Serial Reader: As Sobreviventes

A única coisa que eu realmente sabia sobre esse livro antes de começa-lo, além do básico, era que o autor Riley Sager é mais um cara escrevendo sob um pseudônimo propositalmente ambíguo (inclusive ele não usa nenhum pronome de gênero na biografia do livro) para atrair mais leitores e com uma protagonista mulher ainda por cima. O que eu suponho que seja relativamente escroto, mas não vou julgar uma pessoa pelas decisões que ela toma para que seu trabalho chegue a todo tipo de público, e no fim das contas, a maioria dos leitores a esse ponto sabe que ele é um homem. Justamente por ser um homem e pelo estilo de livro, eu comecei com expectativas bem baixas achando que esse seria mais um caso de homens escrevendo personagens femininas patéticas, previsíveis e completamente sem dimensão (olá, autor de A garota no lago). Foi uma surpresa muito boa ver que eu estava errada.

As Sobreviventes (cujo título original é Final Girls, e eu não entendo por que no Brasil não optaram pela tradução literal) conta a história de três mulheres, que em períodos diferentes de suas vidas, fizeram parte de um grupo de pessoas que acabou cara a cara com um assassino e foram as únicas a sobreviver tal encontro. Quando uma delas morre, as outras ficam para trás para lidar com a repercussão da situação.

Exploradas pela mídia como “as garotas finais”, elas são objeto de discussão de inúmeros sites e blogs especializados em true crime, o que resulta numa legião de pessoas obcecadas pelas suas histórias. Quincy, a protagonista e quem guia a maior parte do livro o narrando em primeira pessoa, é a mais jovem das sobreviventes. Ela tem uma vida aparentemente normal, mora com o namorado num ótimo apartamento, tem um blog culinário, passa seus dias dedicando-se a postar receitas e fotos que ela mesma produziu e é adepta ao uso de Xanax (nossos equivalentes brasileiros seriam Frontal e Alprazolam). Tudo nos conformes, considerando o trauma terrível que ela passou. Entra então Samantha Boyd, a segunda garota final, que chega para chacoalhar a vida de Quincy e trazer à tona questões há muito esquecidas.

Detalhar mais que isso seria correr o risco de revelar passagens importantes do livro, portanto é suficiente dizer que esse enredo básico é o ponto de partida para várias situações que parecem saídas de um filme slasher. Esse é inclusive o ponto forte do livro – diversas vezes eu realmente me senti dentro daqueles filmes de terror dos anos 80-90, permeados de clichês (e isso não é uma crítica) e situações fabricadas para te deixar ansioso e tentando adivinhar o que vem depois. Prefiro não opinar sobre o desfecho final pois minha opinião sobre ele pode, talvez, ser considerada um spoiler. Mas visto que estou aqui recomendando o livro, é correto deduzir que fiquei satisfeita com o resultado geral. Recomendo inclusive a edição que aparece logo abaixo, que é linda de viver (paguei 18 reais por ela, valeu, Sebo do Messias!). Futilidades à parte, eu realmente adoro ter um livro bonito em mãos e infelizmente a editora brasileira optou por uma capa absurdamente sem graça que parece ter sido feita no paint.

E ainda no assunto edições, na capa brasileira há uma citação de Stephen King que diz que este é o melhor thriller de 2017. Não sei se ele de fato disse isso depois ou se a editora brasileira propositalmente traduziu errado para vender mais cópias (o que seria minha aposta), mas a citação de King que aparece na edição inglesa é que este é o primeiro grande thriller de 2017. O que obviamente continua sendo uma grande recomendação, mas fica aqui o aviso para quem se deixa iludir por elogios nas capas. Vou resistir à tentação de comparar As Sobreviventes a outros livros, mas se você se diverte com filmes como Halloween, Pânico, A Hora do Pesadelo e Comunhão, as garotas finais com certeza merecem algumas horas do seu dia também.


Ana Negreiros é atriz, leitora, mãe de dois gatos, louca por tatuagens e viciada em Red Bull em recuperação. Ela acredita em lobisomens.