Nós e os Semelhantes

O dia tão temido, e tão esperado, finalmente chegou. A vida alienígena se provou um fato. O que vem agora?

Nós e os Semelhantes é um conto escrito por Klebia Dantas, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Nós e os Semelhantes

Tudo estava mudado. Parecia que a cidade, os amigos, os prédios e ele mesmo haviam se transformado e tornaram-se outras coisas, outras pessoas. Os sentimentos não eram mais os mesmos, nem os problemas. Parecia estar em um sonho, um sonho vívido e desejado. Perguntando-se o que poderia ter provocado essas mudanças de perspectiva entrou no seu carro favorito e se encaminhou para o lugar que abrigava há muito tempo o salão de reuniões.

Toda a população havia sido convocada a participar, o que por si só já era uma grande mudança. O governo não gostava muito da opinião da população. Enquanto seguia, observava a agitação do povo. Alguns estavam com medo, outros empolgados, muitos conversavam entre si, como se não precisassem guardar mais nenhum segredo. Chegando ao local, percebeu que o sistema de entrada para a reunião tinha sofrido uma drástica mudança. Antes a entrada era individual e o reconhecimento de identidade pelo revisor era obrigatório, agora estavam entrando aos pares ou em grupos sem identificação. Sentindo-se cada vez mais apreensivo e curioso (sentimentos nada bons) começou seu trajeto para o grande salão.

Parecia que a segurança não estava nem aí com quem estivesse entrando sem identificação ou com toda algazarra perto da sala de reuniões. Escolheu ficar em um lugar bem afastado e esperar. O falatório na sala e em torno dela aumentava quanto mais à demora dos conselheiros se alongava. Observando o lugar com mais atenção percebeu que alguns conhecidos passavam correndo de um lado para o outro, entrando e saindo da sala. Quando o barulho atingiu seu ápice o sinal de silêncio foi dado e os conselheiros adentraram a sala deslizando para seus assentos como se levitassem. Depois de alguns momentos de observação, certamente para saber se todos da comunidade tinham atendido o chamado, um dos conselheiros...

- IMPOSSÍVEL!

- O MAIOR DE TODOS OS NOSSOS MEDOS...

- É UMA ARMADILHA!

- CONSPIRAÇÃO GOVERNAMENTAL PARA NOS MANIPULAR...

- TUDO UM BANDO DE MENTIROSOS!

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Os gritos o acordaram melhor que qualquer despertador. Não só isso, mas interromperam um sonho muito bom. Nele, ele era independente e parecia que enfim o governo daria mais liberdade ao povo e iria comunicar-lhes algo muito importante, porém era somente um sonho, um sonho que foi interrompido... O que tinha causado toda aquela algazarra poderia esperar. Tentou dormir de novo.

- VÃO NOS ANIQUILAR, É ISSO QUE VÃO FAZER.

- PODE SER UMA PESQUISA...

- DIZIMAÇÃO.

Mais gritaria. Ninguém poderia dormir desse jeito. Levantou e foi ver o que estava acontecendo. Ao chegar à sala parecia que todos os familiares tinham se reunido para assistir um grande jogo ou aquela série maravilhosa. Mas, na verdade, estavam assistindo somente o cara do jornal conversando com outro.

- É fantástico! Extraordinário.

- O senhor pode afirmar que isso irá mesmo acontecer?

- Nosso governo é inseguro demais para anunciar isso. Na verdade já está acontecendo...

Sem entender nada chegou perto do primo mais novo e perguntou:

- Estamos sendo atacados?

- Shhhhh! Quer calar a boca e assistir, vão mostrar agora.

Mas não estava conseguindo ver. Como estava sem óculos tudo que podia ver era uma tela embaçada e algumas cabeças. Pense em um povo cabeçudo! Saiu para buscar os óculos, não antes de ouvir do entrevistado do jornal:

- Dominação pode ser uma das possibilidades.

Então pensou:

- Dominação, dominação... Nossos antepassados dominaram o povo que morava aqui antes. Coloque isso em uma escala global... Alienígenas! Os aliens, enfim, estão chegando!

Com esta perspectiva se apressou em pegar os óculos e correr para a sala. Era exatamente o que havia pensado. Ao chegar na sala o jornal mostrava cenas de foguetes decolando e as pesquisas que afirmavam existir outros planetas parecidos com o nosso e então começaram a detalhar as descobertas e os primeiros contatos com a nave. Nossos telescópios haviam captado a astronave há algum tempo e hoje, no começo da madrugada, ele havia pousado ao sul do planeta. Isso era incrível, tudo agora iria mudar, não estávamos sozinhos no universo. Porém, ao passar das horas, e com mais notícias chegando o acontecimento começou a decepcionar. A nave tinha tecnologia parecida com as nossas. O alienígena era semelhante a nós, exceto no modo de falar. Mas o pior de tudo estava por vir.

- Que tipo de alienígena dá ao seu próprio planeta o nome de Terra?


Esse conto foi escrito por Klebia Dantas para o Contos Iradex.
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Sobre o autor: Klebia Dantas gosta de escrever esporadicamente, mas de ler sempre. É graduada em Filosofia e tende a preferir o "tudo é vir-a-ser" de Heráclito do que o "tudo é" de Parmênides.
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