Promíscuo

Quando nos apaixonamos muito cedo, sempre achamos que é pra sempre. Mas e se o verdadeiro amor só vier com a experiência?

Promíscuo é um conto escrito por Gabriel Franklin e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Promíscuo

Ainda imberbe, conheci Umberto num fevereiro. Era aniversário de meu tio, e este nos apresentou. Bastaram meia dúzia de frases para saber que tinha encontrado um amor para a vida toda.

O safado, antecipando-se até a mim mesmo, a saber que eu seria louco por histórias, logo enveredou por uma de um simplório mentiroso que a todos convencia, inclusive a si.

Suas palavras me causaram tal efeito que, sôfrego, clamei por mais. Absorto em sorver tudo de uma só vez, assustei-me ao dar com o tio arrancando Umberto de meus braços. Corei, mas, covarde que sou, deixei levarem-no.

Passei a noite em claro, sem entender direito como tudo se dera, mas certo de que iria atrás de Umberto já no dia seguinte.

Qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo, logo cedo, à entrada de minha casa. Continuamos de onde paramos. Quer dizer, não exatamente. Agora ele me contava sobre uma flor, cujo nome era proibido e por quem muitos mataram e morreram.

Me perdi em Umberto e o tempo passou. O resto do meu ano foi dispendido com ele a me falar de rainhas, pêndulos e terras longínquas, imaginárias e reais.
Umberto me fez homem.

Eventualmente, tive outros amores. Gabriel, Victor, Isabel. Mas, arrependido, sempre tornava a cair nos braços de Umberto depois de algum tempo. Ele parecia não se importar e me falava da beleza e da feiúra, das múltiplas personalidades e possibilidades dos homens.

Dava como certo o destaque no coração ser de Umberto, até que conheci um português, de nome valter.

não lembro como chegamos a nos conhecer, mas sei que o impacto de suas primeiras palavras me fez voltar ao tempo de descoberta, mesmo já homem feito. assustado, recuei. não cria ser possível, depois de tanto amar, ainda amar. tornei a valter cauteloso, mas logo me entreguei por completo. agora sedento, joguei-me em valter sem medir consequências e foi somente depois de muito que percebi não ter mais procurado umberto. a essa constatação, compará-los foi o passo seguinte e inevitável.

Umberto me fazia sentir pequeno. Sua erudição era inigualável e testava minha inteligência. Cada referência proferida e reconhecida era um deleite que me escorria pelos dedos e deixava um gosto doce nos lábios. Tudo com Umberto assumia tons astronômicos, universais. A grandeza do que dizia me deixava estupefato.
valter também me fez pequeno, mas por outros motivos e de outras formas. com palavras mansas, miúdas, feitas só de minúsculas, levou-me mundo afora. portugal, islândia, até ao japão fomos. choramos, rimos, lembramos. enfim, sentimos.

Com Umberto eu sentia que precisaria de uma vida inteira para aprender tudo o que ele passava.

com valter, eu teria que aprender uma vida inteira para sentir tudo o que ele precisava.

Umberto me fez homem. valter me fez humano.

Não vou mentir e dizer que não procurarei mais Umberto. Promíscuo que sou, irei a ele. E a outros. mas, no fim do dia, quando a agonia se abater sobre mim e o silêncio do pensar não vier, é nos braços de valter que procurarei alento.


Esse conto foi escrito por Gabriel Franklin para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Gabriel Franklin é formado em Direito e cursou Letras pela Universidade Federal do Ceará. Trabalhou muito tempo como atendente de uma das maiores livrarias do Brasil e dedica-se, desde 2013, a dar opiniões no Iradex. Seu objetivo? Ler todos os livros do mundo.
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