31 Dias de Horror | Iradex

31 Dias de Horror

Eu sou JP Martins e decidi que em outubro veria um filme de terror por dia e faria um desenho pra cada filme. O Iradex me chamou pra falar sobre cada um desses filmes e eu aceitei a contragosto.

Realização


Dia 25: Invasão Zumbi 2: Península (2020)

Invasão Zumbi 2: Península (Bando, 2020)

Dirigido por Yeon Sang-ho.

Com Gang Dong-won, Lee Jung-hyun, Lee Re e Lee Ye-won.

Disponível em todo lugar fora da lei.

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Clique aqui para ler a transcrição do episódio.

Um dos maiores prazeres com cinema é ir ver um filme e se surpreender com a qualidade do que tá ali (ou, senão a qualidade, pelo menos algo que te agrada muito). Isso aconteceu comigo em 2015 quando fui ao cinema despretensiosamente ver um filme coreano de zumbi com o criativíssimo título Invasão Zumbi. Levei minha irmã a contragosto, que não é fã de filme de terror. O filme foi conquistando a gente devagar, com o drama familiar e pegou a gente de vez quando acontece, olha só, a invasão zumbi dentro de um trem. Invasão Zumbi é um dos melhores filmes de zumbi que eu já vi, emocionante de diversas maneiras, com um dos melhores personagens de filmes desse estilo (o fortão que derruba zumbi na porrada) e com um dos mais odiados também (o velho filha da puta que mata geral pra sobreviver). Tudo isso acabou virando muita responsabilidade pra sua continuação, que pode acabar decepcionando muita gente por causa disso. Mas eu gostei!

INVASÃO ZUMBI 2: PENÍNSULA foi lançado em 2020, no meio da pandemia, época ideal pra lançar um filme sobre infecção viral. Já falei que não aguento mais lembrar da pandemia vendo esses filmes? Se for um filme divertido tipo esse aqui eu aguento. PENÍNSULA tenta muito replicar tudo que fez do primeiro filme um sucesso, mas expandir muito. O começo do filme inclusive se passa num meio de transporte isolado (um navio), tal qual o trem do original. Ele apresenta toda a coisa do drama familiar e personagem principal atormentado pelas escolhas do passado, que nem o primeiro. Mas os personagens principais são meio qualquer coisa. Nenhum deles tem o carisma que os heróis e vilões do outro filme tinham. O filme original tinha um elenco com vários esteriótipos de personagens, todos eles interessantes de sua própria maneira. O ponto forte desse segundo filme tá longe de ser seus personagens genéricos, apesar das duas irmãs serem bem legais e eu sempre torcer por elas.

O ponto alto também não tá no roteiro, que também é super básico, uma história de assalto que vira uma história de resgate, só que com zumbis no meio. Você me ouvindo aí deve estar pensando que eu gostar desse filme não faz sentido, já que pouco falei bem dele até agora. Mas eu gostei mesmo, só que é um filme cheio de falhas. Pra falar bem, eu falo principalmente das cenas de ação, ou setpieces como os cinéfilos gostam de chamar. É engraçado o quanto esse filme usa cenas com carros. No começo parece que você tá assistindo Baby Driver com zumbis e no final parece Mad Max com zumbis. As cenas não chegam a ser tão boas quanto as desses outros filmes porque aqui em PENÍNSULA se usa muito mais computação gráfica que perseguição de verdade (o que é até compreensível porque tem que dividir o orçamento e não é um filme de carro), mas ainda assim são cenas bem empolgantes e bem feitas! Mesmo que você perceba muito bem o carro CG ali.

Outro ícone da ação que eles emulam em alguns momentos é o John Wick. Os personagens principais são o John Wick coreano e a John Wick mulher coreana. Tem boas cenas com John Wickzices.

Mas temos que falar de terror aqui né! Quase não tem. O primeiro era muito melhor nesse quesito, em que você ficava realmente apreensivo pela vida dos caras porque os zumbis estavam ali do lado prontinhos pra arrancar um pedaço de alguém! Eles ainda tão bem presentes aqui, mas são quase irrelevantes, um mero obstáculo no caminho das pessoas vivas e não a ameaça maior. Outro ponto faco desse filme em relação ao original.

Odeio ficar de comparaçãozinha, mas como perceberam, INVASÃO ZUMBI 2: PENÍNSULA não se compara a Invasão Zumbi. E mesmo assim ainda curti bastante assistir! A sorte de não ter rolado estreia no cinema é que eu não precisei gastar dinheiro pra ver pelo menos, e ver na TV da sala foi tipo a experiência perfeita. É um filme descompromissado e divertido, mas nada demais. Ideal pra ver num domingo a tarde, ventilador no 3, mexendo no celular de vez em quando. E eu acho que isso tem seu valor sim, obrigado.


Dia 24: Garota Infernal (2009)

Garota Infernal (Jennifer's Body, 2009)

Dirigido por Karyn Kusama.

Com Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons e Adam Brody.

Disponível pra comprar e alugar, via stream, na Microsoft Store, iTunes e Google Play.

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Todos nós temos preconceito com algo cultural, como algum tipo de música ou gênero de filme ou algo assim. Durante minha adolescência eu tinha problemas com produções feitas pra adolescentes, porque tinha muita coisa sendo feita pra esse público alvo na época que não tinha muito a ver comigo. Normal, mas eu acabei perdendo alguns filmes e séries que depois de adulto eu consigo apreciar e talvez apreciasse até naquela época também.

Uma dessas coisas que perdi por ser bocó na adolescência foi o filme GAROTA INFERNAL, de 2009, mesmo com o marketing dele completamente voltado pra garotos adolescentes, basicamente dizendo "venha ver esse filme, a Megan Fox é gostosa". Longe de mim contrariar essa afirmação, mas não me parecia um filme interessante. Eu podia dizer também que na época eu não era muito chegado em filme de terror, o que é verdade, mas isso não afetaria minha vontade de ver o filme porque, por fora, eu nunca achei que ele tivesse a cara de um filme de terror. Mesmo hoje quando eu fui ver eu achei que ele fosse bem mais leve do que ele é.

O filme conta a história de duas melhores amigas, uma nerdzinha gente boa e uma popularzinha meio otária, dinâmica clássica de filme adolescente. Depois de um incêndio num bar onde ambas estavam vendo um show de uma banda, a menina popular decide, meio sem pensar direito por causa do trauma do incêndio, em ir junto da banda pra algum lugar, deixando a amiga só. Horas depois ela visita a amiga, toda ensanguentada, e logo ali a nerd vê que a amiga tá diferente, assustadora. A partir desse dia a amizade delas é chacoalhada ao mesmo tempo em que a cidadezinha delas tem que lidar com todas as mortes que houveram no bar, além de mais pessoas sendo mortas misteriosamente dias depois.

É um filme bem mais gráfico do que imaginei. De vez em quando aparece uma tripa aqui, outra ali, e aborda temas mais pesados do que imaginei também. Acho que principalmente ele fala de amizade e rivalidade feminina, o que não são temas necessariamente pesados, mas aqui ele parte de uma perspectiva baseada em experiências muito traumáticas. As coisas pelas quais a Jennifer (que é a tal menina otária interpretada pela Megan Fox) passa são coisas pelas quais mulheres passam todos os dias em vários lugares do mundo. A diferença é que no filme tem uma camada de fantasia que faz com que ela tenha uma chance de "se vingar do mundo", por assim dizer.

E ela se vinga do mundo mesmo, já que ela nunca volta a encontrar seus agressores. Ela acaba virando um novo terror na sua cidade, um segundo incêndio quase. Ela faz outras pessoas passarem por dores diferentes das que ela passou, mas também dolorosas. Eu não sei muito bem o que tirar dessa parte do filme. Acho que cabem várias interpretações aqui. Alguns chamam de um "filme de vingança feminista", mas eu vejo isso mais na história da Needy, a nerdzinha, do que da Jennifer.

Interpretações a parte, GAROTA INFERNAL é um filme divertidíssimo e provavelmente um dos meus filmes de terror preferidos daquela década. Ele tem uma vibe bem diferente, o equilíbrio perfeito entre o pop e a desgraça. Recomendo demais, principalmente pra quem assim como eu tinha preconceitinho besta com filme de adolescente. Ainda é um filme de adolescente, veja bem!, mas acho até mais divertido ver essas coisas depois de adulto. "Ah, seus amigos tão morrendo assassinados por um demônio aí, moleque? Eu passei um ano desempregado, porra, tu não sabe o que é sofrimento!" e tals.


Dia 23: Mutação (1997)

Mutação (Mimic, 1997)

Dirigido por Guillermo del Toro.

Com Mira Sorvino, Jeremy Northam, Josh Brolin, Charles S. Dutton e Giancarlo Giannini.

Disponível apenas nos esgotos da internet.

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Tem uma coisa que me chama muita atenção em qualquer tipo de filme: bicho feio. Eu adoro ver filme de bicho feio, seja qual tipo seja. Godzilla, O Enigma de Outro Mundo, Cloverfield, Gremlins, Os Smurfs. Se tem bicho feio eu tô dentro. Quando eu soube que Guillermo del Toro, o rei dos bicho feio moderno, fez um filme sobre BARATAS GIGANTES eu não podia deixar de prestigiar e contar aqui pra vocês sobre essa suposta obra-prima. Então, eu prestigiei, e vou contar aqui pra vocês sobre esse filme que... eeeehhhnnnnn.

Pra quem não tá ligando o nome ao filme, Guillermo del Toro é o diretor por trás de diversos clássicos do filme de bicho feio, como O Labirinto do Fauno, Hellboy 1 e 2, Círculo de Fogo, A Forma da Água e mais alguns outros. Ele é responsável até pelos bicho feio que aparecem no primeiro filme de O Hobbit, que ele ia dirigir. Além disso os filmes dele geralmente são bem marcantes visualmente pra mim, mesmo que não goste muito de algum. Aqui em MUTAÇÃO, filme de 97, não fui marcado nem visualmente.

Eu já tô cansado de ver filme que me faz lembrar nossa situação atual, mas esse filme aqui fala de uma epidemia mortal. Mas a epidemia não é a ameaça principal aqui, porque logo no começo do filme ela é controlada! A causa da doença eram baratas, então os cientistas, NATURALMENTE, desenvolveram baratonas maiores ainda pra fuder com as pequenininha. E é óbvio que as baratonas são o perigo do filme.

No começo do filme você não imagina que vai ver baratas do tamanho de seres humanos altos, mas você vai ver isso aqui sim. Dado o histórico do del Toro, imaginei que ia ver insetos animatrônicos super elaborados ou uma pessoa bem magra numa roupa de barata, tipo aqueles animadores de palco do Xuxa Park, mas menos assustadores. Infelizmente não é o que o del Toro apresentou aqui, mesmo eu apostando que ele queria sim usar mais efeitos práticos. As baratas de efeitos práticos tão lá, mas pra quem tava acostumado com os filmes do del Toro em que as criaturas são geralmente fascinantes e tem um design simplesmente legal, foi uma decepção. A coisa mais legal delas é que elas imitam um rosto humano de um jeito que achei divertido.

O roteiro é meio besta, meio básico. "Ah, tem essas barata aqui. Elas tão se multiplicando. Vai dar ruim" e é isso. Tudo que você espera que vá acontecer num filme com essa premissa acontece. O que acho diferente é que no final o filme me lembrou muito Jurassic Park, mas se os velocirraptors e o tiranossauro fossem todos insetos. Achei isso divertido até, e é provavelmente a melhor parte do filme.

Eu sinceramente acho que dava pra fazer algo melhor com o conceito de BARATAS QUE SE FAZEM PASSAR POR SERES HUMANOS. É uma dessas ideias ruins demais pra não serem boas, sabe? Eu faria algo melhor. Eu, que não tenho nenhuma experiência com audiovisual maior que 15 minutos, faria um trabalho melhor que o consagrado diretor de terror Guillermo del Toro. Tá vendo o que a decepção faz? O caba fica doido. Eu só queria umas barata gigante com design elaborado, Guigui. Faz um remake desse filme aí pra nós, por favor. Te amo.


