As Estrelas do Deserto

Quando estamos perdidos, o que mais desejamos é encontrar alguém que nos salve. Mas, às vezes, a salvação vem em maneiras que não esperamos.

As Estrelas do Deserto é um conto escrito por Filipe Franklin e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


AS ESTRELAS DO DESERTO

O dia estava claro e extremamente quente. A areia mais parecia uma chapa de ferro, ferindo os cascos do cavalo magro, que já estava ofegante e com muita sede. O céu, limpo de nuvens, brilhava azul com os raios intensos do sol, e nem mesmo o turbante marrom que a criança usava estava lhe ajudando a se proteger. Ela desceu do cavalo, que já andava com dificuldade, e, ao encostar os pés na areia, soltou um gemido de dor. Pegou o cantil de água e derramou um pouco na mão para o cavalo tomar, mas não foi o suficiente. Caminharam por várias horas até que a criança sentiu um puxão para trás. Ao olhar, viu seu cavalo estendido, sem reação. Ela lamentou, mas continuou a andar. Não sabia para onde, apenas caminhava. Até que o sol apagou.

A criança acordou com um cheiro gostoso invadindo suas narinas. Seus olhos estavam pesados e mal conseguia mantê-los abertos. Seu corpo dolorido recusava-se a sequer levantar a cabeça para ver o que estava havendo.

– Então você acordou?! – disse uma voz calma e suave.

– Quem está ai?

A criança ouviu passos próximos a ela e tentou levantar-se novamente, mas o corpo mais uma vez se recusou. Ela estava com medo.

– Calma, criança. Eu não vou machucá-la. – declarou a voz.

Seu corpo foi levantando lentamente, com a ajuda da pessoa dona da voz.

A noite estava muito fria e o céu agora estava repleto de estrelas. A areia, como uma pedra de gelo. E isso fazia com que a criança tremesse.

– Vista isso e aproxime-se do fogo. Vai lhe ajudar a se esquentar. – disse a voz.

Dessa vez a criança conseguiu ver a pessoa. Era um homem vestindo uma roupa preta como aquela noite. Seus cabelos lisos caíam um pouco sobre os olhos, deixando um ar de suspense sobre suas feições.

Fez o que ele disse e se aconchegou em um cobertor de peles. O homem cozinhava carne de ave ao pé da fogueira e, a cada soprada do vento, o cheiro da carne invadia as narinas da criança.

– Qual o seu nome? – perguntou o homem, sentando-se ao seu lado, com um pedaço de carne em um espeto.

– Estrela.

– Eu sou Flynn. – disse, oferecendo a carne. Ela avançou como um carniçal faminto.

Aquela comida fez as forças voltarem para seu corpo. Já não sentia mais dores. Estava bem.

Depois de um tempo ela se levantou e ficou observando o céu.

– Sabe... Meus pais disseram que foram os deuses que escolheram o meu nome. E acredito que foram eles que colocaram você no meu caminho. – disse Estrela, feliz. O olhar de Flynn mudou repentinamente. Seus olhos ficaram com uma coloração estranha.

Estrela estava feliz observando as estrelas e aliviada por ter sobrevivido a essa aventura, e não percebeu a transformação.

O céu realmente estava esplêndido, com vários astros piscando no manto negro da noite. De repente, a visão de Estrela começou a ficar turva. O tapete estelar começou a ficar borrado. Um gosto amargo de ferro surgira em sua boca. O ar passava com dificuldade em sua garganta, por estar cheio de fluidos, que aos poucos escorriam pelo pescoço. As forças de seu corpo foram sendo tomadas aos poucos, até que as estrelas se apagaram.

Flynn deitou o corpo da criança na areia gelada e limpou a lâmina banhada de sangue no turbante da garota.

- Pobre garota... Cega esse tempo todo. Todas essas mentiras me levam a fazer coisas que não gostaria. Todos vocês irão pagar caro por isso. – disse, em um tom sério e mórbido, olhando para as estrelas.

Guardou o punhal e em um piscar de olhos estava às portas de uma cidade. O portão era de madeira grossa e bem antiga. No topo, guaritas eram ocupadas por homens com arcos e flechas. Um deles, quando percebeu a presença de Flynn ao pé da porta, bradou:

- Quem está ai?!

- Apenas um viajante buscando refugio do frio da noite. – respondeu Flynn.

O guarda fez um sinal com a cabeça e a grande porta começou a ranger. Dois outros guardas, equipados com espadas curtas e tochas, se aproximaram para fazer a recepção.

- Um homem do deserto? – indagou um dos guardas. – O que faz por essas terras?

- Estou apenas de passagem. Uma longa viagem para vender tecidos. – respondeu Flynn, mostrando algumas peças que possuía em sua mochila.

- É uma caminhada e tanto para vender tecidos. – disse o outro. – Espero que tenha sorte em seus negócios. Seja bem-vindo a Clamb.

Eles abriram passagem para Flynn, que apenas acenou com a cabeça.


Esse conto foi escrito por Filipe Franklin para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Filipe Franklin é desenvolvedor de Jogos, estudante de Character Design 3D e aspirante a escritor. Com grande influencia de J.R.R Tolkien, Phillip Pulman e do sistema de RPG A&D, sempre gostou de escrever sobre universos paralelos e aventuras épicas.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Arthur Zopellaro

    Universo interessantíssimo!
    Tem mais de onde veio esse? Espero que sim 😀

  • Um excelente trecho.

    O tom da historia e toda narrativa me fizeram lembrar de
    pequeno príncipe. Entretanto, toda essa minha visão alterou-se conforme a
    leitura.

    Um universo que chama atenção e acredito que ainda tem muito
    a oferecer.

    Espero pela continuação.