Clássico é clássico, e vice-versa #2 - Bach

Hoje, se você fala em música clássica, mesmo que não conheça muito dela, um dos primeiros nomes que vêm à sua mente é Bach, juntamente com Mozart e Beethoven. Mas, como vamos ver essa semana, nem sempre foi assim, e demorou bastante para ele conseguir esse status de um dos Mestres da Música.

Lê-se Bárr

Johann Sebastian Bach nasceu em março de 1685, em Saschsen-Einsenach, um dos vários ducados que hoje compõem a Alemanha. Oitavo e mais novo filho de Johann Ambrosius Bach, J.S. foi educado na música desde pequeno, aprendendo a tocar violino e cravo antes de completar 9 anos. Seu pai vinha de uma família de músicos, e ocupava uma posição importante no ducado, que lhe permitia dar uma sólida educação musical a seus filhos.

O futuro de J.S. estaria praticamente garantido, assim como o de seus irmãos antes dele, não fosse uma tragédia ocorrida em 1695. Nesse ano, em um espaço de apenas oito meses, Bach perdeu a mãe e o pai, o que lhe forçou, com 10 anos de idade, a se mudar e ir morar com seu irmão mais velho.

Johann Christopher Bach (sim, todos os homens da família Bach são Johann!) também era músico, mais especificamente, organista na Michaeliskirche, em Ohrdruf. Com ele, J.S. teria acesso a conhecimentos e informações que iriam ser cruciais para a sua futura carreira de compositor. Isso porque, além de ter aulas de órgão com o irmão, J.S. ainda trabalhava para ele, fazendo cópias e transcrições de composições, o que lhe permitia conhecer os estilos que estavam despontando na Itália e na França.

Aos 15 anos, Bach muda-se novamente, desta vez para estudar em Lüneburg. Seus dois anos lá foram o acabamento necessário para que ele alçasse voos mais altos. Quando se formou, já era reconhecido como um dos melhores organistas da região e facilmente conseguiu seu primeiro emprego como músico, na corte do duque de Weimar.

Nos 20 anos seguintes, Bach pulou de cidade em cidade, obtendo posições de destaque, mas nunca conseguindo se assentar realmente. Acontece que, em um determinado momento, ele sempre ficava insatisfeito com seus empregadores, devido às imposições que estes faziam à sua atividade criativa. Essa insatisfação geralmente resultava em desentendimentos com os patronos e sua consequente dispensa. Bach foi inclusive preso e passou 1 mês cativo antes de ser liberado.

As coisas começaram a dar novamente certo para ele quando foi contratado pelo Príncipe Leopoldo, de Anhalt-Köthen, que não era muito afeito à religião e deu liberdade para que Bach pudesse compor da forma que bem lhe aprouvesse. É nessa época que ele compõe suas obras de música secular (frívola) mais famosas, como as sonatas para violino, as suítes de cello e os concertos de Brandengurg.

Mas, novamente, sua vida é abalada por mais uma tragédia. Enquanto viajava com o Príncipe Leopoldo, que fazia questão de levar todos os seus músicos para lhe entreter, a esposa de Bach ficou doente. Foi só depois de retornar da viagem que ele descobriu que ela havia falecido, e já fora inclusive enterrada. Bach então percebeu que necessitava de uma posição sólida e definitiva, que lhe permitisse se estabelecer com seus filhos sem maiores surpresas. A calmaria de sua vida só viria em 1723, quando ele se muda para Leipzig, onde viria a ficar até sua morte.

Túmulo de Bach, em Leipzig

Lá, Bach ficou responsável pela música de 4 igrejas, o que queria dizer que todo domingo ele deveria apresentar pelo menos 4 composições inéditas durante a missa. O trabalho era desafiador, e fora inclusive recusado por outro renomado compositor da época, Georg Philipp Telemann. Mas Bach aceitou, e cumpriu todos os prazos pelos próximos 27 anos.

Devido à alta carga de trabalho, Bach foi perdendo a visão aos poucos. Aproveitando a visita de um renomado cirurgião inglês, ele se submeteu a duas operações para tentar salvar sua vista. Mas as operações foram em vão, e resultaram em sua morte, em julho de 1750.

