Cartas do Mundo: Amsterdam

Pedro,

Ás vezes eu acho que as deusas do destino se divertem brincando com a gente. Dizem que as coincidências não existem e que somos nós que juntamos as peças para dar sentido ao que não tem. Mas, seja pelo destino ou pelo arbítrio, o tal do mundo dá voltas. Isso dá!

Eu nunca tive um livro preferido, uma musica preferida, uma banda preferida, um filme preferido, um...ok você já entendeu. Mas sabe-se lá porque, eu sempre tive um pintor preferido. Vincent Van Gogh. Pode ter sido pela história da orelha cortada, pode ter sido pelas pinceladas absurdas, pode ter sido pela beleza sobrenatural das suas paisagens ou pode ter sido pelo quadro no MASP. Pequena, no tumulto da excursão da escola, empaquei em frente a um quadro e fui resgatada horas (minutos?) depois pela professora Dora (o quadro chama-se Banco de Pedra no Asilo em Saint Remy - descobri muitos anos depois). Ainda criança, sempre buscava as reproduções de Vincent nos livros de arte, naquela época meio escondidos no fundo das livrarias. E uma pintura sempre me fascinou de modo especial: Noite Estrelada. Eu que já gostava de céu (vide minha carta sobre Pirambóia), não podia deixar de amar o céu de Van Gogh.

Um dia eu tive a oportunidade de ir para Holanda. Para ser bem sincera, eu nem fazia muita questão de ir para Amsterdam. O roteiro Inglaterra/França estava de bom tamanho pra mim, mas concordei com o companheiro de viagem que também, sabe lá deus porque, tinha uma vontade especifica de conhecer aquele cantinho abaixo do nível do mar.

Amsterdam foi uma surpresa pra mim. Uma beleza quase impossível. Uma cidadezinha de sonho. Naquela época, a beleza das casas a beira dos canais era o cenário para uma vida que parecia ideal. As pessoas andavam nas suas bicicletas, não se viam ônibus pelas ruas, só os silenciosos bondes e um carro aqui ou acolá. Perto dos bares que vendiam maconha legalmente via-se um ou outro cidadão meio suspeito oferecendo outras drogas e diversões mais adultas, mas até o famoso bairro da luz vermelha era um lugar que dava para passear sem grandes sustos. O museu do sexo não deixaria ruborizada uma criança brasileira, acostumada as abundancias carnavalescas.

Caminhando pelas ruelas, depois de uma experiência bem intensa na casa de Anne Frank, vi um casal lindo, segurando um bebe lindo, saindo de uma casa linda, pegando suas bicicletas lindas e parando numa linda banca de frutas cheias de lindas maçãs. Esperei o grito de “Corta!”, mas ele não veio. No meio dessa "Shangri-La" ainda tínhamos o Rijksmuseum e, principalmente, a cereja do bolo: o museu van Gogh. Visitar dezenas de quadros originais de Vincent te tira um pouco do prumo. E, de quadro em quadro, chegando ao fim da visita me dei conta que não vi Noite Estrelada.

Como assim? Já antecipando a noticia, perguntei para um guia onde estava o quadro. Ele deu um sorriso sem graça de quem já ouviu a pergunta antes e sabia a reação. O quadro famoso residia em Nova Iorque, com os americanos, e não na terra do seu criador.

Como eu não sabia disto? Como nunca li isto nos fundões das livrarias? Como eu, que já tinha ido a NY, não fui visitá-lo?

Engoli minha profunda decepção e fui acabar de ser feliz na Holanda dos moinhos, dos queijos, das pessoas lindas comendo lindas maçãs.

Quando você for para Amsterdam, esqueça essa carta. Já voltei por lá e a cidade é outra. Continua sendo bela, mas as lojas de marcas internacionais tomaram conta das ruas e descaracterizam boa parte das lindas casinhas. As bicicletas continuam, parecem milhares, às vezes abandonadas e enferrujadas ao longo dos canais. As pessoas em cima delas são bonitas e feias e, grudadas nos seus celulares, se unem ao transito caótico onde motos, ônibus e carros disputam espaço com o sobrevivente bonde elétrico. Não vi mais banca de maçãs. O bairro da luz vermelha não é mais para turistas desinteressados. A prostituição é um negocio sério. Assim como as drogas. A Holanda bucólica de outros tempos esta preservada numa vila para turistas, distante alguns quilômetros dali. Mas a bagunça interessante da Europa globalizada está lá. Assim como o museu Van Gogh e suas pinturas incríveis.

Mas e a Noite Estrelada? Minha história não terá um final feliz?

Muitos e muitos anos depois eu, que detesto NY, voltei lá no meio de um inverno desgraçado só para ir ao Museu de Arte Moderna, o bonito e famoso MoMa. Fui subindo para o segundo andar até me deparar com o quadro mais bonito do mundo. Chorei. Detesto chorar em publico, mas chorei. Cumpri mais uma etapa da vida. Na lojinha do museu comprei a reprodução que está na parede da minha casa.

Assim, Van Gogh está comigo praticamente todos os dias da minha vida. E recentemente, pelas suas mãos, talvez mais um presentinho das deusas do destino que sabiam da minha tristeza naquele momento especifico, Vincent também me alcançou através de uma arte que eu nem sabia que gostava. Uma história em quadrinhos. Obrigada PJ.


Cartas ao Mundo é uma série especial, escrita por Adah Conti sobre suas viagens.
O destinatário costumava ser apenas seu filho, Felipe, mas agora somos todos nós. Conheça o mundo pelas palavras de Adah.

  • Mackenzie Melo

    Starry, starry night…

    Adah, li parte da sua carta “ouvindo” a música de Don McLean e quando cheguei no final da leitura, chorei. Já chorava sempre que ouvia a música. Agora, junto com ela, espero, terei algo mais para relacionar a lágrimas quando ouvi-la. Não, não lágrimas de tristeza, mas de uma alegria melancólica, daquelas que a gente sente sem saber explicar o porquê (será a tal da empatia?).

    Que mágica essa sua foto final. Tanta emoção emoldurada nesses olhos avermelhados que, tenho certeza, muitas outras histórias se derramariam no papel se você quisesse/pudesse contar. Antes de ler (quase ouvir, eu diria) seu texto, não sei se muitos teriam vontade de ouvi-las. Eu ouviria.

    Perhaps they’ll listen now.