A Velha dos Correios - Capítulo 2

Esse é o segundo capítulo de um livro sobre muitas coisas do cotidiano de diferentes gerações. Tem a ver com nossa cultura e estrutura social e econômica, com perda e aceitação, com mudanças e as diferentes formas de interpretar uma mesma coisa. E, claro, tem um suspense e tanto!

A Velha dos Correios é um texto escrito por Pedro Duarte e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.

Capítulo 1


CAPÍTULO 2

No início, ela achou que era um assaltante. Já havia sido assaltada algumas vezes: puxaram sua bolsa, a ameaçaram com armas, derrubaram no chão... Ela estava acostumada – embora ninguém realmente se acostume com isso. Ela era conformada, melhor dizendo.

Segurou a bolsa com o envelope dentro bem perto do corpo. Deve ter amassado o que estava dentro. Alternou as calçadas, parou na padaria na esquina do metrô, fechou o guarda chuva estampado, entrou e pediu um café preto, que só tomou até a metade, pra despistar o possível ladrão. Sentiu-se mais segura e saiu apressada porque os vagões ficariam mais lotados a cada minuto!

Desceu a escada que dava acesso à estação. Lá embaixo, pegou o cartão com as passagens do mês, enquanto fechava o guarda chuva, tudo ao mesmo e meio sem jeito. Do pé da escada, olhou para cima, e então, como contaria à filha em uma conversa poucos dias depois, viu um homem escondendo o rosto e desviando de direção rapidamente. Ela engoliu a seco assustada e nem percebeu. Ficou alguns segundos procurando o homem magro, ia subir a escada de volta à rua, mas era impossível vencer o fluxo de centenas de pessoas (cada vez maior) vindo na direção oposta.

Passou a roleta, desceu a escada rolante e esperou para entrar no primeiro vagão, como fazia há muitos e muitos anos. A parada pra tomar o café custara um tempo precioso e estava tudo muito mais cheio que o normal. “Melhor assim”, ela pensou e entrou junto com a multidão. O apito que avisa quando as portas vão ser fechadas foi acionado. Ela escutou, esperou até o último segundo, cerrou os dentes, empurrou quem viu na frente e saiu.

O trem andou. Ela ficou feliz com a estratégia. Com certeza, agora, estava segura! Vagou uma cadeira azul destinada a idosos, deficientes físicos e gestantes, mas que estava quase sempre ocupada. Sentou-se e olhou para a escada em movimento, de onde viera após passar pela roleta. A plataforma era cheia de concreto por todos os cantos, cinza, com algumas placas e quadros de publicidade, pichações, mas no geral, era até limpa.

Outro trem chegando chamou sua atenção e a multidão fez o que sempre faz: parte entra por uma porta, enquanto outra parte sai por outra. E ela continuou ali sentada. Outro chegou, apitou, fechou as portas e partiu.  Mais um, dois, três, quatro... A multidão só aumentava, entrando por um lado e saindo por outro. Ela abraçava a bolsa com força, marcando o braço direito com a costura, e sentia o envelope ali dentro. O suor se misturava ao corpo umedecido por algumas gotas que escaparam do guarda chuva no trajeto até a estação, pingando da sobrancelha para os cílios, fazendo-a piscar mais do que o normal.

Ela olhou a escada rolante mais uma vez. Escutou outro trem. Decidiu embarcar nesse: lá estava ele, descendo a escada! O trem parou. A multidão a postos. Levantou-se, deixou cair alguma coisa, mas não se importou. Se jogou no meio das pessoas, foi xingada baixinho, entrou correndo no vagão e rezou tudo o que conhecia, para que o trem andasse logo!

Os óculos de armação pesada estavam embaçados com a súbita mudança de temperatura. Com uma mão tentava se segurar em algum lugar e o outro braço apertava a bolsa. O homem seguia em direção à cadeira em que ela estava, tinha certeza! O apito tocou. Ela se esqueceu de respirar por um instante. A porta fechou. "Ele parou, olhou embaixo da cadeira, pegou alguma coisa e seguiu para o meu vagão! Mas não entrou. Deus do céu, não deu tempo!".

O trem partira e um homem ficara ali parado, segurando um guarda chuva preto estampado com flores rosas, pingando no chão. Franziu a testa e suspirou profundamente enquanto olhava outro trem se aproximar.


Esse conto foi escrito por Pedro Duarte. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Pedro Duarte é jornalista e escritor de “Tony Moon: está tudo fora de controle, cara!” e "Tony Moon: A Vida Acontece", um livro infantojuvenil e outro de tirinhas. Colaborou com com a Superinteressante, Vida Simples, youPIX e um monte de lugares! Fundador e Editor do Bacanudo, curioso pra caramba e um sujeito bacana!
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