Intriga

Investigue o que há de estranho, mesmo sendo muito estranho, mesmo que seja estranho para os outros. Afinal, quem se importa?

Intriga é um conto escrito por Caio Varella e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


INTRIGA

Ele andava cabisbaixo, meio tristonho, mas não se lembrava direito do que tinha acontecido. Tudo parecia igual: a praça, o chafariz, os pombos, os bancos de pedra. Tudo absolutamente similar. Mas uma pontada lhe fisgava a nuca, como se algo ali tivesse mudado. Ele a ignorou por vários passos, até que trombou em alguma coisa.

Tinha uma aparência estranha, era alongado, feito do que parecia ser cimento, e um cheiro engraçado (ele não arriscou passar a língua porque supôs que não era de comer). Bem fixado ao chão, aquele objeto estranho lhe chamava a atenção, além de emanar uma estranha luz ao final de um braço alongado em seu topo, como se a luz estivesse pendurada por algo.

Ele tentou espantá-la (quem sabe fosse um vagalume), chamar sua atenção, lhe pedir com gentileza e até mesmo insultá-la, mas a luz não se moveu. Sua paciência, considerada por muitos “infinita”, chegou ao ponto máximo, quase o deixando br..br..bravo.

Fechou a expressão em uma careta e seguiu em frente, resmungando algo incompreensível, provavelmente um balbucio qualquer sobre como fora tolo de tentar averiguar o estranho objeto, enquanto sua mente fervilhava em possibilidades. Experiência do governo? Fantasma? Jeito novo de plantar? Para sua infelicidade, nenhuma parecia plausível.

Enquanto caminhava noite adentro, com o casaco sobre os ombros (fazia frio aquela noite), se deparou novamente com o mesmo objeto estranho que trombara com há alguns minutos.

“Está me seguindo?” indagou, enfurecido por ter se deixado ser pego de surpresa.

“Pois fique sabendo que sou um dos homens mais respeitados da região, devia me tratar com respeito, paspalho!”, agora com o casaco jogado em um canto, com ambos os braços levantados no que parecia ser uma posição de luta.

“Vamos! Lute, covarde!” desferindo um soco contra o estranho objeto, e gritando tão alto de dor após, que algumas casas se acenderam em resposta ao barulho. Vários moradores saíram à rua, procurando aflitos o que teria produzido tal barulho. Um deles, que parecia ser o mais velho, caminhou sobre a multidão de pijamas que se estendia pela praça e avistou o pobre homem, em uma disputa de vida ou morte como o que parecia ser um poste.

“Ah, é só aquele bêbado de novo. Vamos, entrem.” acenou para a multidão, que se dispersava aos poucos.

O homem, agora com ambas as mãos feridas, encontrou dificuldade para se levantar, apoiando-se sobre as palmas ainda intactas.

“Tudo bem, dessa vez você venceu, mas não terá uma próxima.” Proferiu o homem, se dirigindo pela rua, agora cantarolando alguma canção sertaneja antiga.

Só havia um poste na rua, uma lâmpada acesa e uma garrafa de pinga vazia apoiada sobre a calçada, a poucos metros do espetáculo que agora se encerrara.

Depois, nada mais que o silêncio.


Esse conto foi escrito por Caio Varella para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Caio Varella é calouro no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e mora em Araçoiaba da Serra, em São Paulo. Está reunindo "as maiores mentes por trás de galhofas" para criar seu próprio podcast, e ainda tem esperanças de conhecer o Silvio Santos.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • TEUCO

    Muito bom, kafkiano! Escreve mais!