Culpa

A culpa é como uma pedra pesada que escolhemos entre carregar ou jogar para o próximo.

Culpa é um conto escrito por AJ Oliveira, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


Culpa

Antes de entrar em casa, desamarro os cadarços e deixo o peso do velório no tapete de boas vindas. Não que a cerimônia tivesse fugido do esperado, mas depois da privada ter afundado o crânio da vizinha, sequer inventaram de pôr caixão aberto pro tal do último adeus.

Pra ser mais sincero, só quero passar pela porta e sentir o que restou da minha casa. Passo-após-passo, como se as frieiras nos pés descalços pudessem mastigar os escombros e vomitá-los inteiros.

Lá dentro, começo o ritual com uma aspirada involuntária de pó. Irônico foi ter comprado aquele cantinho pra fugir dos problemas terminados em “ite”. Agora não serei ressarcido tão cedo, seja em dinheiro ou em saúde. Foda-se. Olho em volta e sinto o fedor da hipoteca que passará a se chamar rombo-financeiro. E é engraçado pensar nessas palavras em um momento como este, fora da boca do filho da puta que me torrou “por A mais B” sobre as infinitas chances deste imóvel valorizar. Outra coisa que vendedores também costumam argumentar é sobre o tal “fácil acesso”. Eles citam linhas de metrô que na real jamais serão construídas, e terminam o discurso com qualquer outra mentira que lhes garanta uma comissão generosa. Contudo, o que esses caras nunca dizem é que se a asa de um avião levar metade de sua casa... Bem, você está tão fodido quanto o elefante branco onde mora, ou melhor, morava.

Posso ver as estrelas onde deveria ficar o teto da sala. A intensidade da noite só é ofuscada por elas, pela lua e pelas fitas de “Não ultrapasse”, postas pela perícia investigativa. Obedecer às instruções é reduzir as chances de ser tragado por um desabamento. Atravesso o cômodo em direção ao sofá e tropeço em mais algumas pedras que não deveriam estar ali. Quando chego do outro lado, toco o interruptor e descubro que Deus é apaixonado por humor negro.

Luz...

E restos de parede vermelha, como se existisse luz no inferno.

Saber o tamanho do estrago nunca é o mesmo que vê-lo pessoalmente. Sinto a vista marejar como sequer cogitei no velório da vizinha. Era o cortejo dos meus bens, velados sem tampa por um erro crasso da funerária. Talvez fosse uma boa hora para acionar o perito e reclamar dos dizeres “metade da casa”. Provavelmente ele me mandaria tomar no cu, depois me prenderia por desacato após minha tréplica. O fato é que só sobrou meia sala pra contar história, além do idiota que preferiu trabalhar na folga e descobrir porque capitães preferem afundar com seus navios.

É possível escrever meu nome no sofá de couro. Aos soluços, ignoro o pó e me acomodo ali em posição fetal. O celular vibra no meu bolso. Não preciso olhar na tela pra arrastar pro vermelho. Na última vez que conferi, cento e vinte e quatro não-atendidas me convidavam ao suicídio. Metade era do linchamento agitado pela mãe da vizinha em rede nacional, o resto era de quem me reconheceu quando a porra do Datena veio filmar os estragos do avião.

Aparentemente meu estado de choque não chamou tanta audiência. O tempo do microfone sob minha boca cobrou que eu fosse mais rápido que o tal do “se persistirem os sintomas...”. A entrevista acabou quando vi que eles queriam sangue, rancor e ranger de dentes. Tiveram isso, e um pouco mais, quando a mãe da vizinha invadiu a gravação e me acusou. Acredite ou não, de todos os motivos que a vaca tinha pra reclamar, o abre-alas do chorume foi eu não ter dado descarga no vaso que mandou a filha dela pelo ralo. Daí pra frente o nível só desceu.

Os olhos do âncora brilharam a cada frase dita pela velha. Nunca vi alguém feliz por uma louça cheia de bosta rachar a cabeça de outro ser humano. Até aquele dia eu costumava dizer que o Diabo procuraria emprego depois que aquela velha morresse, mas o âncora estava ali pra me mostrar a tendência competitiva a qual o submundo estava fadado.

Durante a transmissão ao vivo, ouvi um “Você devia ter ido junto com a casa, seu verme”, e a partir daí não atendi mais ligações, assim como meus pais também não atenderam as minhas. Meu nome chegou aos Trendings do Twitter, e eu desejei que o helicóptero do comandante Hamilton terminasse o serviço inacabado do avião.

Que atire a primeira pedra quem nunca teve problemas em aceitar uma fatalidade. Seria desumano ignorar isso da mãe da vizinha, mas não tanto quanto ela convencer a audiência abutre de que uma diarreia é mais grave do que a queda de um Boeing.

