O Cravo Bem Temperado: A Canção da Terra

Reflexões sobre a Vida

Na minha jornada musical sempre encontro composições impressionantes e, por isso, hoje vou falar de uma obra sensível, introspectiva e melancólica, mas de força inacreditável.

Em 1909, o austríaco Gustav Mahler (1860-1911) compôs, dois anos antes de sua morte, um ciclo de seis canções para barítono, tenor e orquestra, batizada de “A Canção da Terra” (Das Lied von der Erde, em alemão). Já na fase final da vida, o músico expressava sentimentos muito sombrios, o que percebemos em sua composição final.

A obra é inspirada em poemas chineses, adaptados para a língua alemã pelo poeta germânico, Hans Bethge (1876-1946). Podemos perceber que a influência chinesa está no tratamento da percussão e no uso de escalas pentatônicas (conjunto de todas as escalas formadas por cinco notas ou tons, muito comum no rock e no blues, de origem chinesa).

Mahler jamais chegou a ouvi-la em uma apresentação oficial, pois morreu em consequências de problemas cardíacos. Sua obra estreou em 1912, na cidade bávara de Munique, dois anos após sua morte. O compositor tinha medo de morrer no processo, assim como Beethoven e Bruckner, então ao invés de criar uma sinfonia clássica, resolveu compor um ciclo de seis canções, caracterizados por extrema sensibilidade e muita melancolia. Em uma carta para um amigo, Mahler afirmou que é “o que de mais pessoal tinha feito até então”.

Os poemas que o inspiraram, refletem a filosofia da existência humana.

O primeiro poema, “Das Trinklied von Jammer der Erde” (A canção-brinde à miséria da terra, em alemão) discute sobre a eternidade da Terra e a perenidade do ser humano, o quanto esse pode ser efêmero.

O segundo poema, “Der einsame im herbst” (O solitário no outono), descreve a terra em névoa onde serve como alegoria para uma desilusão amorosa.

O terceiro poema, “Von der Jugend” (Da Juventude), descreve a alegria jovial e recria imagens da juventude.

O quarto poema, “Von der Schönheit” (Da Beleza), descreve as belezas naturais, junto da beleza humana e do amor entre elas.

O quinto poema, “Der Trunkene im Frühling” (O Bêbado na Primavera), retrata a vida como um sonho relacionando o ato de beber, um prazer ao contexto da vida.

O sexto, e último, “Der Abschied” (A Despedida), uma junção de temas, onde envolve a perda, despedida e a força da amizade.

A obra apresenta temas muito característicos da natureza humana como amor, alegria e tristeza, e é um compilado de situações sobre as quais vivemos durante a nossa jornada. O compositor usa sua técnica para traduzir imagem em som. No terceiro movimento – Da Juventude –, o mais oriental de todos, podemos perceber um belo quadro chinês, já que o compositor apresenta a obra com o uso de cordas e sopros e, com conjunto de instrumentos como o glockenspiel (instrumento de percussão bem agudo), a celesta, o bandolim e duas harpas, dá um tom bastante oriental à obra. O último movimento apresenta uma composição extensa onde o autor se despede da vida e reflete, resignado, diante da morte.

Muitas pessoas podem ter um certo preconceito por se tratar de uma obra para voz, em outro idioma, mas tente perceber os nuances das palavras, envolta da música de fundo. É incrível o que o autor propõe.

Venha nessa viagem interior de descobertas e reflexão, aproveite e ouça essas belas composições.

Playlist

Clique aqui para ouvir no Spotify


O Cravo Bem Temperado é uma coluna escrita por Vinícius Hilário, para nos aproximar da música erudita com um olhar atual e descomplicado.
Experimente, aprofunde-se, e deixe a boa música guiar suas emoções.