Dia 22: House (1977)

House (1977)

Dirigido por Nobuhiko Obayashi.

Com Kimiko Ikegami, Kumiko Oba, e Yoko Minamida.

Disponível online só na pirataria. Yarrr.

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De vez em quando eu sonho com umas histórias que parecem prontas pra virar algo, tipo um filme ou uma história em quadrinhos. Geralmente essas histórias que imagino são algumas cenas que fazem algum sentido, cercadas por algumas outras cenas que não necessariamente se encaixam com o que vem antes ou depois. Quando eu quero anotar uma dessas ideias pra contar pra alguém ou pra tentar desenvolver algo daquilo, eu geralmente ignoro essas cenas que não tem a ver com a "história principal". Mas hoje eu descobri que nem todo mundo faz isso!

HOUSE é um filme de 77 que eu acho que posso dizer que é o sonho mais legal que eu já vi filmado. E isso é literal, porque o roteiro do filme foi inspirado nos pesadelos da filha do diretor. Todas as partes que falei que ignoro nos meus sonhos tão aqui, sem fazer muito sentido, mas com orgulho.

O filme é sobre sete meninas, cada uma com um nome que descreve perfeitamente a personalidade delas. Tem a Fanta, que fantasia o tempo todo, a Gorgeous, que é linda, a Melody, que toca instrumentos, a Kung Fu, minha preferida, que... luta kung fu, e et cetera. Nas férias elas resolvem visitar a tia de uma delas, que vive no interior, numa casa estranha e isolada. Não tem como dar errado né? Claro que tem, você sabe que tem, foi uma pergunta retórica! Tudo dá errado e a casa resolve comer as meninas de uma por uma! Por isso que o filme chama House. Entendeu?

A produção do filme é feita como se alguém tivesse oferecido pra um hippie uma casa bizarra, um chroma key, algumas pinturas, três músicas, e tivesse dado carta branca pro hippie fazer o filme que quisesse com aquilo. Os efeitos especiais são muito parecidos com os usados mais ou menos na época pelo Chapolin, mas de um jeito mais elaborado, juntando animação, uma fotografia mais ousada e uma edição completamente fora da caixinha. Parece muito que o diretor, o diretor de fotografia e o editor tivessem resolvido experimentar todos os modos possíveis de se filmar e editar um filme. Às vezes o filme parece um vídeo de fundo de máquina de karaoke, às vezes eles resolvem que 24 frames por segundo é frame demais e diminuem, às vezes tem cenas que parecem coisa d'Os Trapalhões misturado com Monty Python. A trilha parece só que fica alternando entre pouquíssimas músicas instrumentais dependendo do tipo de cena e algumas com vocal quando resolvem fazer uma montagem de alguém viajando. É uma doideira.

As sete meninas levam tudo que rola pouquíssimo a sério, como se fossem personagens de um sonho mesmo. Elas tão sempre animadas e dispostas! Elas são um bom contraponto a literalmente todo personagem de todo outro filme de terror existente na história do cinema. Por causa disso o clima do filme é bem mais divertido que assustador, o que era de se esperar, pois essa é mais uma das comédias de terror que comento por aqui, mas geralmente essas comédias tem suas partes tensas. Aqui é tudo lúdico e divertido, eu tava boa parte do tempo com um sorriso no rosto mesmo sem acontecer nada engraçado em tela. Achei tudo muito cativante. Queria destacar as cenas em que a Kung Fu, o melhor personagem já criado no audiovisual, espanca diversos espíritos, animais e objetos inanimados com seus golpes voadores. Eu precisava de um filme só dela.

O foda é que eu sei que recomendar esse filme é uma faca de dois gumes, porque é um filme tão doidinho e incomum que é muito, muito fácil de muita gente simplesmente ignorar todas essas coisas que gostei. Mas recomendo mesmo assim, nem que seja pra experimentar esse pesadelo divertidaço que é HOUSE. Meu sonho um sonho meu ser tão divertido quanto isso aqui. Acho que é até uma lição pra mim: talvez eu não tenha que ignorar as partes sem noção dos meus sonhos, porque elas podem deixar tudo bem mais legal.meiro filme e assistir imediatamente em seguida o novo, que é uma continuação direta com alguns dos personagens que vi nesse primeiro.


Dia 21: Cam (2018)

Cam (1992)

Dirigido por Daniel Goldhaber.

Com Madeline Brewer, Patch Darragh e Imani Hakim.

Disponível pra stream na Netflix.

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Se tem uma frase que todo mundo fala mas que é, principalmente hoje, bem real, é: "não tá fácil pra ninguém". Durante os últimos meses, com essas coisa de crise que tá rolando nesse mundão de meu Deus, já vi algumas pessoas considerando, não sei se seriamente ou não, vender fotos íntimas na internet. É um negócio lucrativo, e deve valer a pena, se você souber como lidar com toda a parada da exposição e do peso psicológico que isso pode ter em quem faz.

Em CAM, o filme de 2018 que eu vi hoje, Lola é uma cam girl, uma moça que faz performances eróticas ao vivo pela internet. Com esse emprego, vem preocupações bem específicas: manter em segredo o que faz pra maioria das pessoas que conhece, lidar com os clientes que pedem pra ver ela no mundo real, manter uma clientela pagante interessada no que ela faz e conseguir mais gente ainda pra ver as performances, pra subir no ranking do site e assim conseguir mais pessoas que pagam pra ver ela pelada na internet. Ela tem se dado bem nesse negócio mas quer mais. O filme mostra todas as estratégias dela pra conseguir mais audiência, que é uma jornada que é interrompida quando a conta dela é roubada por uma pessoa igual a ela.

Quando a conta dela é roubada e ninguém tá nem aí, nem a empresa que administra o site, e nem a polícia, que trata o problema dela com desdém e chega a asseadiar ela, ela investiga por conta própria, e a bizarrice vai aumentando.

Eu acho que enquanto comentário social, CAM é um bom filme. Fala dos limites que as pessoas atravessam pra conseguir visibilidade ou exposição ou dinheiro e de como as redes sociais podem manipular sua vida se você deixar elas fazerem isso. Uma parada muito Black Mirror meeeeu, mas dessa vez literalmente personificada. A cópia da Lola é basicamente a pessoa que ela vende na internet, sem tirar nem por. Quase tudo que ela faz e fala é algo que a pessoa de verdade faria e falaria na internet. NOSSA QUE PROFUNDO, NÃO É MESMO? São boas críticas e comentários, eu só tenho uma preguicinha mesmo do assunto.

Enquanto filme de terror ele constrói lentamente a "ameaça" da parada, o que eu acho que não funcionou muito bem pra mim, achei que demorou a ficar interessante essa parte do filme. Mas a cena do "confronto final" é ótima e acho que deveria ter mais cenas daquelas pelo filme. Talvez se ela não estivesse praticamente sozinha na jornada. A Lola inclusive é a personagem básica de um filme de terror, porque ela não sabe comunicar direito pras pessoas próximas o que tá acontecendo, não sabe ou não quero pedir ajuda, e quando o faz acaba se expondo ao perigo de um jeito estranho. Acho que não a toa tem várias referências à Alice no País das Maravilhas pelo filme, porque a menina se mete em enrascada atrás da outra.

No fim, CAM é um bom filme, interessante, mas que podia ser melhor se ele começasse a ser interessante mais cedo. As coisas que ele fala não são novidade e devem ter outras obras que lidam com esses temas de maneira melhor. Eu realmente acho que a mensagem que ficou na minha cabeça do começo ao fim, principalmente depois da cena final que é meio inesperada, foi: "não tá fácil pra ninguém".

 


Dia 20: O Mistério de Candyman (1992)

O Mistério de Candyman (Candyman, 1992)

Dirigido por Bernard Rose.

Com Virginia Madsen, Kasi Lemmons e Tony Todd.

Disponível em outros países. No Brasil mesmo não.

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O começo dos anos 90 é um ponto cego no meu conhecimento de horror. Vi pouquíssima coisa dessa época, apesar de que tudo que eu vi era legal. Acho que na minha mente essa época tava reservada pras infinitas continuações ruins de franquias de terror e pro surgimento de infinitas franquias novas, também meio ruins, geralmente de slashers. Como eu queria ver um filme de slasher que não fosse de nenhuma das séries mais consagradas e não tinha muito do começo dos anos 90 na minha lista E ainda por cima tem um filme novo pra sair já já, resolvi ver uma dessas franquias novas que surgiram na época.

Mas enquanto assistia O MISTÉRIO DE CANDYMAN, de 92, me surpreendi por ele não ser um filme de slasher como eu tava imaginando, um daqueles que o filme POR TRÁS DA MÁSCARA, que eu vi mais no começo do mês, parodiava, apesar da premissa do filme ser perfeita pra esse tipo de terror. O Candyman aparece quando alguém fala seu apelido cinco vezes na frente do espelho, tipo a Loira do Banheiro. Dá pra visualizar facilmente um filme todo com um grupo de adolescentes que faz a burrada de invocar um espírito maligno e passa o filme todo correndo dele e tentando despistar a morre inevitável, mas não é isso que o filme faz.

Tem, sim, várias pessoas morrendo pelas mãos de um cara gigante sobrenatural, mas... tem um clima diferente. O Candyman não tá perseguindo um grupo de adolescentes bocós porque eles perturbaram ele, ele tá perseguindo uma estudiosa porque ele precisa sobreviver enquanto lenda urbana. As mortes no meio do caminho são só pra convencer a mulher a morrer por vontade própria. Cara tóxico.

Essa coisa de matar pra manter o status mitológico é meio Freddy Krueger, mas sei lá, o Candyman tem toda uma coisa poética sobre ele. O background trágico e o jeito que ele enuncia todas as palavras com muito cuidado e aquela voz que vem de todos os lados, dominando seus ouvidos, fazem desse personagem algo especial. Ele tem toda uma dramaticidade e imponência que outros assassinos desse tipo de filme não costumavam ter. A primeira cena em que ele aparece é literalmente arrepiante e toda cena com ele depois disso é de deixar você de olho esbugalhado, não só por ele mas como as cenas são construídas e dirigidas. E ele continua sendo um filho da puta sádico que mata sem dó e enlouquece pessoas de boaça, então ainda é um belíssimo vilão também.

Um aspecto que tem que se destacar também é a trilha sonora, que tem muito órgão nas músicas, dando aquele toque de terror gótico que não se encaixa com o cenário urbano moderno de Chicago mas que encaixa perfeitamente com o personagem e o que ele faz.

Depois desse filme tiveram duas continuações que eu não sei se valem a pena de ser vista, porque né, continuação de franquia de terror nos anos 90. Esse ano ia sair uma nova continuação que essa sim me deu vontade, por ter dedo do Jordan Peele e Jordan Peele é um cara que acho que nunca errou até hoje. O filme foi adiado pro ano que vem por causa da bactéria filha da puta, o que me deixa triste porque eu queria a possibilidade de ver o primeiro filme e assistir imediatamente em seguida o novo, que é uma continuação direta com alguns dos personagens que vi nesse primeiro.

Enquanto o novo não estreia nos cinemas ou sei lá onde o vírus deixar o filme estrear, eu acho que você devia dar uma chance a'O MISTÉRIO DE CANDYMAN. Tem muito mais nele além do que eu falei aqui e acho que é um filme com diversas camadas diferentes dependendo de quem o vê. Depois de ver você vai ter vontade de invocar o filme novo indo pra de frente ao espelho e repetindo cinco vezes: Candyman. Candyman. Candyman. Candyman. Candyman.


Dia 19: Plano Sequência dos Mortos (2017)

Plano Sequência dos Mortos (Kamera o Tomeru na!, 2017)

Dirigido por Shin'ichirô Ueda.

Com Takayuki Hamatsu, Mao, Harumi Shuhama, Yuzuki Akiyama e Kazuaki Nagaya.

