Admirável Mundo Novo – Quem quer ser um Ipsilon? | Iradex

Admirável Mundo Novo – Quem quer ser um Ipsilon?

Você sabe o que é uma distopia? Não? Pra te poupar do trabalho de ir até a Wikipédia, já adianto que a distopia é como a utopia, só que ruim. Explicando melhor: se uma utopia é uma situação hipotética ideal (tipo uma civilização/sociedade perfeita), a distopia é o seu negativo, ou seja, uma situação hipotética indesejada (tipo uma civilização/sociedade desastrosa).

Muitos são os exemplos de obras, da literatura e do cinema, que usaram uma distopia como pano de fundo para seus enredos. Existem, porém, três livros que se destacam nessa extensa lista. Pode-se dizer que eles formam a santíssima trindade da literatura distópica. São eles: 1984, de George Orwell; Laranja Mecânica, de Anthony Burgess; e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Eu poderia muito bem fazer um texto sobre os três; mas acredite, eles merecem muito mais do que isso. Então hoje vocês vão ter que se contentar em conhecer (ou relembrar) só um deles, o meu preferido aliás: escrito em 1932 (o mais antigo dos três), Admirável Mundo Novo (Brave New World) é uma das principais obras de ficção científica de nosso tempo.

Ó, maravilha!

 

Que adoráveis criaturas aqui estão!

 

Como é belo o gênero humano!

 

Ó ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

 

Que possui gente assim!”

Utilizando conhecimentos de sua época, Huxley criou um mundo aparentemente perfeito para seus habitantes, mas que se analisado com cuidado demonstra que o céu não é tão azul assim.

SINOPSE E UM POUCO SOBRE O LIVRO

Aldous Huxley Admirável MundoDepois de uma grande guerra ter deixado o mundo conhecido em frangalhos foi criado um Governo Mundial (lembrando que na época em que foi escrito o livro, ainda não tinha eclodido a 2ª Guerra Mundial) que iria decidir os caminhos a serem trilhados a partir de então.

Utilizando a ciência como base, construiu-se uma nova sociedade baseada no total controle das pessoas, controle esse realizado desde a concepção. Isso porque o sexo é agora apenas recreativo e bastante estimulado, sem função alguma de reprodução. Esta fica a cargo de grandes centros de manipulação genética, que condiciona as pessoas em todas as fases da vida.

Quando o indivíduo cresce, o condicionamento é feito por uma droga chamada soma, que tem o poder de manter a população tranquila e em ordem. Combine isso a uma sociedade dividida em cinco classes bem rígidas, sendo Alfa a elite intelectual e Ipsilon a classe trabalhadora semi-escrava. Essas classes são decididas pelo Governo Mundial antes mesmo do indivíduo nascer e você terá um vislumbre de como é viver nessa nova “civilização”.

Acontece que, de vez em quando, por causa de uma falha no condicionamento, ou simplesmente por acaso, alguém acaba percebendo que aquela aparência de perfeição esconde um mundo tão cruel quanto o anterior. É ai que começa de verdade o enredo central do livro.

Acompanhamos Bernard Marx (sim, é proposital o nome) em sua jornada em busca de respostas para o fato de ser diferente e não conseguir se encaixar no mundo em que vive. Junto com Lenina, (que é extremamente pneumática!) ele parte para um dos poucos locais em que ainda vivem pessoas no modelo antigo de sociedade, chamado de selvagem, onde existe a religião ao invés da ciência.

O CHOQUE CULTURAL

O choque cultural entre os selvagens e os civilizados é o grande lance do livro, e é onde começamos a perceber a genialidade do lado crítico de Huxley. Alguns anos depois de tê-lo escrito, Huxley declarou que o livro tinha muitas imperfeições, mas que mesmo assim não o iria reescrever (como foi sugerido por alguns), pois se por um lado iria corrigir seus pontos fracos, por outro iria perder muitos de seus pontos fortes.

O título vem de um trecho da peça A Tempestade, de William Shakespeare, e não é só aí que o dramaturgo inglês tem influência no livro. Em várias partes temos citações das obras shakespearianas, às vezes até dentro das próprias falas dos personagens, e mostra que nem é esse bicho de sete cabeças que todo mundo acha (fica a dica pra quem nunca leu Shakespeare e tem medo).

Outro ponto forte é o final. Posso afirmar que ele marcou profundamente minha infância, e arrisco dizer que foi o melhor final de livro que já li. Geralmente quando a gente lê um livro mais de uma vez, certas passagens não tem um impacto tão grande quanto da primeira lida. Mas com o Admirável isso não acontece. Toda vez que o leio sua última página me atinge como um chute nos países baixos (inclusive ainda estou me recuperando da última leitura).

Enfim, não há espaço suficiente pra falar o tanto que gostaria do livro (e ainda correria o risco de dar spoilers, o que seria imperdoável), então o que posso dizer é que você já conhece e gosta dessa história mesmo sem saber. No fim das contas, quando você leu/viu Jogos Vorazes, você estava na verdade lendo/vendo Admirável Mundo Novo e nem sabia (by PH Santos, o editor).