A igreja em que ele foi enterrado acabou sendo destruída por bombardeios aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1950, os restos mortais de Bach foram removidos para a famosa Thomaskirche, em Leipzig, onde permanecem até hoje, apesar de sua autenticidade ser questionável.

Por que ouvir?

Bach, assim como Vivaldi, está inserido no período Barroco da história da música. Como dissemos na edição passada, a música barroca se divide basicamente em música sacra (religiosa) e secular (frívola). Vale lembrar que nos séculos XVII e XVIII, quem mais empregava músicos era a Igreja, fosse ela Católica ou Protestante. Por isso, o barroco tem muito mais de sacro do que de frívolo, com raras exceções.

Bach iniciou sua carreira na música sacra, seguindo os passos do pai, dos irmãos e tios, que já vinham realizando trabalhos de organistas, diretores de coro e compositores sacros. Mas, após seu contato com obras que vinham sendo produzidas sobretudo na Itália e na França, Bach começou a se aventurar em composições e estruturas que fugiam à temática sacra.

Em Vivaldi, ele buscou inspiração para a composição de concertos solos e sonatas, onde ele poderia explorar mais os instrumentos individualmente, com apenas o apoio da orquestra para composição da obra. Esta decisão é um contraste claro com a marca registrada do barroco: o concerto grosso, onde, ao invés de ter um instrumento solo, são os conjuntos inteiros de instrumentos (cordas graves, cordas agudas, sopro) que fazem as evoluções, conjuntamente.

A destreza com que Bach conseguiu atingir esse equilíbrio entre o sacro e o frívolo tornou-o um dos compositores mais influentes para as gerações futuras, apesar de sua música não ser muito apreciada pelo público em geral durante o século seguinte à sua morte. Como ele surge na fase final do período barroco, que é logo substituído pelo período Clássico de Haydn e Mozart, suas obras só serão realmente apreciadas e reconhecidas a partir do fim do século XIX, quando inclusive serão sinônimo de perfeição harmônica, o que enfatizou a sua relevância pedagógica.

O que ouvir?

Seria até absurdo fazer uma lista do que realmente se deve ouvir dentre as mais de 1000 obras compostas por Bach para violino, flauta, cello e cravo. Apesar de ele não ter escrito óperas, compôs mais de 300 peças para vocal, as cantatas, que são belíssimas.

O máximo que posso fazer é citar as minhas obras preferidas e torcer pra que alguma delas agrade vocês. Mas se não agradar, procurem conhecer as várias facetas dele. Vale a pena. É uma música com muito sentimento, coisa que o Barroco não traz com tanta frequência.

Concerto para Dois Violinos (BWV 1043)Talvez a minha obra preferida para violino (disputa acirradíssima com o Concerto para Violino de Mendelssohnn), o BWV 1043, também chamado de Concerto Duplo, é fruto do período de liberdade criativa que Bach obteve ao entrar para os serviços do Príncipe Leopoldo (na verdade, todas as três obras que vou indicar pra vocês são desse período). Ele é a perfeita exemplificação do fim do Barroco, onde a harmonia sacra (a orquestra e o cravo) vai aos poucos dando lugar à experimentação e à complexidade (a batalha entre os dois violinos) que seriam a marca do período Clássico. Principalmente no primeiro movimento, o Vivace, Bach conseguiu construir uma complexa obra, onde temos até 3 camadas de melodias diferentes que se juntam no final. A dança entre os dois violinos reflete quase que uma discussão entre duas pessoas, onde, se respeitado o espaço de cada uma delas, pode se chegar a um consenso harmônico.

Concerto de Brandenburg nº3 (BWV 1048)Terceiro de uma série de 6 concertos para orquestra, esta é provavelmente uma das obras que mais exemplificam o que foi o período Barroco. Se, por um lado o Concerto Duplo é exemplo perfeito de um concerto solo (ainda que para dois violinos), o BWV 1048 é um expoente máximo do chamado concerto grosso. Composto por três violinos, três violas, três cellos e um cravo, é claramente perceptível que cada conjunto de instrumentos faz sua própria evolução ao longo da música. Faça esse exercício: escute a música três vezes, e em cada uma delas, tente prestar atenção em apenas um conjunto de instrumentos. Isso é o Barroco!