Disponível em lugar nenhum que a lei deixe.

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Vou soltar algumas curiosidades sobre mim aqui: eu gosto de ver filmes; eu gosto de ver filmes de terror; eu gosto de comédias; eu gosto de explorar o cinema asiático; eu gosto de metalinguagem; eu gosto de tosquice; e eu gosto de filmes cujo assunto são filmes. Se alguém resolvesse juntar tudo isso num filme só: ainda teria a grande chance de sair um filme que não é legal, porque né, não é como se todo cineasta fosse bom no que faz, MAS hoje eu vi essa junção funcionando de maneira perfeita pra mim.

PLANO-SEQUÊNCIA DOS MORTOS, o filme de 2017, é cheio de surpresas e eu acho que vou até ter dificuldade de falar sobre ele sem entregar mais da história do que eu já entreguei na introdução. É bem legal se você for ver ele sabendo só da premissa básica com a qual ele se vende: uma comédia de zumbi, em que durante a filmagem de um filme de zumbis, zumbis de verdade atacam a equipe e o diretor continua filmando tudo. E o filme é isso por 40 minutos, um filme engraçado, em plano sequência, tosco, mas que parece que quer ser sério. Durante esses 40 minutos tem todo um clima estranho de que as pessoas não sabem muito bem o que tão fazendo, o que adiciona ainda mais pra comédia. Daí o filme acaba! E aí começa outro filme que faz com que as loucuras que a gente viu antes façam sentido, porque ele basicamente mostra outro ângulo da mesma história.

Enquanto filme de terror, ele é meio ok, se você curte um trash. Não tem nem muito o que falar aqui, mesmo o podcast sendo sobre isso. Foi mal. Vi gente dizendo que é a melhor comédia de zumbi desde Todo Mundo Quase Morto mas acho uma comparação meio injusta, porque os filmes lidam com os zumbis (e com a comédia) de maneira completamente diferente. Ele brilha mesmo na coisa de fazer rir. Eu sou besta pra rir com filme e sei que humor japonês não é todo mundo que curte, mas esse foi um dos filmes que eu mais ri nos últimos anos, sem exagero. E não só porque o que aparecia em tela era engraçado, mas porque as partes mais engraçadas no meio pro final do filme faziam você entender outra coisa engraçada no começo do filme, fazendo uma pilha de piada. Foi MUITO gostoso ver o desenrolar das piadas, porque é tudo encaixado, bem redondinho.

A segunda parte do filme também é a que aborda mais a coisa de "fazer filmes". Assistir aquilo foi quase como ver extras de um DVD ou ler entrevistas com diretores e atores, mas de uma forma narrativa, interessante e engraçada. Ela também tem uma parte mais emocional, um drama familiar, que é muito bonitinho e faz você gostar dos personagens muito rápido. O que inclusive me deu vontade de ver as duas mini-sequências que o filme recebeu. Eu vi a segunda, que é um curta de meia hora que tá no YouTube, chamado One Cut of the Dead - Mission: Remote, que foi feito remotamente durante a pandemia que é tipo a coisa mais fofa e que conversa bem com, desculpa o termo clichê, ~esse momento em que vivemos~.

Acho que consegui falar sem entregar muito e tomara que eu tenha despertado o interesse de alguém no filme. Se você tá aqui só pelo terror, pode pular, mas se você é fanzão de comédia e tem curiosidade sobre produção de filmes até, inclusive os de terror, olha só, eu acho que vale muito a pena. Eu consigo me ver voltando a esse filme muitas vezes. Dá vontade de fazer meu próprio filme de terror ruim. Alguém topa?


Dia 18: O Gabinete do Dr. Caligari (1920)

O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920)

Dirigido por Robert Wiene.

Com Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Fehér e Lil Dagover.

Filme no domínio público. Qualquer lugar que você pegar ele pra ver é legal. Eu vi no YouTube.

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A lista que eu fiz pra me ajudar aqui a escolher os filmes pro podcast não tá ajudando em nada, quase. Percebi que tô escolhendo os filmes de acordo com minhas necessidades momentâneas. Teve um dia que eu não pude parar em casa então vi um filme que tinha fácil no Prime Video. Teve um dia que eu precisava ver um filme pra gravar meu outro podcast então acabei vendo o filme de terror ruim do Nicolas Cage. Teve um filme que eu descobri que ia sair do ar no dia seguinte então acabei vendo ele mesmo. Hoje eu tava com muito sono e queria ver algo curto pra não me tomar muito tempo de descanso merecido. Então fui ver o filme de terror mais curto que encontrei na frente.

O GABINETE DO DR. CALIGARI é um filme de 1920, possivelmente um dos primeiros - senão o primeiro - filme de terror da história. 100 anos de filmes de terror! Parabéns aí ao gênero terror. Você poderia imaginar que por ser um filme que já tem 100 anos algumas coisas podem não funcionar ou ser ultrapassadas. Ouvinte, em primeira mão lhes digo: é verdade. Primeiro que o filme é mudo, o que já demonstra certo grau de linguagem defasada aí, né, mas fazer o que. Achei engraçado notar o quanto a câmera foca em pessoas falando por um bom tempo sendo que aquilo tudo que ela tá falando vai aparecer em texto já já, ou seja, não precisa passar tanto tempo mostrando a pessoa falar. Parece uma crítica boba, né? E é mesmo. Vamo avançar.

A história do filme se passa quando, num festival numa cidadezinha, surge o tal do Doutor Caligari, um cara que parece um vilão de desenho animado dessa época, que mostra algo incrível em sua barraquinha na feira: um sonâmbulo! Eu diria que um cara que anda enquanto dorme é algo mais interessante no papel do que na prática, mas esse aqui tem um diferencial: ele pode responder qualquer pergunta. O BFF do personagem principal pergunta o que nunca se deve perguntar num filme de terror, que é a data de sua morte. Porque é óbvio que a data era naquela mesma noite. O filme constrói um mistério até interessante sobre o que tá acontecendo, mesmo que o espectador meio que já saiba o que tá acontecendo. Ele coloca camadas a mais no mistério que fazem com que a história seja bem legal, com alguns plot twists que hoje diríamos que são Shyamalanescos. Toda a parte do flashback do doutor me deixou bem curioso e a solução final do roteiro é clichezaça hoje em dia, mas aparentemente era uma puta inovação 100 anos atrás. Tudo começa em algum lugar.

Mas é pelo visual que ele é mais lembrado, imagino, com os cenários bem viajadões, cheios de formatos não-funcionais pras coisas, sombras pintadas, paisagens desenhadas de forma não realista. Eu consigo ver isso aqui sendo referenciado até hoje em coisas como os filmes do Tim Burton, e outras obras que fazem uma parada meio "dark estilizada", e acho que é uma daquelas coisas que, por ser tão observada, absorvida e refletida durante todos esses anos, muita gente acaba referenciando e se inspirando sem nem saber. Eu acho que toda a galera mais darkzinha dos anos 80 pra cá devem muito a esse filme. O sonâmbulo podia muito bem ser um membro do The Cure ou do Misfits.

O GABINETE é um filme curtinho, menos de uma hora e meia, que seria mais curto ainda se os intertítulos com os diálogos não passassem tão devagar, então acaba que o "conteúdo" do filme é quase um curta metragem. Mas veja sem pressa, é um filme muito interessante, massa de olhar e se você não for uma pessoa superficial como eu sou eu tenho certeza que você vai perceber e interpretar as mensagens anti-autoridade que tão ali. Mas você que vai fazer isso, não eu.


Dia 17: Escravas da Vaidade (2004)

Escravas da Vaidade (Dumplings / Gau ji, 2004)

Dirigido por Fruit Chan.

Com Miriam Yeung, Bai Lin e Tony Leung Ka-fai.

Disponível em lugares ilegais de se acessar apenas.

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Adendo: prestes a esse episódio ser editado e publicado, eu descobri que ele tem um nome nacional: ESCRAVAS DA VAIDADE. Talvez esse nome invalide tudo isso que eu falei porque já deixa tudo na cara? Talvez. Mas a vida tem dessas.

O terror às vezes fala de uns temas meio complicados né? Toda vez que se coloca um lobisomem ou um zumbi ali na tela os caras tem algo a falar. Quer dizer, nem sempre, tem vez que só dá vontade de colocar um lobisomem ou um zumbi ali na tela, e isso também tem seu valor. Mas acho que as coisas tem mais impacto quando a mensagem tá ali atrás dando tchauzinho discretamente.

Eu, que não sou um crítico nem muito menos estudioso, que topei fazer esse podcast só pra treinar minhas habilidades comunicacionais, não descobri ainda qual o tema de DUMPLINGS, o filme de 2004, e vou tentar descobrir ou pelo menos clarear o caminho pra mim mesmo enquanto escrevo esse episódio. Que, aliás, é sempre escrito antes porque eu sou PÉSSIMO em improvisação!

O filme conta a história de uma mulher que se sente abandonada pelo marido e acha que isso é pela idade dela e pelo marido preferir mulheres mais novas, apesar de o único sinal que o filme dá de ela ser mais velha é o corte de cabelo de senhorinha. Daí ela busca uma solução milagrosa nos dumplings - que são tipo uns pasteizinhos cozidos - de uma moça. ÓBVIO que se esses dumplings funcionarem mesmo não pode ser coisa de Deus. E não é! Eles são feitos de um material que não nada legal no sentido jurídico e no sentido de ser um negócio muito baixo astral também.

A história vai seguindo e mostra a protagonista ficando mais acostumada e com menos sensibilidade ao pastelzinho com recheio de bad vibes. E daí o filme fica um tanto mais bad vibes porque a mulher não tá satisfeita e quer que o efeito surja mais rápido, com mais força. E é óbvio que isso não vai dar certo.

O terror do filme tá muito nas consequências indiretas do que ela faz em nome da beleza e de reconquistar o marido, consequências essas que ela nem vê. Existe um subplot de pura desgraça que não envolve os personagens principais diretamente mas que acontece POR CAUSA deles, e até pior que os personagens não saibam disso porque acaba que ninguém aprende nada. E talvez mesmo se alguém aprendesse, não parariam, porque ninguém ali presta. Nem a esposa traída que acaba ficando levando sua obsessão pela beleza até as últimas consequências, resultando numa cena final até revoltante, nem a cozinheira, que tem todo um discurso de empoderamento mas faz a sua fama em cima do sofrimento alheio.

Então talvez o tema do filme seja a obsessão fazendo com que você perca consciência das consequências dos seus atos? Talvez. DUMPLINGS é um filme interessante que levanta algumas questões que eu sinceramente não me sinto nem capacitado de falar algo relevante sobre. Então, talvez seja essa a minha conclusão? Incerteza? Talvez? Fica o aviso de que existem certas cenas que podem particularmente fortes para pessoas com úteros, com coisas sobre abuso e aborto. Então cuidado se você se abalar com esses temas. Enfim, tchau, filme bad vibe do caralho.


Dia 16: Quando Chega a Escuridão (1987)

Quando Chega a Escuridão (Near Dark, 1987)

Dirigido por Kathryn Bigelow.

Com Adrian Pasdar, Jenny Wright, Lance Henriksen, Bill Paxton, Jenette Goldstein e Joshua John Miller.

Disponível pra stream no Belas Artes À La Carte.

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Clique aqui para ler a transcrição do episódio.

Existem momentos da vida em que, quando diante de um evento marcante em sua vida, você olha pra trás e vê que tudo que você esperava estava errado ou incompleto. Como quando você fazia planos pra curtir a vida em 2020, quando você achava que ia fazer algo além de assistir 100 filmes durante uma quarentena prolongada por um governo despreparado. Um momento parecido com isso aconteceu comigo hoje ao assistir QUANDO CHEGA A ESCURIDÃO, filme de 87. Tudo que eu pensei que fosse verdade não era.

