Estante Iradex - Lu e Vitor Cafaggi

Recife, abril de 2017. O evento não está tão lotado. É o começo da tarde do primeiro dia da CCXP Tour. Chego por lá, passo rapidamente pela parte dos estandes, e rápido corro pra parte que sempre me chama mais a atenção em qualquer evento do tipo, a Artists’ Alley, tanto por saber que sempre encontro alguns amigos por lá quanto por saber que tem gente que admiro o trabalho (às vezes, os amigos e as pessoas que admiro são a mesma pessoa, como é o caso das pessoas que falo nesse texto).

Vejo um amigo ali, aceno. Compro um quadrinho aqui. Converso uma meia horinha acolá. Até que passo na frente da mesa do Vitor Cafaggi. Já tinha conversado com Vitor umas cem vezes, ele já tinha vindo três vezes pra Fortaleza lançar quadrinho, duas vezes com a irmã, Lu Cafaggi (já já falamos dela). Todos os eventos que eles vieram aqui em Fortaleza eu tive a honra de mediar. Lá em Recife, ele estava distribuindo autógrafos, como é de costume quando ele tá por qualquer que seja o evento. Espero um pouco mais do lado, conversando com outros artistas, esperando ele terminar de autografar para a fila de fãs. Até que um tempo depois uma mão bate no meu ombro.

Olho pra trás.

- VITOR!

A gente se abraça, conversamos amenidades, há quanto tempo, cara, e aí, como tá, como anda a Paula, e a Amanda, e a Lu, como tá o Maycon, o Igor e tal. Até que eu me dou conta de que tô no meio do evento, falando com o Vitor Cafaggi, e eu pergunto.

- Ah, cara, você tava indo no banheiro ou pra outro canto? Sei lá, tô te atrasando aqui.

E ele responde, com aquele sotaque carregado de mineiro.

- Que nada, cara, me levantei pra vir falar contigo mesmo.

É, eu sei, é uma história bem banal, mas meio que foi ali que me dei conta de que eu era amigo do Vitor Cafaggi.

Eu conheci o trabalho do Vitor por causa do seu Puny Parker, uma versão infantil e bem humorada do cotidiano da vida do Peter Parker. Era uma reinvenção do personagem, uma mistura de Marvel com traço e jeitão de Peanuts. Algum tempo depois, Vitor foi chamado a fazer quadrinhos para um jornal. Ele não poderia usar o Peter Parker como personagem, afinal, direitos autorais, burocracia, etc.

Então ele cria o Valente. Valente é inspirado em um cachorro que o próprio Vitor teve. O cãozinho (o do quadrinho, não o real) jogava RPG, adorava sanduíche de rosbife e se envolver em desilusões e conquistas amorosas. Essa parte amorosa vem da experiência do próprio Vitor. Valente foi um sucesso de crítica e de venda, sendo um dos quadrinhos independentes mais vendidos pelo Brasil. Até que isso abriu os olhos do Sidney Gusman, editor da Mauricio de Sousa Produções.

O Sidão chamou o Vitor para desenhar a Turma da Mônica no vindouro projeto das Graphics MSP. Mas o desenhista mineiro não foi convidado sozinho. Parte da HQ seria desenhada pela irmã dele, a Lu.

Bem, quando foi que eu me dei conta de que a Lu era minha amiga?

Deixa eu pensar… Deixa eu pensar…

Já sei! Foi no hall de entrada de um hotel daqui de Fortaleza. À época eu era do Avantecast e fazia vídeo entrevistando quadrinistas para o finado projeto Contracapa. Lu, Vitor e Sidão estavam em Fortaleza pra lançar o Turma da Mônica - Lições, segundo volume feito pela dupla de mineiros para a coleção das Graphics MSP.

Dessa vez, eu queria entrevistar a Lu, pois o Vitor já havia sido entrevistado antes. Sentamos nos sofás, a Lu bem na dela, ela dizendo que não era de falar muito.

- Nah, tudo bem, pode falar pouco, fica à vontade, fale o quanto você quiser.

Conversamos.

Conversamos.

Conversamos.

Conversamos por duas horas.

Acho que foi ali, rindo das besteiras, que eu vi que a gente meio que era amigo.

Lu já fez quadrinhos antes das Graphics MSP, como por exemplo o lindíssimo Mixtape. E faria outros como as HQs Como Tudo Começou e O Mundo de Dentro, que narram as histórias da escritora Bruna Vieira. Entre as preparações pra fazer o terceiro e último volume dela e de seu irmão para as Graphics MSP, Turma da Mônica - Lembranças, que deve ser lançado no fim desse ano de 2017, ela faz um quadrinho aqui, uma capa de revista ali.

Desde esses dias, já encontrei os dois algumas vezes. Em 2015, eu fui pro FIQ e os abracei no meio da correria do evento. Em 2016, a Lu veio pra Fortaleza. Em 2017, quem veio foi o Vitor. Acho que em 2018 eles vêm de novo.

Enfim, não importa a cidade, não importa o ano. Eu sei que além de excelentes quadrinhos, desses dois eu posso esperar, pelo menos, uma conversa boa, algumas risadas e um abraço apertado.

* Tive a oportunidade de conversar com a Lu em dois episódios do HQ Sem Roteiro Podcast: um sobre o processo criativo das HQs Quando Tudo Começou e O Mundo de Dentro; outro em um programa sobre se sentir uma farsa. O Vitor também já esteve no podcast por meio de uma participação no programa que gravamos sobre Personagem. Abaixo, a entrevista com a Lu para o projeto Contracapa, do Avantecast.


Estante Iradex

A Estante Iradex é o nosso local de reverência às grandes personalidades que tem o "jeitinho Iradex".

Esta coluna foi escrita por PJ Brandão e ilustrada por Caique Pituba.

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Clique na imagem abaixo para ver todos os detalhes da ilustração da capa.

Irmãos Cafaggi - Por Caique Pituba

  • Igor Vieira

    Uma pessoa muito querida falando de outras duas também muito queridas. Só amor nessa Estante ❤

    • Pedro PJ Brandão

      Tem até teu nome ali no meio, seu lindo. Então realmente só tem gente fofa. =)

  • Mackenzie Melo

    Sei que é chover no molhado, mas ler texto de PJ é sempre demais! A gente quase ouve a voz dele enquanto lê.
    Para falar a verdade, parece mais que quando a gente lê PJ, a gente vê os quadrinhos quadrados e disformes se unirem e se mesclarem com os balõezinhos arredondados, os furados e os em formato de nuvem a se formarem e dissiparem à medida que o botão do meio do mouse vai rolando a tela e as ideias dele vão sendo criadas em nossas mentes…
    Estou tentando vender geladeira a esquimós, eu sei, mas ouçam PJ conversar com Lu Cafaggi e vocês também ficarão com muita vontade de ser amigo de ambos. Espero que você converse com Vitor em breve PJ, pois também quero conhecê-lo um pouco mais.
    P.s.: Caique Pituba arrasa mais uma vez. Que desenho massa!