A entrevista me popularizou com um povinho que costuma cagar em três situações: pro que realmente aconteceu, pros lados que sofreram, e pros comerciais.

Acredite: você não quer saber o que esse povo comenta na internet, exceto se tiver afim de umas aulinhas sobre Auschwitz. A palavra “término” traz casos como este, em que a única opção é o famoso “aceitar pra doer menos”, mas ainda assim surgindo o típico serzinho escroto que chicoteia os culpados que ele mesmo cria. Quando você é esse suposto culpado, a saída é se contentar com pacotes de morfina racional, acompanhados por pinos de fundo do poço e doses incontáveis de insônia colérica.

Pensar no acontecido também me trouxe dor de cabeça.

Essa falta de sono criou meio-anjinho no pó do estofado. A raiva brotou da minha boca numa mistura de bile e a última merda que comi. Me levanto e também regurgito a paciência com socos frenéticos contra a lâmpada sobrevivente. Após choro, grito e agressão, todo velório deveria terminar no escuro. Assim o fiz e dei adeus aos escombros.

Me retiro e torço pra noite disfarçar meus olhos inchados. Calço os sapatos e preparo as costas para o hostel vagabundo da vez. O celular me indica mais algumas chamadas perdidas da velha. Ativo o modo avião e me rendo à brisa noturna. Na calçada, não consigo tirar os olhos das pontas dos sapatos. Enxergar a parte sólida do chão é desafiador. Parece que a queda livre nunca vai terminar.

Mesmo ciente de que não tive culpa, uma mentira contada muitas vezes enfia falsas-verdades até no seu rabo. E mesmo que eu possa escolher desacreditar, estamos tão preparados para o peso de uma vida nos ombros quanto pra ouvir da polícia que seu DNA foi encontrado no cadáver em questão.

É o tipo de coisa que te revira por dentro.

É o tipo de coisa que revela seu modus operandi.

Os demônios da cabeça gritam o bastante pra quase ocultarem o ronco do motor no horizonte. Talvez fosse um racha, dada a agressividade. Quem sabe eu até fosse rápido o bastante para me jogar na frente. Desisto da ideia assim que o logotipo da emissora surge. No contra fluxo, a van queima os pneus e ferra um teco da calçada ao frear do lado de casa. Pela silhueta, imagino que o desgraçado do ancora quer arrancar mais alguma coisa velha. Não perco tempo e corro atrás dele.

O ar acaba antes dos pés tocarem o jardim de flores mortas. Engulo a saliva grossa e ofego num pique menor. De início, tomo cuidado para não ser visto, até o momento em que os primeiros flashes explodem pela porta escancarada. Abro mão da cautela e enfio o corpo ali. Respirar pela boca é o que salva meu nariz do fedor de sabonete Phebo. Ergo os olhos e o puta-que-pariu dá uma pirueta pra fora da garganta sem me avisar antes.

Ele sabe que estou ali, mas simplesmente ignora.

A bagunça do cômodo vai além dos cacos da pia ou da montanha de louça suja. Um par de velas formando o número dezesseis compõe a massa rosa sobre a mesa de jantar. Sem os flashes do ancora, demoraria até reparar na foto da garota morta entre as velas apagadas. O corpo da velha engole o cômodo com sua sombra pendular. Novos flashes do ancora me revelaram agora a cadeira caída e o gancho que suspende a corda amarrada ao pescoço da futura diva infernal.

Os olhos do ancora expressam mais sono do que gana pelo novo “furo”. Só dou por mim que ele tá no fim do trabalho quando me aconselha a não tocar em nada antes da polícia aparecer. Uma parte de mim quer acusa-lo de matar a mulher, mas o que é uma parte quando tudo o que queremos é só sair do atoleiro? Ele parece me ler dos pés à cabeça antes de explicar que deu um cartão para a velha lhe ligar caso algo estranho acontecesse. Aparentemente foi o que ela fez, mas a conversa me nauseia mais do que o próprio misancene. Ele passa por mim e me aconselha a seguir em frente, mas não sem me dar um cartão e dizer as mesmas palavras que disse para a velha.

Sem dúvidas é melhor seguir. Afinal, é questão de tempo pro inferno estar sob nova direção.


PS: Essa ideia nasceu de uma conversa com o menino Mattheus, no BandoCon Experience. Então fica aqui aquele obrigado 😉


Esse conto foi escrito por AJ Oliveira para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: AJ Oliveira é um leitor da filosofia de banheiro público. Aspirante a escritor e podcaster nas horas vagas.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Adah Conti

    AJ, o teu talento para escrita é inegável. Não que eu seja Expert ou que a minha opinião importe muito. Mas vou dizer mesmo assim: você é bom menino. Quanto a história não sei o que diga. Me pegou desprevenida. Não vejo TV desgraça e prefiro passar a uma distancia segura dos abutres e suas carniças. Teu conto me jogou no meio deles.