Essa introdução funcionou pra te chamar a atenção? Espero que sim, porque era só pra chamar a atenção mesmo, QUANDO CHEGA A ESCURIDÃO NÃO É NADA DEMAIS. Ele só quebrou minhas expectativas porque eu pensei que era um filme sobre lobisomens no Velho Oeste, mas na verdade era sobre vampiros no Oeste, sem ser velho mesmo. Eu não faço ideia de onde tirei essa ideia e tô muito decepcionado com meu próprio cérebro.

Mas tudo bem, acabou que foi um filme legal! Ele conta a história do jovem caipira americano mais padrão possível, muito parecido inclusive com o jovem caipira americano de A Bolha Assassina, que falei outro dia. Ambos parecem muito uma xerox mal feita do cara de Twin Peaks. Esse jovem, em sua eterna saga de ir atrás das gatinhas, acaba se metendo com uma perigosa, afinal era uma que gosta de chupar sangue alheio. Ela acaba mordendo ele depois de ele ser um puta babaca e a partir daí a vida do moleque vira um inferno. E a vida do espectador melhora, porque aí a gente conhece os personagens realmente interessantes: a gangue dos vampiro doido. São 4 vampiros, além do caipira e da menina bonita, que saem por aí numa road trip da desgraça, matando a clientela de bares e incendiando carros como se estivessem em Paris.

Mas esse filme é de uma época que eu acho que anti-heróis não eram lá tão populares, porque o roteiro se recusa a fazer o jovem caipira americano padrão parecer malzinho por vontade própria. Ele nunca toma sangue que não foi oferecido pra ele pelo dono atual, não comete um crime. É um jovem modelo que acabou se envolvendo com más companhias. Parece um filme escrito pelo filho de um milionário que foi pego com drogas, escreveu um roteiro e disse "Olha aqui, pai! Eu não fiz nada! Eles que fizeram tudo, eu acompanhei pra não ser mal educado!". Isso faz com que o personagem principal, que já não tinha carisma nenhum, pareça um personagem passivão, isentão. Só tá ali porque tá ali. Não que seja ruim existir personagens assim, mas ele ser o principal não convence.

Principalmente por estar ao lado de Bill Paxton, o ator com mais cara de perturbado dos anos 80, fazendo um vampiro malucaço que eu aposto que foi inspiração pr'aquele personagem de Preacher. Ele tem todas as cenas e falas interessantes do filme inteiro. Como se ele fosse um tipo de... personagem principal. O porquê o filme não ser sobre ele deve ser só por essa coisa de não se confiarem em colocar um anti-herói (ou um vilão) no papel principal. Aposto que se fizessem um remake desse filme hoje em dia ele teria até mais destaque. Mas perceba que eu falo isso sem nenhum dado concreto, se você tem informações sobre anti-heróis fazendo sucesso nessa época, durma com a consciência de que você está correto e eu errado.

Os visuais do filme também são legais. Tem algumas cenas com enquadramentos bem icônicos, com destaque pra cena em que os vampiros tão em cima de um morro observando o que tá embaixo. Parece coisa daqueles filmes expressionistas do cinema mudo. Os efeitos especiais são bons pra época, com muita gente pegando fogo de verdade e por efeito visual, de um jeito que funciona sem te tirar da história. As partes sangrentas são bem feitas - e tem muita parte sangrenta. Teve uma hora que eu quase acreditei de verdade que o Bill Paxton tinha sido atropelado por um caminhão.

Mas ainda assim, tem o negativo tanto do personagem principal quanto da conclusão da história. Eles simplesmente acham a cura do vampirismo por causa de uma ideia tirada do nada e executada por um veterinário. É a parte mais boba e fora da realidade do filme.

QUANDO CHEGA A ESCURIDÃO não é nada demaaaais, mas é legal e uma ótima pedida pra quando você quiser assistir um filme de lobisomem no velho oeste. Mas sério, alguém sabe que filme é esse que eu tô pensando? Me ajudem a achar. Beijo.


Dia 15: Regresso do Mal (2015)

Regresso do Mal (Pay the Ghost, 2015)

Dirigido por Uli Edel.

Com Nicolas Cage e Sarah Wayne Callies.

Disponível pra stream na Prime Video, HBO Go, Tele Cine Play e Globoplay.

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Clique aqui para ler a transcrição do episódio.

Pra quem não sabe, o 31 Dias de Horror não é meu primeiro podcast sobre filmes. Eu faço parte da equipe do Podcast Nicolas, o primeiro e por enquanto único podcast brasileiro que se dedica a falar sobre a filmografia completa de Nicolas Cage. Parece uma ideia besta falar de todos os filmes de um ator específico, e é mesmo. Principalmente quando esse ator é Nicolas Cage, um cara que tem mais ou menos 100 créditos de ator no seu nome. A gente tem episódio garantido, sem brincadeira, até mais ou menos o meio de 2022. Mas o que isso tem a ver com o que eu tô falando aqui? Tem a ver que eu só vi REGRESSO DO MAL, o filme de 2015, por causa do senhor Nicolas Cage.

Assim, eu não QUIS ver porque tinha Nicolas Cage no elenco, eu TIVE que ver porque tinha Nicolas Cage no elenco. Como eu tinha que gravar o episódio de Halloween do Podcast Nicolas, aproveitei pra matar dois coelhos com uma caixa d'água só. Ontem a noite eu gravei o episódio do Nicolas, que sai dia 31, pra quem quiser ouvir, e até hoje, quase 24 horas depois, eu ainda não tenho muito o que falar desse filme que é perfeitamente medíocre.

Ele conta a história de um pai que perde o filho na feira durante o Halloween. Até aí tudo bem, quem nunca se perdeu na feira quando criança né. Mas o problema é que essa criança não voltou, porque ela foi levada por uma presença de encapuzada e talvez por um urubu. Daí o filme se desenrola nessa, o menino sumiu, um ano depois ainda não voltou, o casamento dos pais foi destruído por causa disso e é isso aí.

A primeira metade do filme é só o Nicolas Cage triste tentando fazer uma investigação triste mas de vez em quando vendo a presença do menino pela cidade. A segunda metade tem a parte da assombração, um fantasma de bruxa que aparece aqui e ali. Sinceramente, não é interessante. O tempo todo eu ficava lembrando de filme que fizeram melhor algumas coisas que tão nesse aqui, como Stigmata, Simão o Fantasma Trapalhão e Scooby-Doo e o Fantasma da Bruxa. Essa piada eu repeti lá no Nicolas, então fica aí um teaser.

Não tenho muito o que falar tecnicamente de REGRESSO DO MAL porque nada chama muita atenção. Acho que a coisa mais interessante é o visual da bruxa, que é a tal presença encapuzada, toda queimada. Daria medo num filme melhor. Aliás, o jeito que esse filme tenta botar medo no espectador é 100% baseado em jump scare, aqueles sustos repentinos que você fica puto quando acontece e que pode ser facilmente evitável se você falar em voz alta "lá vem o susto, lá vem o susto, lá vem o susto". Além disso... tudo meio sem graça. Básico, medíocre. Já falei até demais aqui. Depois ouve o episódio 69 do Podcast Nicolas que lá teve mais gente falando e ficou mais legal. Mais legal até que esse filme.


Dia 14: A Morte Te Dá Parabéns (2017)

A Morte Te Dá Parabéns (Happy Death Day, 2017)

Dirigido por Christopher Landon.

Com Jessica Rothe, Israel Broussard e Ruby Modine.

Disponível pra stream na Netflix.

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Histórias clichê estão em todo lugar, acontecem a todo momento e não há nada que a gente possa fazer quanto a isso. No tempo que leva pra você dizer a frase "ah, eu odeio os clichês de Hollywood, essa indústria não é mais original desde, sei lá, O Poderoso Chefão" foram lançados 4 filmes de máfia e um deles também é de super-herói. E tá tudo bem, eu acho! Sem os clichês a vida é chata e não há parâmetro de comparação pra quando as histórias realmente originais (que nunca são realmeeeente originais) aparecem. Mas a existência dos clichês também dá espaço a existência dos clichês bem feitos, que, pelo menos pra mim, sempre tem um gostinho melhor.

Cheguei numa altura desse podcast que, por já estar chegando na metade, eu meio que não tenho como não me auto-referenciar nos episódios, então aguentem. MAS, eu já falei aqui antes de um filme que era um festival de clichê bem feito, A Bolha Assassina. Ele pegava várias coisas dos filmes de terror da sua época, juntava numa coisa só e expelia um filme muito bem feitinho. A MORTE TE DÁ PARABÉNS, o filme de 2017 que é o assunto desse episódio, também faz isso, mas não com clichês do próprio gênero de terror, mas do gênero de ficção científica num contexto de terror. Na verdade, não sei dizer se o loop temporal, que é do que se trata esse filme, é exatamente um clichê de ficção científica, porque o seu maior expoente, O Feitiço do Tempo, não é um sci fi. Mas ainda assim tem vários filmes sci fi que usam desse tema como sua premissa, como Looper, No Limite do Amanhã, Contra o Tempo. Mas nenhum usa ele num contexto de terror como esse aqui.

No dia do seu aniversário, Tree acorda no quarto de um cara desconhecido, vai andando de volta até sua fraternidade na faculdade, vai pra aula, vive sua vida, e é assassinada por um cara com máscara de bebê. E no dia seguinte acontece a mesma coisa, e no dia seguinte também. Ela tenta investigar o que tá acontecendo e falha várias vezes, com todo dia terminando com a sua morte. Ao longo do filme, enquanto a Tree, que é meio que uma babaquinha, vai descobrindo mais sobre o mistério do que tá acontecendo, ela aprende coisas sobre a vida e nós aprendemos mais sobre ela e aprendemos também a gostar dela, porque é óbvio que ela não ia ser tão babaquinha até o fim do filme. Tudo isso pode ser copiado quase que pra todo filme de loop temporal com pouquíssimas mudanças. Às vezes os personagens tem objetivos diferentes e jeitos diferentes de tentar escapar do loop, mas a história básica geralmente é essa. Isso é ruim pr'A MORTE TE DÁ PARABÉNS? De jeito nenhum. Apesar do teor violento, é muito divertido ver a Tree entendendo mais sobre seus arredores, conhecendo melhor a si mesma e às pessoas que estão ao seu lado. Ela é uma personagem que apesar de começar detestável rapidamente mostra que na verdade é muito carismática, uma das protagonistas de filmes de terror mais divertidas que vi nos últimos tempos. Também ajuda o fato do filme não se levar tanto a sério, tendo umas cenas muito engraçadas no meio disso tudo, aliviando a tensão e dando mais personalidade ao filme.

Mesmo os motivos de aquilo acontecer com ela nunca serem explicados (porque eu acho que eles guardaram a explicação pro segundo filme, que eu ainda tenho que assistir), a história é bem feita e o mistério, sendo aquele clichê de sempre, deixa instigado e tem seus twists pra não deixar o ânimo morrer. A insistência tanto da protagonista quanto do antagonista é num nível quase anime de porrada, os caras não desistem e eu QUERO ver eles tentarem superar um ao outro.

Clichê bem feitinho é gostoso demais e eu tô com uma vontade de ver a continuação depois que eu terminar esse projeto, principalmente pra ver esses personagens de novo. Tomara que eles deem um jeito de colocar mais clichê ainda no meio pra fazer de uma maneira que eu veja e pensa "nossa, que bem feitinho". Como podem ver eu não sou exigente.

Episódio dedicado ao meu amigo Roberto Rudiney que fez aniversário ontem e eu errei o cálculo pra dedicar o episódio do aniversário dele a ele! Desculpa! A morte tá te dando parabéns daqui!


Dia 13: Vigiados (2020)

Vigiados (The Rental, 2020)

Dirigido por Dave Franco.

Com Dan Stevens, Alison Brie, Sheila Vand e Jeremy Allen White.

Disponível para stream no Prime Video.

