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Destrinchando #1: Frankenstein ou Uma Análise Moderna

Uma análise de um autor, gênero ou personagem a partir de uma obra única. Essa é a estréia da minha coluna, Destrinchando. Vamos até onde nenhuma análise jamais tenha ido.

Em 1815 um vulcão na Indonésia entrou em erupção, levantando poeira suficiente para deixar o verão de 1816 do hemisfério norte sem luz solar. Mary tinha apenas 19 anos quando foi forçada a ficar vários dias confinada próximo a um lago na Suiça. Para a sorte dela, lhe faziam companhia seu futuro marido, o poeta Percy Shelley, e os escritores Lord Byron e John Polidori. Depois de muitas leituras de contos de fantasmas alemães, Byron propôs que eles mesmos escrevessem histórias de fantasmas.

Naquele momento Mary não conseguiu pensar em nada, mas não tirou de sua cabeça o desafio e, inspirada pelo seu marido, viria a desenvolver uma ideia sobre um estudante que dava vida a uma criatura. Frankenstein ou o Prometeu Moderno tornar-se-ia bem mais do que uma história de fantasma. Deixando de lado os elementos fantasiosos comuns deste tipo de história e apoiando sua trama nas chamadas “ciências naturais”, o livro seria considerado mais tarde o precursor da ficção científica e da literatura gótica.

 

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"O médico e o Monstro" e "Drácula" fazem companhia a "Frankenstein", nesta edição da Martin Claret.

Personagens retalhados

Publicado pela primeira vez em 1818, o livro de Mary Shelley parece ter sido feito para ser adaptado para outras mídias. A primeira adaptação da obra foi para o cinema, produzida nos primórdios da mídia por Thomas Edison e exibida pela primeira vez em 1910, menos de cem anos depois de a obra ter sido escrita.

Depois da versão de 1910 viriam outras dezenas, o que consolidaria a criatura como um “monstro da Universal”, personificado principalmente por Boris Karloff (na imagem que abre este texto), até chegar a uma constrangedora versão moderna no recente Frankenstein: Entre anjos e demônios, renegando os conceitos científicos de Shelley. Este sem fim de adaptações da obra fez com que as imagens de seus personagens perdessem suas características principais no decorrer do tempo. A criatura da obra, comumente chamada de Frankenstein, não tem nome no romance e é capaz de se articular filosoficamente sobre vida e morte, diferente das versões burras criadas pelo cinema. Na recente série para TV Penny Dreadful, podemos ver este potencial poético sendo bem explorado. No entanto a relação conflituosa entre criador e criatura, iniciada pelo desprezo do primeiro, quase nunca é bem representada em suas adaptações. Victor se arrepende de sua criação no instante em que ela ganha vida, o que não o faria replicar em hipótese alguma a experiência, como sugere a série do canal Showtime.

Vale falar também que o livro não deixa claro de que forma exatamente Victor criou a criatura. Por sugerir rapidamente que a matéria prima para sua criação viria de necrotérios, convencionou-se pensar no monstro como um “homem de retalhos”, algo visualmente consolidado no bom filme de Kenneth Branagh com Robert de Niro no papel da criatura. Como se trata de um relato do capitão do navio que encontrou Victor, entende-se que o próprio cientista prefere guardar o segredo de sua criação, inclusive do leitor, para evitar que a experiência seja repetida.

Nos quadrinhos, a versão mais fiel sairia das mãos de Sergio A. Sierra e Meritxell Ribas, lançada no Brasil pelo selo Arx, da Editora Saraiva. O cultuado quadrinista Bernie Wrightson ainda ilustrou uma versão do livro relançada no Brasil esse ano pela editora Mythos.

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O monstro, na versão de Meritxell Ribas.

 

Um monstro poético

O texto de Shelley beira o filosófico e por ser escrito sempre em forma de cartas relatadas (formato comum nos livros de terror da época) explora bem os dramas interiores dos personagens. No prefácio da versão lançada pela Martin Claret (e que ainda tem compilados os romances O médico e o monstro e Drácula), o marido de Mary, que é poeta por natureza, sugere ter contribuído no texto, o que pode explicar o tom excessivamente dramático e reflexivo dos personagens. Apesar de a temática de horror da história não ser comum para as escritoras mulheres da época, vale destacar que a mãe da autora, Mary Wollstonecraft, era uma conhecida defensora dos direitos das mulheres do século XVIII. Mesmo ela tendo falecido quando Shelley tinha apenas dez anos, a autora recebeu uma educação liberal de seu pai. Infelizmente não conseguimos ver essas ideias feministas no livro, calcado principalmente na relação entre os personagens masculinos.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno pode ser uma leitura datada e que deve incomodar quem não está acostumado com textos da época, mas ainda assim é instigante, dada principalmente a preocupação de Shelley em respaldar sua trama nas descobertas científicas do seu tempo. O drama do cientista é um texto importante e marco obrigatório para os fãs de terror, literatura gótica e ficção científica. E fica melhor ainda acompanhado por O Médico e o Monstro e Drácula, como idealizado pela editora Martin Claret, desenhando uma bela representação da literatura fantástica vitoriana (mesmo Frankenstein sendo anterior cronologicamente a este movimento). É certo dizer que a origem de todos os monstros que assustam hoje a literatura, o cinema e a televisão passou por aqui.

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Victor Frankenstein, na série Penny Dreadful.