Resenha: O Código Élfico, de Leonel Caldela

Conheço Leonel Caldela há pouco. Admito que ser comparado a Bernard Cornwell me atrai e me afasta ao mesmo tempo. É um imã com os polos sendo girados. Quem me atraiu mesmo foram suas palavras, suas entrevistas, suas respostas. Por isso, fui ler O Caçador de Apóstolos, seu quarto livro. Sim, guardada medidas proporções, é válido compará-lo a Cornwell. Tem meu aval. Agora Caldela chega com O Código Élfico, lançado pela Fantasy - Casa da Palavra. Difícil não começar essa leitura em alta após ter lido dois livros do autor (o outro foi o Deus Máquina).

Sinopse Oficial

A pequena cidade de Santo Ossário esconde muitos segredos. Entre os habitantes, Nicole, uma jovem corajosa, descobre estar ligada aos mistérios da cidade, o que a leva a uma investigação sobre o próprio passado. Seu pai foi um famoso assassino que pertencia à ordem de seguidores de uma deusa oculta, sacrificando inocentes em rituais. Em Arcádia, um mundo paralelo governado pela deusa, vivem os elfos. Criaturas perfeitas que há milênios sonham em recuperar o poder sobre os humanos. Finalmente veem a esperança no novo guerreiro Astarte, treinado em arquearia, que deve abrir o portal que liga os dois mundos e exercer o domínio da Rainha sobre a Terra. Astarte, no entanto, é o único que desconhece o seu destino, até o momento de cumprir com a sua sina. Avesso aos interesses do seu povo, o elfo resolve juntar-se aos mortais em Santo Ossário. Agora, Nicole e Astarte estão ligados a um mesmo propósito: reunir os habitantes da pacata cidade e derrotar os seres místicos que ameaçam dominar o mundo.

capa-o-codigo-elfico-leonel-caldela-fantasyAté metade do livro, Leonel parecia conter uma necessidade de soltar algo gigante, enorme... como se tivesse algo encravado, incompleto. Leonel é cru, é íntimo, é nojento às vezes. Aqui em O Código Élfico, eu não via mais tanto o autor de O Caçador de Apóstolos e Deus Máquina. Na verdade, o Leonel de Deus Máquina também nem era mais o mesmo do Caçador. Chamo isso de maturidade. O Leonel de O Código Élfico é o mais maduro dos três leoneis que já li. É um Leonel universal. Com limites, mas adorável em conseguir causar nojo e ser cru na medida correta.

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Não existem mais diálogos simples em O Código Élfico. Outra evolução do autor. Existem diálogos cirúrgicos responsáveis por segurar uma gama de personagens não muito grande. Trabalho árduo, creio eu. Como não gostar de Felix e Astarte, por exemplo? No delegado da cidade, vejo meu pai. E Nicole? Nicole é a personagem mais forte dos três livros que li. Pela primeira vez vejo o autor colocar uma profundidade que mistura  o mundano e o mágico precisamente como gosto. Antes seus personagens eram levados ao extremo. Em Nicole a dosagem dos dois lados é perfeita. Personagem mulher já nasce forte, é fato, pois os conflitos são óbvios. Aqui, entretanto, Nicole foi levada a uma outra camada de profundidade. Nem magnanima demais, pois é apenas uma humana, nem mundano demais, pois ela é especial. O tempero precisamente medido. A fusão correta.

Nicole surgiu nas alturas, sentada sobre a montaria aérea sem segurar-se, sem tentar manter o equilibrio. Não fazia a menor ideia de como cavalgar aquele animal, então agia como o arqueiro cego: deixava algo cavalgar por ela, entrava em comunhão com a vontade do mundo, que era sua vontade e a da fera.

Nicole era isso e o não isso ao mesmo tempo. Ela usava um grifo, mas nem sabia direito o que fazia. Ela era humana e humanos não foram feitos para grifos, mas ela era especial e, por isso, os grifos foram feitos para Nicole.