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Acho que um tipo de terror que consistentemente tem um público que vai assistir e sair do cinema todo desconfiado é o terror com situações normais do dia a dia que dão completamente errado. Aquelas histórias em que, por um deslize ou pela sabotagem consciente de alguém, um acampamento, um jantar ou qualquer outro acontecimento mundano e sem muito significado acaba virando algo assustador. É esse efeito que VIGIADOS, de 2020, tenta causar em quem vê, mas que não funciona muito.

Ele conta a história de dois casais de amigos que vão alugar uma casa pra passar um fim de semana de boinha, tranquilinhos, como muita gente faz. Só que se você prestou atenção no tema que esse podcast lida desde o primeiro episódio no dia primeiro de outubro, já sabe que VIGIADOS é um filme de terror, então é óbvio que os protagonistas não vão sair impunes do crime de querer se divertir. Depois de alguns deles fazerem coisas que não deviam, perceberam que haviam câmeras escondidas em alguns lugares da casa e que os outros poderiam descobrir as coisas que eles fizeram.

O plot básico parece interessante e é muito fácil já tirar algumas conclusões só dessas últimas coisas que falei. Mas VIGIADOS subverte suas expectativas ao fazer: quase nada com essa premissa. Ter câmeras escondidas pela casa abre um leque de possibilidades de maneiras com que a pessoa que está observando aquilo tudo possa chantagear ou manipular de alguma maneiras os habitantes atuais da casa. Abre possibilidades até de quem poderia ser essa pessoa que está gravando e quais são seus motivos. O filme constrói as situações lentamente, não dando nem muito tempo de usar as câmeras contra os personagens. O que o filme faz é só uma amostra do que outro filme melhor faria 30 minutos antes pra começar a parte mais interessante. A conclusão da história, em que finalmente algo acontece e, spoiler, pessoas morrem, é uma grande brochada filmada, um vislumbre de um filme de terror mais efetivo. É até triste.

Mas esse é o primeiro filme do diretor, que é inclusive o Dave Franco, irmão do James Franco. Com certeza ele vai ter tempo pra parar e pensar nos seus erros. A parte técnica do filme é boa, mas o roteiro, que também é co-autoria dele, não ajuda mesmo. Talves ele devesse pensar um pouco mais em fazer com que a espera valha a pena, não que seja usada pra fazer 20 minutos de um filme genérico. Desperdiçar é feio.


Dia 12: Ring: O Chamado (1998)

Ring: O Chamado (Ringu, 1998)

Dirigido por Hideo Nakata.

Com Nanako Matsushima e Hiroyuki Sanada.

Disponível para stream no Prime Video.

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Do começo pro meio da década de 2000 teve uma onda bem grande de remakes americanos de filmes de terror de outros países, porque americano é mimado, não sabe ler legenda e nem ver filme dublado. Americano fazer remake nunca foi novidade e nunca parou (ontem mesmo eu citei um! Presta atenção!), mas esse estouro de manada de remakes de terror foi iniciada por uma singela fita VHS.

Obviamente eu tô falando de RING: O CHAMADO, o filme japonês de 98. E quando eu falei da fita VHS, claro que eu tava fazendo uma brincadeira com a história do filme (que pra quem não sabe se trata de uma vídeo amaldiçoado gravado numa VHS que quem assiste morre depois de uma semana). Mas eu também falando literalmente, porque o diretor do remake americano quis produzir o filme depois de receber uma cópia em VHS do original. Eu se fosse esse cara ficaria é com cagaço de fazer qualquer coisa relacionada a esse filme. Porque esse filme dá, sim, um cagacinho, apesar de eu esperar mais.

O que eu costumava ouvir sobre RING, ou RINGU, como alguns chamam, é que ele era um filme bem mais assustador que o americano, mas acho que ambos tem um nível de trancamento de cu meio equivalente. RING foca bastante em criar o clima. Ele faz questão de, a cada dia que passa, marcar bem claramente com a data na tela. Ele também não foca tanto na parte gráfica da parada, tanto no sentido de não mostrar quase nenhuma cena de violência quanto nos efeitos especiais, que são bem simples. A cena icônica da menina fantasma saindo da TV tá em ambos os filmes, mas pelo filme japonês ser tão "cru" no seu visual acaba perdendo parte do impacto.

Eu odeio ser o cara que fala do filme original direto comparando com o que veio depois, mas é impossível pra mim nesse caso. O Chamado é um filme que me pegou com muita força quando vi, ainda pivete, e que mesmo fazendo muuuuitos anos que não vejo ainda tá muito gravado na minha memória. Eu vi O Chamado a noite na varanda de um sítio. Direto eu ficava olhando pra trás pra ver se não via alguma coisa. E eu acho que eu tava tão preocupado com isso que eu acabei imaginando coisa mesmo. Isso fica muito na mente né? Pergunta pra esse cara sem rosto que tá aí do teu lado.

Mas também não posso dizer que o original não é bom. Ele só tem um tipo de execução diferente. Acho que só do filho da personagem principal não parecer com o moleque do filme A Profecia em seu comportamento já é uma vantagem enorme, por exemplo. Mas tem uma cena em específico que achei bem interessante aqui: quando a repórter entra em um poço pra achar o cadáver da menina amaldiçada e oferece amor de mãe a um esqueleto nojento e melequento.

Outra parte importante de ambas as histórias é a fita VHS. Ela aqui não é muito assustadora. É mais intrigante. Dá vontade de saber o que tá rolando ali, mas falta um tchan a mais pra ela ser assustadora, que foi o que o remake americano fez. Inclusive, quando eu descobri esse vídeo num extra secreto do DVD quando eu era criança eu fechei ele imediatamente. Sei que a maldição não era de verdade, mas vai que era??

Então, é com muito pesar que acabo esse podcast defendendo o imperialismo americano e a apropriação cultural. Deu pra perceber que O Chamado americano me impactou bastante, então digo que, mesmo repetindo cenas e partes do roteiro, o remake é melhor. Ele é uma expansão, quase, do sentimento do filme original. Mas RING ainda é um filme legal e assustador, principalmente se você não viu o outro antes. Recomendo ver pra fins de comparação. Prometo não mais defender americano nesse podcast. Acho que vai ser fácil.


Dia 11: Suspiria (1977)

Suspiria (1977)

Dirigido por Dario Argento.

Com Jessica Harper, Stefania Casini, Alida Valli e Joan Bennett.

Disponível para stream no Prime Video.

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Eu nunca tive problema com filmes antigos mas acabo sempre orbitando mais nos lançamentos mais recentes, então uma das vantagens de fazer um projeto como esse podcast é que eu finalmente tenho desculpas pra ver clássicos que nunca vi antes! Alguns dos que já vi aqui nos dias anteriores são casos disso. Mas já que é um projeto de 31 dias, e 31 filmes são muitos filmes, eu acho que cabem até alguns que, mesmo clássicos, eu nunca tinha tido vontade de ver por algum motivo ou outro. É o caso de SUSPIRIA, de 77.

O Dario Argento, o diretor, é conhecidíssimo como a noite de Paris (ou de Roma, já que ele é italiano), mas nunca tinha visto nada dele, até onde lembro. Eu sempre tive mais vontade de ler sobre os filmes dele do que de assistir mesmo. Acho que eu tinha o entendimento que as pessoas acham os filmes deles clássicos pro gênero mas sem muito sentido, sendo mais estética que conteúdo. E eu não tô nem dizendo que as pessoas realmente falam isso, mas que eu ACHO que já ouvi falarem isso. Qual não foi minha surpresa ao assistir Suspiria e constatar que não é um filme tão sem noção quanto as pessoas que vivem na minha cabeça acham que ele é! Apesar de ter, sim, uma ou outra coisa que não faz muuuito sentido.

O filme conta a história de uma moça americana que vai estudar balé numa escola consagrada da Alemanha e enquanto tá lá presencia coisas chatas, tipo a morte de pessoas que estavam lá antes dela, ela passar mal do nada e uma invasão de tapuru. Inconvenientes, sabe. Uma colega dela fica enchendo a paciência dela com uns papo de conspiração mas a americana parece que tá num jet lag eterno e tá sempre com sono, tadinha. A atuação das personagens principais é até meio engraçada, e não consigo nem julgar se elas são ruins ou se o filme estranhinho levou as atuações delas pra esse clima também. Inclusive, o filme é todo em inglês, mas alguns dos atores atuavam em idiomas diferentes e eram dublados na pós-produção. Eu imagino que o clima dos sets era tipo os pontos turísticos de Fortaleza durante a Copa de 2014, cheio de gringo falando nada com nada mas todo mundo se divertindo. Porque aposto que uma gravação de filme de terror é igual assistir futebol, sim. Mesma coisa.

A parada que eu acho mais legal no filme é o visual. Não coisas tipo efeitos especiais, que são bem tosquinhos, mas a quantidade de lâmpada que usaram aqui dava pra iluminar um estádio (da Copa de 2014). Quando as cenas não são pé no chão sempre tem cores vibrantes nas paredes ou na cara das pessoas, o que eu acho que cria aquele clima de deconforto legal. Tem cenas que parecem que tem sabor melancia por causa da mistura de luz vermelha com verde. Fica um visual muito marcante, e é acho que é uma das coisas pelas quais o filme é mais icônico. Aliás, existem cenas de violência que até são meio chocantes mesmo com a maquiagem fraca que eles tem. Se fosse mais bem feitinho eu acho que tinha o potencial de me deixar meio perturbado.

O roteiro, como disse antes, é simples mas com suas partes confusas, como por exemplo o final, que me confunde não pelo que ele mostra, mas sim com a decisão do diretor de terminar o filme simplesmente do nada. Não existe uma conclusão satisfatória à história, existe tipo um "evento" que acontece e aí tudo acaba. Também me confunde a reação da personagem principal ao final, mas não quero entrar na coisa dos spoilers, até por que a gente nem tem tempo pra isso.

Eu não falei antes, mas SUSPIRIA tem um remake, feito em 2018, que é muito bom e também recomendo. Não consigo nem apontar se um é melhor que o outro. Bom sinal pra produção original que conseguiu fazer um filme também impactante com menos recursos. E é isso que o filme é, um impacto, meio barato, meio simples, mas com certeza um impacto.


Dia 10: A Bolha Assassina (1988)

A Bolha Assassina (The Blob, 1988)

Dirigido por Chuck Russell.

Com Kevin Dillon e Shawnee Smith.

Não disponível no Brasil. A internet é sua amiga.

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Existem inúmeros tipos de filmes de terror, e só nos primeiros 10 dias desse projeto já vi vários tipos diferentes.: assassino, demônio, maldição, vampiro, alienígena, Adam Sandler. Todos são tipos diferentes de filmes e todos tem a função de tentar pelo menos dar um medinho ou um sustinho. Simples assim. Todos esses subgêneros têm suas regras e convenções, que são usadas ou não de acordo com as intenções dos autores. A BOLHA ASSASSINA, o filme de 88, segue muito bem as convenções de um dos subgêneros do terror: o terror genérico adolescente dos anos 80.

O filme começa mostrando pra gente os INCRÍVEIS lances do jogo de futebol americano do colégio que por algum motivo todo mundo da cidade vai assistir, o clima de AZARAÇÃO entre um dos jogadores e uma das líderes de torcida, os planos dos garotos de sair pra pegar as menininhas, o garoto rebelde que não gosta de se misturar com os outros porque é muito legal e traumatizado pra isso, o policial gente boa que só queria uma chance com a atendente da lanchonete... Até que um meteorito cai na cidade e de dele sai uma meleca, e essa meleca, ao contrário daqueles adolescentes, vai comer geral essa noite.

O filme parece uma mistura de filmes de zumbi, filmes de slasher e filmes de monstro gigante. Como num filme de zumbi, os sinais de qua algo tá dando errado estão ali mas as pessoas custam a acreditar. Como num filme de slasher, o "assassino" vai matando pessoas lentamente, de uma a uma, se aproveitando de situações de vulnerabilidade. E como num filme de monstro gigante, tudo rapidamente vai pro caralho e o governo é acionado. Todo esse amor por seguir convenções que o filme tem poderia servir em seu detrimento, mas A BOLHA ASSASSINA faz tudo muito bem feitinho pra o que se propõe. Inclusive é um dos casos mais legais que vi do clichê da garotinha inocente virando personagem fodona em uma hora e meia. A líder de torcida vira uma mini Sarah Connor no final, é excelente.
E mesmo seguindo essas regrinhas todas que falei ainda rola uma ou outra subversão delas pra dar aquela sacudida, como por exemplo a apresentar um personagem principal e na primeira oportunidade matar ele sem NENHUMA pena!