Suíte para Cello nº 1 (BWV 1007)Todo mundo que toca ou já tocou violoncelo teve que aprender pelo menos uma das 6 suítes de Bach. Elas são divididas também em 6 partes que levam nomes de danças típicas da corte europeia durante o período Barroco: Prelude, Allemande, Courante, Sarabande, Galanteries (Minuets para as suítes 1 e 2, Bourrées para as 3 e 4, Gavottes para as 5 e 6) e Gigue. São experimentações do instrumento, mas que trazem sentimentos tão fortes em meio aos arpejos do cello, que fazem você viajar. O Prelude da Suíte nº1, por exemplo, me faz pensar na efemeridade da vida e de como muitas vezes não se pode voltar atrás nas escolhas que fazemos. Quando escuto, imagino o seguinte:

Um caçador, armado de arco e flecha, observa a sua presa, um cervo que pasta em meio às árvores de uma floresta. O caçador prepara o arco, encaixa a flecha e tensiona a corda. Fica assim por alguns segundos, com a corda tensa e a respiração contida, o animal no alvo. Nesses segundos, ele cheira o perfume das plantas que o rodeiam, sente a brisa gelada que vai percorrendo a floresta por entre as árvores e ouve o canto dos pássaros que parecem não se importar com mais nada além deles mesmos. O caçador solta a flecha. Nos segundos que levam para a flecha se fincar no flanco do cervo, o caçador se dá conta de que tudo o que ele estava sentindo alguns segundos antes, o perfume das plantas, a brisa gelada e o canto dos pássaros, também era sentido pela sua presa. Eles eram iguais. Arrependido, o caçador tenta voltar atrás, mas a flecha já foi lançada. E atingiu o alvo. Ao chegar no cervo, o caçador percebe que ele ainda está vivo e tenta retirar a flecha. Talvez ainda dê tempo de salvá-lo, o coração não foi atingido. O caçador retira a flecha, mas sangue começa a jorrar do ferimento. Desesperado, ele tenta estancar o sangue com as mãos, com a camisa, com qualquer coisa. Mas é tarde. O cervo morre em seus braços, e o caçador sente que um pedaço do seu coração morreu junto.

Onde já ouvi?

Com tantas obras pra escolher, difícil dizer onde já não se tocou Bach. Até no espaço! Isso porque ele é o compositor que possui  mais músicas (Concerto de Brandenburg nº2, Partita para Violino nº3 e Préludio e Fuga nº1 do Cravo Bem Temperado - Livro II)  no famoso Disco Dourado do Projeto Voyager, e está atualmente viajando a 55.000 km/h para fora do nosso sistema solar, para encantar a quem quer que lhe encontre.

Por fim, separei aqui alguns filmes onde músicas de Bach foram utilizadas e se vocês souberem de mais, digam aí nos comentários!

Dica importante!!! Se você não assistiu ainda um dos filmes citados, não clique no nome dele, pois você pode acabar tomando um spoiler. Nesse caso, escute só a música e depois veja o filme pra reconhecer.

Antes do Amanhecer - Variação Goldberg 25 (BWV 899)

Antes do Amanhecer - Sonata para Viola e Cravo em Sol maior (BWV 1027): III. Andante

CassinoMatthäuspassion (BWV 244): LIII. Wir setzen uns mit Tränen nieder

Fantasia - Tocata e Fuga em Ré menor (BWV 565)

A Lista de Schindler - Suite Inglesa nº2 em Lá maior (BWV 807): V. Boureé I

O Paciente InglêsVariação Goldberg 1 (BWV 988)

SevenSuíte para Orquestra nº 3 (BWV 1068): II. Aria

O Silêncio dos InocentesVariação Goldberg 7 (BWV 988)

Solaris (1972) - Orgelbüchlein: Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ (BWV 639)

TrainspottingHerzlich tut mich verlangen (BWV 727)

ill be bach