O Cravo Bem Temperado: Sinfonia do Novo Mundo

Feche os olhos e sinta o vento das pradarias onde os cavalos selvagens correm livres pela imensidão

Na minha jornada em busca de conhecimento musical, sempre me deparo com belíssimas composições. Percorrendo este caminho encontrei as obras do tcheco Antonín Dvořák (1841-1904), conhecido por músicas poderosas. Hoje, no entanto, me peguei sentado, encarando o vazio, imaginando o mundo visto por ele em uma de suas músicas.

Sinfonia do Novo Mundo

A Sinfonia do Novo Mundo estreou no dia 16 de dezembro de 1893, apresentada no Carnegie Hall, em Nova York, interpretada pela Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, sob a regência do maestro húngaro Anton Seidl (1850-1898). A apresentação fazia parte das festividades do quarto centenário da descoberta da América. Nascido em uma pequena cidade da Boémia – região que à época pertencia ao Império Austríaco – Dvorák já era muito famoso por toda Europa na década de 1980. Jeanette Thurber, uma milionária americana lhe ofereceu a direção do Conservatório Nacional de Música de Nova Iorque, recém-fundado à época, exemplificando sua grande influência na música. Ele foi recebido como celebridade e assumiu seu posto no Conservatório em 1º de outubro de 1892.

Sua composição é repleta de temas inspirados na cultura negra e indígena americana, que dialogam com seus próprios temas eslavos. Essa mescla fica evidente em algumas obras que refletem os sentimentos de Dvorák, com o coração balançado entre a saudade da sua terra natal e a vida no novo mundo, durante sua permanência nos Estados Unidos. Durante sua viagem, ele disse:

Estou convencido de que a futura música deste país [os Estados Unidos] deve ser fundada nas chamadas melodias negras. Estes podem ser o alicerce de uma escola de composição séria e original, a ser desenvolvida nos Estados Unidos. Esses temas lindos e variados são o produto do solo. São as canções folclóricas da América e seus compositores devem se voltar para elas.

É triste pensar que Dvořák não teve contato com o Jazz, e pensar como isso teria mudado suas influências.

Em sua viagem ao estado de Iowa, no verão de 1893, Dvořák pôde ver a imensidão dos campos abertos no interior norte-americano. A sinfonia do Novo Mundo é repleta de momentos calmos e contemplativos, como se estivéssemos vendo as grandes pradarias junto com ele. O compositor não copiou os temas que ouviu durante sua jornada, mas sim, os transpôs em linha com suas impressões e emoções vivenciadas, coisa que ele consegue nos mostrar em forma de música, formando uma belíssima imagem.

Por experiência própria, digo que Dvořák é um compositor habilidoso que demonstra nuances em suas composições como ninguém, sempre de caráter nacionalista, mas nessa obra ele consegue juntar traços da sua cultura, com o que viu durante sua jornada por terras americanas. Sua obra é dividida em:

1. Adagio, Allegro Molto
2. Largo
3. Scherzo: Molto vivace
4. Allegro con fuoco

No primeiro movimento o compositor demonstra os temas que irão perdurar por toda a composição. O movimento começa calmo, como quem chega ao desconhecido, mas logo se vê a agitação, confusão e, principalmente, os sentimentos de quem observa esse mundo desconhecido. No segundo movimento – o movimento mais doce da obra – ele demonstra toda a devoção do compositor pelo que vê, as flautas e oboés são usados de forma a dar sofisticação a obra. Em um terceiro movimento, apresenta um trecho da nona sinfonia de Beethoven (reverenciando sua grandiosidade), mas, então, Dvorak desconstrói seu tema inicial e acelera a obra, inspirado por festas em Hiawatha, onde os índios dançavam. Já o quarto e último movimento é um resumo da obra. Os temas que perduram pelos três movimentos anteriores estão presentes, criando unidade. Uma boa metáfora para os Estados Unidos, uma sopa de retalhos construída na forma de nação.

Em sua estreia no Carnegie Hall, Dvorak foi ovacionado e aplaudido de pé ao fim de cada movimento, algo bem incomum na música erudita, o que o fez se levantar e se curvar, de acordo com pesquisa feita pelo New York Times. A obra atualmente é reconhecida como uma das mais importantes na história da música, influenciando músicos por muitas gerações.

Embarque nessa jornada para vivenciar a música e apreciar essa obra belíssima. Sente-se, feche os olhos e viaje pelo interior dos Estados Unidos do século XIX.

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O Cravo Bem Temperado é uma coluna escrita por Vinícius Hilário, para nos aproximar da música erudita com um olhar atual e descomplicado.
Experimente, aprofunde-se, e deixe a boa música guiar suas emoções.

  • Mackenzie Melo

    Engraçado como quando a gente ouve muito uma coisa a gente acaba achando que uma coisa foi copiada de outra quando, muitas vezes, a que que achamos original é uma obra que já foi inspirada por outra. O segundo movimento da sinfonia me lembra demais partes da trilha sonora de Star Wars 1 A Ameaça Fantasma, em especial Duel of the Fates.
    Adorei conhecer essa obra sensacional de Dvořák. Obrigado Vinícius.

    • Vinícius Hilario

      Eu adoro isso na musica, como todo mundo se influencia, acho belíssimo.