Inclusive, o filme poderia se chamar "A Bolha Assassina e o Diretor sem Pena Nenhuma", porque o filme adora matar todos os personagens mais inocentes e desavisados o tempo todo, e faz isso da maneira mais visualmente impactante possível. Na primeira cena que mostra a meleca agindo de verdade eu arregalei meus olhos, dei aquele suspiro rápido de surpresa e me ajeitei na cadeira. As cenas de morte são horríveis, no bom sentido, o que eu meio que amo. Elas são gráficas e nojentas mas como não são realistas e são bem sci-fi, digamos, não me afetam negativamente como outros filmes com cenas mais realistas conseguem. O trabalho de efeitos especiais práticos aqui é um primor, de verdade. Não dá pra dizer o mesmo de quando eles usam chroma key, nas cenas em que pessoas fogem da bolha ou quando a bolha está ANDANDO pela cidade comendo pessoas, mas eram os anos 80 e eles fizeram o melhor que a época permitia.

Não queria gastar mais muito tempo falando, mas é mais um dos filmes de ameaça alienígena que poderia correlacionar com a pandemia em que vivemos. Desinformação correndo solta no meio de uma quarentena por causa de algo mortal.

Por ser um remake de um filme dos anos 50 que eu não vi, não consigo dizer com certeza o que é mérito de um filme ou do outro. Mas, tendo visto esse um filme e não o outro, só posso elogiar. Se você tiver de um terror dos anos 80 dos mais genéricos mas ainda assim com aquela gotinha de personalidade pra apimentar a relação, não poderia indicar melhor.


Dia 9: Videodrome - A Síndrome do Vídeo (1983)

Videodrome - A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983)

Dirigido por David Cronenberg.

Com James Woods, Debbie Harry e Sonja Smits.

Disponível em lugar nenhum no Brasil. Vá atrás.

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Eu acho que hoje em dia, mas principalmente uns 3 anos atrás, Black Mirror, que é uma série bem legal, virou piada pelo abuso das pessoas em dizer que as coisas eram "muito Black Mirror, meeeo". Além disso, é meio paia comparar uma obra mais antiga a uma mais nova que você viu antes. Apenas um viajante do tempo poderia fazer isso e eu tenho certeza que ele teria mais o que fazer. Mas tenho que falar: isso é muito Black Mirror, meo.

Eu falei de Black Mirror só pra chamar sua atenção. Funcionou? Bom. Mas de qualquer jeito, pra falar de VIDEODROME - A SÍNDROME DO VÍDEO, esse filme... excêntrico, de 83, eu tinha que citar Black Mirror, porque, junto das charges feitas por cartunistas muito velhos reclamando que jovens usam muito celular, a série é a maior referência de "tecnoparanóia" de hoje em dia. Inclusive eu tô escrevendo esse texto aqui num celular, deitado numa rede. Vem fezer uma charge, cartunistas!

Não sei se foi o primeiro filme a fazer isso, provavelmente não, mas o que VIDEODROME faz, uma crítica à superexposição das pessoas à televisão, é com certeza uma base pra muita coisa que veio depois. Desde a mensagem básica dele até os visuais, a gente já viu muita coisa que é claramente inspirada no filme. Parecia que eu tava vendo história sendo feita, por assim dizer. Coisas como Akira, RoboCop, Gamer, Tetsuo - O Homem de Ferro, com certeza tem alguma raíz aqui.

A história do filme fala de um cabeça duma rede de TV que tá atrás de programação mais chocante pro seu canal, até que ele se depara com uma transmissão de outro país passando um programa que se encaixava nas expectativas dele. É quase uma dramatização do processo criativo que levou o Sílvio Santos a passar no SBT o programa Pegadinhas Picantes no meio dos anos 2000. O programa que ele acha, o tal do VIDEODROME, é um programa que mostra assassinatos e tortura e toda sorte de violência gráfica. Quanto mais se investiga sobre esse programa mais ele parece perigoso e mais o cara quer adquirir a parada pra passar no canal dele, mesmo depois da paquera sadomasoquista dele ter sumido depois de ter ido atrás de onde o programa era produzido.

Criticar a exposição à mídia, dessensibilização à violência e até o pânico moral gerado por alguns casos de violência relacionados de algum jeito ao audiovisual já tá batidaço e não seria mais tão interessante de ver num filme de quase 40 anos atrás não fosse a parte, entre aspas, sobrenatural. A gente acompanha o personagem principal do filme tendo várias alucinações que vão ficando cada vez mais complexas até chegar num ponto em que nem o personagem nem o espectador conseguem diferenciar o que é o quê. Daí vem um dos pontos pelos quais o diretor David Cronnenberg foi famoso nessa época, que é o uso de próteses e maquiagem pra fazer o bom e velho body horror. Body horror pra quem não sabe é quando se usa o corpo... pra fazer horror. Basicamente qualquer cena que tenha algo nojento acontecendo com o corpo de alguém. Cronnenberg ficou famoso por isso porque além de Videodrome ele também fez Scanners e A Mosca que tem cenas HORROROSAS de body horror. Mas falando só de Videodrome, tem váárias desgraças diferentes pros fãs de body horror. É mão que se funde com uma arma, aberturas de formato sugestivo aparecendo na barriga do cara, mão que vira granada, tumores saindo muito rápido de uma pessoa... além do horror nem tão body, como a televisão viva, a fita cassete feita de carne...

VIDEODROME podia ser algo ultrapassado, mas até hoje me parece relevante. Claro que hoje em dia não é uma discussão nova e a coisa do foco na televisão e no vídeo é sim ultrapassada, mas tudo o que ele fala poderia facilmente ser sobre internet e celulares, que nem as charges de jornal, mas de um jeito não pedante e com um horrorzinho e mistério maneiro pra não entediar também.


Dia 8: O Halloween de Hubie (2020)

O Halloween de Hubie (Hubie Halloween, 2020)

Dirigido por Steven Brill.

Com Adam Sandler, Kevin James, Julie Bowen, Maya Rudolph e Ray Liotta.

Disponível para stream na Netflix.

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Quando eu tive a ideia imbecil de assistir um filme por dia, fazer uma ilustração pra cada um e ainda fazer um podcast pra acompanhar, eu pensei que o maior desafio fosse escrever os textos falando de minhas opiniões, mas isso eu acho que tô desenrolando até com certa facilidade. Também poderia ser eu falar esses textos, mas acho que tô aprendendo. Os desenhos me dão um bom trabalho, mas até que tô satisfeito com o que consigo fazer em um tempo curto. Mas não. O maior desafio foi aceitar que em um dos dias eu escolhi assistir o filme de Halloween do Adam Sandler na Netflix.

Eu acho que a tática da Netflix pra atrair pessoas pros seus filmes originais de comédia é exatamente o que me pegou hoje. Eu tinha que ver algum filme hoje mas tava com o tempo meio corrido, então fui ver o que tinha na Netflix. Assim que eu abri, tava lá, brilhando, me atraindo tal qual um chamado de sereia: O HALLOWEEN DE HUBIE, 2020. "Assista, JP. Tá fácil demais pra você não aproveitar." Caí na armadilha feito um patinho.

Ou melhor, caí na armadilha feito o Hubie, o personagem do Adam Sandler, que cai em várias pegadinhas e sustos ao longo do filme inteiro. As coisas que mais se aproximam de um filme de terror assustador aqui são os gritos de pavor do Adam Sandler, que já seriam o suficiente pra enquadrar esse filme como terror. Inclusive, a história do filme é basicamente "a cidade inteira odeia o Hubie porque ele não age feito as outras pessoas então eles resolvem atormentar o cara sem motivo". 80% dos personagens desse filme são um bando de babaca que gostam de perturbar o juízo do rapaz. Daí quando tem personagens "bonzinhos" eles parecem até deslocados do filme, irrealmente bonzinhos. Um filme de extremos. Mas isso aí é um filme do Adam Sandler, então não tinha porque eu esperar algo diferente.

Falando um pouco do porquê eu colocar esse filme nesse projeto, é simplesmente por causa da temática, um mistério teoricamente assustador na noite de Halloween. Eu acho o clima do Dia das Bruxas muito divertido e é um prato cheio pra brincadeiras legais com a estética do horror. Aqui infelizmente não foi um dos lugares onde isso foi bem aproveitado. O trailer do filme vendia, óbvio, um filme idiota do Adam Sandler, mas também me pareceu uma historinha de mistério com toques de terror mais interessante do que o que apareceu aqui. O filme ainda brinca com a possibilidade de ameaças reais algumas vezes, mas não dá continuidade. A real ameaça no final pode ser uma surpresa se você não prestou muita atenção no filme, o que é completamente justificável, mas pra quem tá vendo ela é só óbvia. Então, pra efeitos de filme de terror: ruinzinho demais.

Agora, falando mais positivamente: é com muito pesar que informo que ri demais das besteiras desse filme, principalmente das piadas recorrentes. Mentira, não é com pesar não, só queria ser pedante porque eu sou cinéfilo. Tem muita coisa engraçada nesse filme: a cena das Arlequinas, as camisetas das velhinhas, a identidade da radialista, as coisas arremessadas no Hubie, são todas cenas que eu diria que são clássicas se eu tivesse visto esse filme alugado em DVD no ensino fundamental e fosse comentar com meus amigos no dia seguinte no colégio. Só que eu tenho quase 27 anos nos couro, então tenho que dizer: são clássicas mesmo, foda-se! A hora que aparece o Shaquile O'Neal eu ri fininho. Humor bobo e besta no seu ápice.

Em conclusão, O HALLOWEEN DE HUBIE não é um filme muito bom não, mas é bobo do jeito certo que me fez rir, e eu sei que tem gente boba ouvindo aí, atrás desse monte de gente com cara de gótica. Talvez você, gótico, seja bobo por dentro. Aproveite! Se você tiver de bobeira aí na Netflix eu tenho certeza que não resistirá...


Dia 7: Canto dos Ossos (2020)

Canto dos Ossos (2020)

Dirigido por Jorge Polo e Petrus de Bairros.

Com Rosalina Tamiza, Maricota e Lucas Inácio Nascimento.

Disponível para stream até as 23:59 do dia 07/10/2020, na Mostra Tiradentes SP. Depois num sei.

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Só percebi depois, mas na lista que fiz pra me ajudar a escolher filmes pra esse projeto aqui, não tinha nenhum filme brasileiro. Claro que eu tinha que corrigir isso. Mas pensei além: será que tem algum filme de terror cearense? Foi eu pensar isso que SURGIU na minha timeline uma resenha lá do site Só Mais Uma Coisa de CANTO DOS OSSOS, filme desse ano, que é, justamente, um filme de terror feito no Ceará! E no Rio também, mas a gente se contenta com o que pode.

Descobri que o filme estaria em cartaz online na Mostra Tiradentes SP até HOJE, então fui correr pra ver. Se você tiver ouvindo isso aqui assim que lançou também tem algumas horas pra ver também, vou deixar o link na postagem.

Mas então, do que se trata o filme? Não sei. Sei que tem vampiros. Minha experiência com CANTO DOS OSSOS foi de muita confusão! Eu sei que o filme provavelmente quer falar algo, mas eu só não entendi. Percebi que tem críticas sociais ali, mas a forma que o filme apresenta os pontos da história é confusa mesmo, não tem outra palavra. Acontecem umas paradas e eu fico só "oi? Que é isso aí? Porque?" e o filme parece que tenta até explicar, mas não fica claro. Na verdade, até isso eu não entendi: era ou não pra entender? Até a intenção narrativa do filme eu não sei dizer qual é.