Sobre a besta contida por todo o livro, não foi preciso soltá-la. Em outras fantasias de Caldela, a estrutura de escrita do autor parece um marcapasso e não erra entre momentos de tensão e calmarias. Dessa vez a escalada é retilínea. A besta da qual falei, segura o leitor por toda a trama. Sim, ele precisava soltá-la. E não foi em banhos de sangue de rituais tensos e nocivos às cabeças mais fracas, foi em um final literalmente fantástico. Morte, dor, muito sangue, batalhas homéricas e viradas de trama. Quem era eu para ter julgado que a besta-fera presa não iria ser solta? Ela foi e aconteceu da melhor maneira possível. De um modo simples e nada exagerado. Afinal, a beleza do existir está na simples leveza do respirar. Para que pedir mais do que isso?

Suas quase 600 páginas podem espantar leitores menos experientes, entretanto o autor não é conhecido por escrever pouco. Existem sempre motivos para Leonel escrever muito e aqui não foi diferente. Por conhecer bem de estrutura literária, há em O Código a dosagem necessária entre calmaria e tensão para te prender ao longo de tantas palavras. Não se espante. Estranho vai ser Leonel entregar um livro com 200 páginas.

A primeira vez que vi o autor falar sobre esse livro foi na Bienal do Livro do Ceará. Aquele foi um ponto importante, pois o nome fora anunciado com a chancela de Raphael Draccon, seu editor, que o assistia da platéia. Assim que ouvi o nome do livro, me perguntei: "Como raios ele vai me fazer ler uma história sobre elfos?". Li, fui lendo, algumas coisas fui relendo. Não era sobre elfos, nem humanos, nem magia, nem mundo. É sobre local. Nosso local. Santo Ossário é qualquer cidade do interior do Ceará, do Rio Grande do Sul, do Mato Grosso... Santo Ossário é nossa terrinha, nossa homeland. Sabe quando você volta e passa uns tempos no local ou na casa onde nasceu e momentaneamente cresceu? Te acham mais gordo, te acham mais esperto, te acham o orgulho daquele pedaço de local onde nada muda e dificilmente mudará. Pra mim, ler O Código Élfico não foi ler  sobre seres, mas sim sobre origem e como devemos respeitá-la, defendê-la e reerguê-la, quando necessário for. Costumamos esquecer disso, mas o "onde", na maioria das vezes, é mais importante do que o "quem".

AINDA É CORNWELL?

Não comparo mais Leonel a Cornwell. Acabou! Depois de O Código Élfico, as paredes de escudo pertencem a outra fase do autor, tão boa quanto essa, mas que não se encaixa nesse momento. Somente os grandes autores conseguem sair do seu lugar comum; do seu conforto. Somente os grandes autores conseguem sobreviver a tamanha comparação. Cornwell?! Eu jamais gostaria de ter isso pra mim. Somente os grandes autores conseguem ser profundos e corretos baseados na simplicidade. Somente os grandes conseguem cravar seu sobrenome. Leonel Caldela é grande. Ora, não é preciso parede de escudos quando se tem o glorioso metal élfico.

O quarto helicóptero já estava voltando para Astarte. Disparou dois mísseis, que vieram certeiros na direção do príncipe. Astarte respondeu o arco -- acertou uma flecha, depois outra, e os dois mísseis explodiram no ar. Avançou pela bola de fogo e fumaça, de repente surgindo muito perto do helicóptero, sacou uma das espadas, arremessou-a. O metal élfico quebrou o vidro blindado e girou, decapitando o piloto.

O Código Élfico é a mistura correta do que é fantástico e do que é real. A trama não nos deixa esquecer que a fantasia não existe somente em seu meio. A fantasia é tudo, e nada ao mesmo tempo. Pertence a um "tempo que não é tempo, a um mundo que não é mundo". Pertence a cada um de nós e nosso poder de criar, de imaginar, de viajar sem precisar sair do lugar. A fantasia é nossa e de ninguém ao mesmo tempo. É de Nicole, uma "humana", é de Astarte um "não humano".

* pra quem está esperando resenha em vídeo, essa virá em breve junto com um podcast


LINKS ÚTEIS

- Link para o livro no Submarino

- Em seu blog, o autor falou sobre a gênese do livro

- Skoob do Leonel

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