não fosse por seu ciclo estático. Sabia que essa chuva não passaria, duraria muito mais do que sua nuvem. No entanto sentiu a pontada da loucura alfinetar seu dente quando percebeu que a chuva o entediaria em pouco tempo, afinal não deixava de chegar ao chão, mesmo com os ventos mais fortes. Fechou a caixa sem ser notado.

A caixa seguinte era mais fria e menos úmida. Quando abriu, seu quarto se encheu em um branco límpido que trouxe junto um sentimento confuso. Ele conseguiu degustar a sensação estranha dançar ao seu redor. Felicidade, surpresa, silêncio e um leve calafrio. O que lhe cercava era uma névoa densa. Ele tinha certeza de nunca ter guardado aquilo ali, e durante alguns segundos ele esteve feliz.

O mantra finalmente voltou à sua cabeça, a nuvem ainda era seu objetivo. Fechou a caixa como pode. A névoa, ainda misteriosa e simpática, não se importou em entrar em seu lugar silenciosamente. No entanto, a culpa na forma de um Papillon irritante apareceu ao seu lado.

A sala estava visível e cheia de caixas novamente, mas a culpa resolveu ficar, para deixar seu trabalho mais complicado. O ambiente parecia mais pesado. As caixas úmidas estavam acabando.

A próxima caixa era pequena e delicada. Quando a abriu, encontrou um floco de neve dormindo. Os seus detalhes eram belos e hipnotizantes. Lembra bem de ter guardado esse floco assim que chegou. O motivo era óbvio, uma coisa como aquela tiraria constantemente sua atenção da nuvem. Colocou a caixa mal tampada em um canto. Talvez essa ainda fosse útil. Do seu lado a culpa esboçou um sorriso sacana.

A última caixa era volumosa e bem vedada. Pensou duas vezes antes de abrir essa, afinal, a nuvem provavelmente não conseguiria entrar nela. Mas lembrou que a caixa era recente e ele podia tê-la embalado dentro sem perceber. Puxou rapidamente a fita que selava a abertura da caixa, no mesmo instante saiu um vendaval impossível de conter. O impulso da caixa abrindo o jogou no chão. Preferiu ficar deitado lá por um tempo, olhando para o teto, sentindo o circular do ar. Ele sabia que aquilo não tinha nada a ver com sua nuvem, mas o vendaval parecia feliz ao seu redor e livre de sua caixa. Ele não estava acostumado com tanta movimentação e tentou se encolher e esperar o vendaval acalmar. Depois de um tempo, percebeu que nada havia mudado. Levantou, empunhou a caixa, rapidamente a jogou na direção do vendaval. Ele estava tão rápido que não conseguiu desviar. A caixa caiu de ponta cabeça com o vendaval dentro.

Mexer nas caixas e lembrar-se do que havia deixado acumular esquecido em seu quarto começou a perturbar sua estabilidade. Ele olhou ao redor. A nuvem não estava dentro do quarto, ele não a encontraria mesmo se abrisse todas as caixas. Sentou-se ao lado de sua culpa. Sabia que mais tarde teria que encontrar a caixa de onde ela saiu. A situação era conflitante, seu quarto não tinha portas nem janelas, no entanto a nuvem havia saído de algum modo.

Um som estridente, mas bem baixo veio de traz da culpa. Uma criatura esguia e afiada pulou em direção ao seu rosto. Ele nem se lembrava de tê-la em seu quarto. Se a conhecesse, saberia que seu nome era realidade.

Ele acordou dois meses depois. Olhou ao seu redor. O pouco que ainda se lembrava da nuvem era que ela não era sua. Levantou-se, abriu as janelas para deixar o sol entrar, abriu a porta para deixar os filhotes de culpa saírem e começou a desempacotar aos poucos sua vida.


Esse conto foi escrito por Flávio Lidio para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Flávio Lidio é estudante de licenciatura em física e colecionador de piadas infames. Como é um péssimo leitor, teve que criar outros passatempos para as longas e cotidianas viagens de metrô pra faculdade. Entre a fase do sketchbook e a de aprender a escrever de traz pra frente, teve a fase de escrever o que sentia.
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  • Adah Conti

    Parabéns Flávio, excelente texto. Esses físicos…