Mas tá ok, cinema nem sempre é um negócio feito pra ser entendido e eu mesmo nem faço questão. Eu tava aqui aqui pra ver um filme de terror cearense, e eu vi! CANTO DOS OSSOS tem uns vampiros meio diferentes, que chupam sangue uns dos outros de boa, tomam líquidos que não são sangue, rezam, e, tipo... vivem suas vidas. Em nenhum momento tem uma busca por carne humana pra sobreviver, alguma maldição... Eles só tão lá, tendo seus problemas pessoais e seus prazeres pessoais bem sangrentos. Uma vida quase normal, com a diferença que eles não morrem. A parte mais sobrenatural da parada toda é uma trama de conspiração (que é, obviamente, confusa) com um personagem que parece uma múmia e que até agora eu não saquei qual é.

Sobre a coisa de ser um filme feito no Ceará, acho que vem daí meu maior prazer vendo o filme. Principalmente nas cenas gravadas em Canindé os diálogos são naturais de um jeito que parece que eu tava ouvindo alguém conversando numa mesa de bar do lado da minha. Acho que os atores só tinham um guia do que tinha que acontecer e improvisaram todas as conversas. Fiquei meio maravilhado com isso porque eu tava vendo pessoas com meu sotaque conversando ali, num longa-metragem, e não era meio forçado como é Cine Holliudy, por exemplo. A tal da coisa da representatividade né.

Já o mesmo eu não consigo dizer das cenas gravadas em Armação de Búzios, no Rio, que é onde se passa a parte mais pesada em trama do filme, onde os atores me parecem todos meio travados, sem naturalidade, com algumas exceções.

Não posso falar que gostei do filme, mas não acho que isso me impeça de dizer que nem achei o filme ruim. Ele só é meio poético demais, solto demais, não é pra mim. Mas nenhum filme de outro lugar me daria o prazer de ver uma em que dois vampiros claramente acabaram de se comer em mais de um sentido tocando de fundo Getúlio Abelha cantando "você vai me comer e eu vou comer você". Isso é magia.


Dia 6: Uzumaki (2000)

Uzumaki (2000)

Dirigido por Higuchinsky.

Com Eriko Hatsune, Fhi Fan, Keiko Takahachi e Ren Osugi.

Não disponível no Brasil, mas você acha fácil no YouTube. (Não conta pra ninguém)

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Hoje vou falar de uma experiência que acho que todo fã de algum tipo de obra da cultura pop já passou: a dor da adaptação. Não no sentido de quando você vai começar a trabalhar num lugar novo e ainda não sabe quem é o chato da empresa pra poder evitar ou quando você compra um sapato novo que ainda tá meio duro demais mas que vai ficar bom em algum momento. Tô falando da dor de ver algo que você ama ser destruído! Pisoteado!

Tô exagerando, apesar de ter muita gente que se identifica com o que falei e usaria essas mesmas palavras pra descrever o que sente, mas sem ironia. No meu caso eu só fiquei decepcionado mesmo com a adaptação pra filme de um dos meus quadrinhos favoritos, UZUMAKI.

O quadrinho e o filme de 2000, que tem o mesmo nome, que em português significa "espiral" trata de, sem surpresa nenhuma, espirais. Na verdade fala do impacto que uma cidadezinha tá sofrendo depois que alguns de seus habitantes começam a ficar lentamente obcecados por espirais, ao nível de algumas delas começarem a virar espirais! Aí você me pergunta "COMO É O NEGÓCIO AÍ?" e eu lhe respondo "é isso mesmo! As pessoas viram espirais!". O Junji Ito, que é o autor do quadrinho original, tem várias histórias diferentes com premissas e cenas completamente perturbadas, incluindo "esta cidade está sendo invadida por peixes mortos que andam", ou "o planeta Terra acabou de levar uma lambida de outro planeta", ou "essa mulher precisa desesperadamente transar com essa casa, por favor não impeça". UZUMAKI nem chega a ser a história mais esquisita dele.

Com uma premissa dessas, você imaginaria que não faltariam cenas completamente bizarras e você, ouvinte, pela primeira vez na vida, está coberto de razão! Mas aqui no filme elas parecem meio sem impacto às vezes. Por ser um filme de 2000, é um filme que tava meio na "beirada" das tecnologias, usando uma mistura de efeito prático com computação gráfica, mas de um jeito não muito avançado como se faz hoje em dia. Então há cenas que simplesmente não funcionam adequadamente pro espectador. Aliás, parece que não funcionam adequadamente nem pros personagens do filme, já que quase nada das mortes grotescas afeta alguém de um jeito maior que uma leve tristeza.

Isso é culpa primeiramente do roteiro que não trabalha bem a ligação entre cenas, fazendo com que o filme pareça uma coleção de sketches de terror sem muita importância, coisa que NOROI, o filme que vi no primeiro dia do projeto, liga muito bem. Mas a culpa também cai na atuação canastríssima de todos os atores, que estão 100% do tempo dando tudo de si pra serem o menos naturais possível. Tem alguns personagens que parecem saídos diretamente do Zorra Total de 2002, com trejeitos e tiques que não cabem no clima que o filme tá construindo e que são simplesmente engraçados. Já falei aqui de comédias de terror e gosto delas, mas quando não existe a intenção da graça acaba gerando aquela risada meio constrangida.

Mas a direção e a edição também não ficam atrás! Boa parte dos diálogos do filme são filmados com os personagens olhando pra camera, alternando entre as pessoas da conversa. Talvez isso fosse pra deixar tudo mais tenso mas só funcionou pra me fazer questionar porque que alguém faria uma escolha de direção tão merda. É como se o diretor tivesse assistido um episódio de Peep Show e tentado imitar sem chegar nem perto de ter algum sucesso com esse recurso. Além disso, alguém na produção do filme resolveu que, quando algo chocante acontecesse, seria legal navegar por todos os efeitos prontos que vem no Photoshop. Daí aparecem coisas como cores invertidas, olhos ficando grandes com o efeito de Distorcer, entre outros. Por vezes isso me lembrou aqueles vídeos de cenas dramáticas de novela indiana que de vez em quando viralizam no Twitter.

Como eu não gostaria que ninguém visse esse filme, vou deixar a última crítica negativa de muitas outras que poderia fazer, mas o tempo é limitado aqui e meu produtor já tá perturbando. O final do filme é um slideshow. Isso mesmo! Eu poderia ter feito o final desse filme com o Microsoft Paint e o Windows Movie Maker facilmente, o que não necessariamente é ruim, mas a escolha de trocar uma conclusão de história por um slideshow dramático é sim péssimo.

Em 2021, se tudo der certo, vai ser lançado uma adaptação animada de UZUMAKI, em 4 episódios, que eu até boto fé. Até lá, continuamos sem nenhuma maneira audiovisual que preste pra ver essa história. Mas pelo menos o quadrinho não deixou de existir, então, fica o apelo: leiam UZUMAKI, façam de conta que o filme não existe e nunca mais fale comigo sobre o assunto. Tô magoado.


Dia 5: Crimes Temporais (2007)

Crimes Temporais (Los Cronocrímenes, 2007)

Dirigido por Nacho Vigalondo.

Com Karra Elejalde, Nacho Vigalondo, Barbara Goenaga e Candela Fernández.

Disponível para stream no Prime Video.

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Uma coisa interessante do terror/horror é que às vezes é meio difícil definir o que faz ou não parte do gênero. Já comentei antes que pra mim funciona meio como uma estética: se tiver elementos que façam com que aquilo pareça terror, é terror pra mim. Mas nem todo mundo vê desse jeito, então acaba havendo uma confusão as vezes de onde se traça uma linha entre, por exemplo, o suspense e o terror.

Toda essa introdução foi pra dizer que CRIMES TEMPORAIS, o filme de viagem no tempo e loucura de 2007, é, sim, um terrorzão, mesmo ele sendo um filme que não dá um pingo de medo.

Ele conta a história de um cara que tenta espionar uma moça no meio da floresta, porque é um escroto curioso e safado. Como punição ele acaba se metendo numa confusão que resulta nele viajando uma hora e meia pro passado! Normal! Como isso aqui é um filme de viagem no tempo, ele passa o filme inteiro tentando consertar as cagadas que fez pelo caminho ao mesmo tempo em que causa por si só todas aquelas cagadas. O homem não tem um pingo de paz, e é tudo culpa dele mesmo - ou talvez, do destino.

Isso aqui é uma história de loop temporal, em que algo acontece simplesmente porque já aconteceu antes, e já aconteceu antes simplesmente porque ainda vai acontecer depois. Se fosse algo divertido e lúdico como em De Volta para o Futuro ou Vingadores Ultimato, seria uma grande aventura com momentos engraçados, se metendo em baixas enrascadas que até deus duvida. Mas isso aqui é um filme de terror. O que vai acontecer, está acontecendo e já aconteceu, é uma série de acidentes, machucados e toda sorte de desgraça cuja responsabilidade só pode estar no capricho do destino ou simplesmente na personalidade desagradável do personagem principal.

O Hector é um cara extremamente normal, que mora na beira de uma floresta com a sua esposa, e a primeira vista é só isso. Quando a história se desenrola a gente vê que o primeiro instinto dele pra tudo que acontece é o mais desgracado possível. Quando ele descobre que agora existem dois deles ao mesmo tempo, a primeira coisa que ele quer é se livrar do outro cara que é, pra todos os efeitos, ele mesmo. Eu não quero estragar as surpresas do filme, mas basicamente tudo que ele faz faz parecer que ele era um psicopata que simplesmente não tinha descoberto isso ainda. Todos os planos e maquinações dele fazem com que ele seja tanto uma das vítimas quanto o vilão da história. É um nível de autossabotagem que sua terapeuta, ouvinte, nunca sonharia em tentar resolver, e olha que ela lida com você aí regularmente.

Além disso, vocês viram o poster desse filme? Olha pra aquilo e me diz se a primeira que você pensa não é num filme que parece uma imitação de Sexta-Feira 13? Essa é a parte da estética.

Mas pra mim, o núcleo do terror de CRIMES TEMPORAIS é essa jornada de coisa ruim e tensão e, como tá no título, crimes que o Hector passa simplesmente por ser quem ele é. Ou por um capricho do destino. Não sei qual das duas opções é a mais aterrorizante.


Dia 4: Garota Sombria Caminha pela Noite (2014)

Garota Sombria Caminha pela Noite (A Girl Walks Home Alone at Night, 2014)

Dirigido por Ana Lily Amirpour.

Com Sheila Vand e Arash Marandi.

Disponível para stream no Globo Play e para aluguel e compra no YouTube e na Google Play Store.

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Quando comecei esse projeto de doido de ver um filme de terror por dia, eu tentei fazer uma lista preliminar de filmes pra facilitar minha vida. Eu acho que fiz uma lista até diversa, mesmo que ela precise de uns ajustes. Mas mesmo nessa diversidade eu não esperava que o primeiro filme de vampiro que eu ia ver esse mês era um filme de um gênero que faz sucesso por aí desde sempre, que é o gênero romance triste de gente criminosa.

Eu sabia que GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE, o filme de 2014, era um romance, veja bem. E não é que o terror não seja terreno fértil pro romance triste de gente criminosa, mas só que quando eu penso em filme de terror com romance, eu penso em coisas tipo, A Colina Escarlate, que tem um romance incestuoso numa casa assombrada do século sei-lá-qual, ou em, sei lá, A Forma da Água, em que o homem-peixe tem um pinto retrátil. E pra não falar só do Del Toro, também tem Crepúsculo, que é aquela coisa lá né. Um romance entre humana e vampiro que dão à luz a boneca Annabelle. Essas coisas. Aqui eu só não esperava a parte dos criminosos tristes mesmo.

