Febre

Lembranças. Saudades. Desilusões. Todos as temos. E alma? Será que todos temos alma também?

Febre é um conto escrito durante uma viagem de avião por PH Santos e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


FEBRE

Eu não sentia dor. Tampouco remorso. Eu era guiada. Não sei por quem, não sem como, mas eu sentia o domínio. Meu mestre sempre me tratara muito bem e eu fazia tudo que ele queria. Se eu não matasse quem ele ordenava, qual seria meu destino? Ainda seria amada?

A cada pescoço atravessado, meu status aumentava. Eu tinha um nome. E sempre que ceifava uma vida, ele se tornava mais conhecido.

- Todos devem temer Netsu!

Essa frase era dita dia após dia. Ao ser proferida, olhando para mim, vários outros guerreiros gritavam, concordando com meu mestre.

Nunca estive só. Nasci pequena, mas rapidamente tomei forma. Foi um processo doloroso. Eu sei disso, pois a história ainda é repetida à exaustão. Todos a contam com muito orgulho, falam de mim como se eu não estivesse ali ouvindo tudo; e eu, sem poder falar, só tinha que testemunhar e sentir aquelas histórias:

- Tirada do fogo, Netsu veio para mudar o mundo. No dia que a tive como minha, a linda e inocente não sabia o futuro que a esperava. Não foi fácil concebê-la e, para que surgisse, muitas outras pereceram. Netsu já nasceu com alma, mas eu a dei um propósito.

Por mais que com o tempo essa história tenha mudado, essa foi a versão que mais escutei. Tenho vergonha de pensar isso, porém devo dizer que sinto falta de quando essa versão era a única. Hoje, pouco se tem dela, e não posso fazer nada a respeito disso. Só ser.

Um dia, meu mestre ordenou que eu golpeasse um de seus inimigos pelas costas. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Na verdade, foi a única vez que isso aconteceu. Fiz o que foi mandado e isso determinou o fim da minha escravidão.

Sinto saudades. Saudades de me sentir completa. Saudades do toque e do calor. Do desejo. Da ânsia.

Vinte homens, todos prontos para matar meu mestre. Lutei. Sim, lutei bravamente ao lado de companheiras e seus mestres. Nesse dia, porém, não prevalecemos. Fui atacada em uma investida muito inteligente do bando; por cima. Enquanto eu defendia o ataque mais forte que já recebera em toda minha existência, outro estocou meu senhor. Nada pude fazer.

Fui jogada para longe. Fui pisada, chutada e, sem guia algum, me joguei no rio. Não me julguem, eu vi a vida daquele que me criou chegar ao fim. Eu não poderia ir para qualquer um. Portanto, o rio seria meu melhor esconderijo. A guerra havia sido perdida. Eu sentia a partida de cada uma de minhas companheiras. Não era dor. Não era amor. Era... ausência.

Minha alma havia sido estragada e a solidão, durante o tempo que fiquei escondida, me transformou. Envelheci. Fiquei praticamente cega. Ao relento, desisti de ser. Eu não tinha mais missão. Não tinha mais a quem venerar. Não tinha sequer a quem procurar. Lamentei.

Um dia, o mais ensolarado de todos, algo me fez despertar. O toque de uma mão. Eu tinha que voltar e recuperar minha alma. Precisava que meu nome voltasse a ser dito. Aquela mão! Ao primeiro toque, eu já sentira que era perfeita para mim. Fui resgatada.

Fraca, fui carregada por uma distância muito grande. Ah, como era bom ser amada novamente. Como era bom ouvir meu nome de novo.

- Net... Netsu. Uau, linda!

Sim, eu o admitira como meu novo mestre. Meu senhor do novo tempo. Meu novo tutor. Achei estranho, confesso, pois missão alguma me foi dada. Eu só tinha que ficar ali, parada. De vez em quando me tiravam do meu conforto, só que nada demais acontecia. Ia de um local para o outro, ficava parada e apenas escutava o vozerio. Nunca consegui recobrar a visão e meu passatempo era buscar meu nome no meio da confusão. E ele era dito. Ah, se era!

- Olhem, é a Netsu.

- Pai, posso tocar na Netsu?

- Caraaaaca, Fred, ela é a mais linda das lindas de todas elas.

- Essa é a lendária Netsu. Em uma de minhas viagens, consegui encontrá-la escondida em um rio do Japão. Diziam que ela possui alma, que aquele que a empunhasse guiaria mil homens. Fiquem à vontade para olhar. Netsu significa "febre" e uma lenda que achei em minhas pesquisas conta que alguns guerreiros a viram, sozinha, se jogar no rio logo após seu dono morrer. Mas, ei pessoal, é só uma lenda hein. É lógico que ela não tem alma, nem sei se eu mesmo tenho.

Risos

Sempre riam disso. Nunca entendi. Mas como era sobre mim, eu aceitava e tinha esperança disso mudar um dia. Mesmo que eu preferisse a antiga história, que meu velho mestre contava, aos poucos ia me acostumando com essa nova. Só não gostava mesmo do fato dela terminar dizendo que não tenho alma. Sim, meu senhor, eu tenho alma! Toda espada tem uma e um dia irei te provar isso. Por enquanto, curto meus dias de tranquilidade e repouso.


Esse conto foi escrito por PH Santos para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Desde 2001, PH Santos trabalha com web; e desde 2005, com podcasts. Ama os dois! É formado em Computação e em História. Ama os dois! 
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