Quando eu penso nesse filme, acho que acabo comparando ele em minha mente mais a Drive, que a Crepúsculo, por exemplo (apesar desse aqui também ser um filme de vampiro). É um filme cheio de pessoas meio pau no cu, num ambiente hostil que sempre tem uma ameaça por perto, gente que fala pouco e que tem segredos horríveis. Talvez esse seja o primeiro neo-noir de terror que eu já vi. Não comparei com noir antes por falta de arcabouço cultural mesmo, só lembrei que noir existe agora. Foi mal.

Falando em noir, o que eu acho que é a, desculpa pela frase horrível, característica mais característica do filme é que ele é todo em preto e branco. Tal qual um filme noir! Coincidência? Talvez, tudo é possível. Mas acho que não. O preto e branco desse filme me dá a impressão que é meticulosamente planejado pra intensificar as emoções que as cenas querem passar, tanto cenas mais doces, quanto as mais estranhas, quanto as mais "tem alguém me seguindo nessa rua escura puta que pariu". Não é um negócio que botaram ali só porque ia ficar bonito, a parada tem função! Além de ficar muito bonito. Esse filme é um dos mais bonitos e estilosos que vi nos últimos tempos.

A parte sobrenatural do filme, como esperado de um bom filme em que a parte sobrenatural não é necessariamente a mais importante, funciona de uma forma simbólica. Aqui a vampira é quase uma justiceira contra o mal que o homem (não o ser humano, o homem mesmo) faz naquele lugar. Mas ao mesmo tempo ela também faz mal a pessoas que não necessariamente merecem, então ela acaba sendo uma pessoa hipócrita. O que eu acho que todo vampiro acaba sendo, com todos aqueles discursos de vampiro tão bem exemplificados no personagem Dracula, conhecido pelas franquias Castlevania e Hotel Transilvânia.

Inclusive um dos diferenciais da tal garota sombria é que ela gótica suave. Fala pouco, usa maquiagem escura, anda na rua toda de preto provavelmente passando um calorzão, ao mesmo tempo em que por baixo do preto usa listras e all-star, mostrando também que não está presa ao passado e aos esteriótipos góticos do passado. Ela fala muito pouco e quando fala ou é pra aterrorizar macho ou pra falar de música desconhecida. Ícone millenial, basicamente.

Então, se um dia te bater uma vontadezinha de ver um filme de vampiro apaixonado ou de ver algo com um rapaz bonito atormentado pelo vício, não veja Vampires Diaries ou Breaking Bad. GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE tá aí pra saciar suas vontades e ainda fazer você parecer inteligente por ver um filme com um título esquisito desse.


Dia 3: Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon (2006)

Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon (Behind the Mask: The Rise of Leslie Vernon, 2006)

Dirigido por Scott Glosserman.

Com Nathan Baesel, Angela Goethals, Robert Englund, Kate Lang Johnson e Scott Wilson.

Não disponível no Brasil. Te vira!

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Eu já falei aqui sobre como eu amo filmes de terror em formato de documentário, e infelizmente tá muito cedo no cronograma do mês pra eu já me repetir, então já vou tirar isso da frente e não repetir mais depois: eu amo filmes de terror em formato de documentário. Agora sim vamo pro que interessa.

A primeira coisa que me chamou atenção em POR TRÁS DA MÁSCARA: O SURGIMENTO DE LESLIE VERNON, filme de 2006, foi que logo de cara, depois de uma cenazinha introdutória pra criar um clima, já é apresentado que no mundo daquele filme, basicamente todos os filmes de assassinos existem. Jason, Freddy Krueger, Michael Myers e até o Chucky são citados, com nome e a localização das cidades iguais as dos filmes originais, sem nenhuma preocupação com direito autoral nem nada. Chupa Disney!

Então, num mundo onde tudo isso é real, claro que iam existir pessoas que seguem os passos dos ícones e é daí que sai o tal do Leslie Vernon, interpretado muito bem por um cara que parece uma boa imitação do Ethan Hawke, que tá sendo entrevistado pela equipe de reportagem mais irresponsável e criminosa desde Wallace Souza e o Canal Livre.

Por razões que escapam do meu entendimento, essa equipe de jornalistas universitários idiotas achou que seria de bom tom acompanhar a jornada de preparo de um novo serial killer. E filmar tudo, e gravar entrevistas com ele e conviver normalmente com ele. Isso já é algo que força a tua suspensão de descrença, mas pra mim logo ficou claro que tudo bem, é só uma paródia e paródias são assim. Porque, aliás, o filme é uma comédia!

Não sei qual o seu entendimento sobre terror e horror, mas pra mim ele tá mais ali como uma estética do que necessariamente um gênero. Alguns dos meus filmes de terror favoritos são comédias, e eu considero Scooby-Doo algo que tá dentro do âmbito do terror também. Se isso faz você desconsiderar o que eu falo aqui, problema seu por levantar expectativas.

A graça de POR TRÁS DA MÁSCARA é que você não acompanha a vida dos jovens colegiais que só querer usar drogas e transar e que em algum momento vão ter mortes bizarras e nojentas, mas sim a vida do cara que vai causar essas mortes bizarras e nojentas. O Leslie explica e contextualiza todas as coincidências que acontecem nesse tipo de filme, todo o azar que os personagens principais tem e até o condicionamento físico do assassino e como ele faz pra desaparecer daqui e aparecer ali. Acho que quem gosta desse tipo de filme, se não levar muito a sério, acaba se divertindo mais.

Além disso, entrecortado com as filmagens "ao vivo", também há cenas filmadas como um filme de terror normal (e meio ruinzinho), com direito a câmeras dramáticas, textos exagerados e trilha de suspense, coisas que geralmente não tem lugar no subgênero da filmagem encontrada mas que tão em casa no subgênero do slasher.

O filme acaba sendo mais observação de filmes de terror do que um filme essencialmente de terror, o que acho muito válido, porque distorcer e ridicularizar coisas que não deveriam necessariamente ser levadas a sério é legal. Por isso que esse episódio aqui tem um pouco menos de piadinhas e provavelmente vai ser um pouquinho maior que os anteriores. Pra distorcer e ridicularizar suas expectativas. Eu já disse que o problema é seu.


Dia 2: Os Invasores de Corpos (1978)

Os Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers, 1978)

Dirigido por Philip Kaufman.

Com Donald Sutherland, Brooke Adams, Leonard Nimoy, Jeff Goldblum e Veronica Cartwright.

Não disponível legalmente no Brasil. Mas tinha no Tele Cine. Quem sabe volta algum dia aí.

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Existem duas coisas que tenho fugido ativamente porque só me trazem bad vibes: notícias sobre a pandemia e notícias sobre literalmente qualquer governo mundial. Não tem uma vez que eu não fique estressado e/ou ansioso só de SABER coisas sobre esses assuntos. Alienação não é o ideal, mas é o que escolhi pra não precisar mais de terapia do que eu já preciso normalmente.

Dito tudo isso, foi extremamente prazeroso ver a ruína da sociedade devido a o que é basicamente uma pandemia em Invasores de Corpos, o filme de 78. O filme mostra algumas pessoas percebendo que tem um negócio estranho acontecendo: as pessoas tão ficando diferentes, mais chatas. Não no sentido babaca de "ah, o mundo tá chato, não posso mais fazer piadas ruins contra minorias!", mas no sentido de que as pessoas tão sendo substituídas por versões de si mesmas completamente sem emoções. Uma invasão de Mark Zuckerbergs.

Esse filme é só uma das infinitas versões que essa história já teve, tanto adaptações do livro original de 54 quanto variações em cima do mesmo tema. Já tiveram vários filmes, livros e jogos que falaram das mesmas coisas, mas acho que esse aqui, feito nos anos 70, Guerra Fria truando, faz muito muito bem o clima de "tem coisas acontecendo, tá tudo indo pro caralho, as pessoas tão esquisitas, é melhor ficar em casa". Sou eu!! Esse filme sou eu!!!! Amei.

Inclusive eu acho que todo mundo que ver esse filme hoje em dia vai achar diversos paralelos com a atualidade e que eu não tô sendo um pingo original aqui, mas tipo, esse é meu podcast. Cale sua boquinha.

Parece algo muito millenial de se falar, mas se você tá escutando isso aqui tem 80% de chance de você ser um millenial safado mesmo, vou falar: tecnicamente, o filme parece um pouco com algo de baixo orçamento feito hoje em dia. Umas câmeras que as vezes parecem que não tão pegando a luz direito, uma edição que só posso chamar de esquisita, sangue que parece feito de tinta guache Faber-Castell com água. Mas não é demérito, veja bem! Eu acho muito massa ver esse tipo de filmagem "crua", por assim dizer. E pra ser justo, tem efeitos visuais bem legais, como o "nascimento" das pessoas novas, que é bizarro e nojento. E o tom de cor do filme quase nunca é quente e amigável, então ele nunca te engana a pensar que algo bom vai acontecer ali.

Queria destacar também a extrema babaquice do Dr. Spock, que tá nesse filme sendo um psiquiatra extremamente babaca, e a extrema esquisitice do Jeff Goldblum, que faz um poeta extremamente esquisito. Os outros atores são ok.

Enfim, se você assim como eu não aguenta mais a paranoia da vida real, abra seu coração pra paranoia de mentirinha preencher esse buraco na sua vida. Todo mundo precisa de um pouquinho assim de paranoia pra sobreviver.


Dia 1: Noroi (2005)

Noroi (2005)

Dirigido por Kōji Shiraishi.

Com Jin Muraki, Marika Matsumoto, Rio Kanno, Tomono Kuga e Satoru Jitsunashi.

Não disponível legalmente no Brasil. Te vira.

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Eu não sei porque, mas por algum motivo eu sou fascinado pelo subgênero de filmagem perdida, barra falso documentário. Acho que dá uma camada a mais de realidade pra história que se quer contar num filme, por que, olha ali, o cara tá dando entrevista sobre essa situação completamente bizarra que tá acontecendo! Tem alguém filmando tudo isso! A câmera não para de tremer!

Dá pra fazer muita coisa criativa com esse formato, assim como também dá pra fazer o que todo mundo já faz em documentários reais, em reportagens reais. No caso de Noroi, o filme japonês de 2005, o diretor resolveu reproduzir uma reportagem do quadro Aconteceu Comigo, da época que o Domingo Legal ainda era comandado pelo saudoso Gugu.

A desculpa, entre aspas, do filme, é que a gente tá vendo um documentário, e dentro desse documentário tá outro documentário. Ou seja, o primeiro documentário é só uma reprodução do documentário anterior, o que eu acho que qualifica como plágio, mas enfim.

O personagem principal poderia muito bem ser o Rodolfo, da dupla ET e Rodolfo, pq a função dele ali é perturbar gente com uma câmera atrás. Não tem muita personalidade, mas no final isso acaba não importando, pq o legal aqui é ver a bizarrice acontecendo, de pouquinho em pouquinho, com uma dica aqui e ali do que é a história de verdade. é um filme que não tem medo de tomar seu tempo, ao mesmo tempo em que também consegue não ser lento. Ele é todo montado em pedaços de vídeos, filmados em dias diferentes. Às vezes a gente tá vendo um médium fazendo experimentos com crianças num programa de TV, as vezes a gente tá vendo o Kobayashi, o personagem principal, perturbando o juízo de mais alguém, às vezes a gente tá vendo uma atriz sendo atacada por um cara mentalmente instável, tudo isso apresentado de uma maneira que, mesmo que no começo pareça ser um negócio sem conexão, vai fazendo sentido com o tempo. O trunfo do filme é ter essa história, que eu particularmente achei bem interessante, de uma coisa do mal que tá chegando aí pra zuar com geral, apresentado justamente através desses pedaços de investigação misturado com programa de fim de semana do SBT.

Eu gostei muito disso tudo, mas isso pode ter muito a ver de eu ser fã desse formato de filme que finge ser de verdade e de eu morrer de medo da reconstituição dum caso de lobisomem que passou uma vez no programa do Ratinho quando eu era criança. Talvez se esse medo exista em você, você também pode ficar arrepiado com as doideira desse filme.