O Pote de Schrödinger

Caixa de lembranças: uma coleção perene de memórias que se vão. Entretanto, algumas delas são eternas e nos transportam como verdadeiras máquinas do tempo.

O Pote de Schrödinger é um conto escrito por Claudio Gaspari, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


O Pote de Schrödinger

Todo início de ano, como tradição, eu pego minha caixa de lembranças para arrumar. Incluir algumas coisas, jogar outras fora. Ela fica mais vazia ao longo dos tempos. Aparentemente, me desfaço de mais itens do que os coloco dentro. Talvez seja pelo fato de que não preciso mais de objetos para lembrar-me das coisas. Ou as lembranças estão ficando menos especiais. Ou, ainda, pelo fato de não ser mais adolescente.

Sempre achei que acumular bobagens fosse um hábito mais juvenil. Sério. Tinha palitos de dentes e guardanapos de lanchonetes que eu nem sei onde ficam ou se ainda existem. Não sei por que eles estavam lá. Sendo assim, não são mais uma lembrança e não merecem estar numa caixa de lembranças, certo?
Tinha uma capa de caderno rasgada com varias dedicatórias de colegas de colégio que nem sei mais quem são. Muitas delas sem assinatura. Nem sei em que série eu estava. Tinha uma tampa de margarina. Caramba... Isso era para me lembrar do que, mesmo? E, assim, as lembranças vão se apagando ano após ano.

Hoje, meu filho veio me visitar bem no dia em que eu fazia a limpeza da caixa. Não trouxe o meu neto, dessa vez. Que pena. Adoro o fedelho. Abrimos umas latas de cerveja, ficamos relembrando do tempo em que Joana ainda era viva. A perda da mãe foi dura para ele. Posso dizer que para mim também. Ele nunca mais teve a mãe e eu nunca mais tive uma esposa. Entre um brinde e outro, Marquinhos pegava um item na caixa de lembranças e me perguntava o motivo de estar ali. Eu contava quando sabia e, quando desconhecia a razão, jogava no lixo. Mas, um item especial fez todo o passado retornar, como se mais de 60 anos retrocedessem em minutos. O objeto que eu apelidei de "O pote de Schrödinger".

Era um pequeno recipiente de plástico preto que era usado para guardar um rolo de filme para máquinas fotográficas. Os mais novos não fazem ideia do que é isso. Enfim, isso não faz parte da história. Vou me ater aos fatos e o fato é que não havia um rolo de filme dentro dele.

Quando eu comecei a namorar sua mãe, ela tinha uma viagem marcada para o Chile. Não dava pra desmarcar e eu nem queria que ela desistisse. Eu não sabia se aquele relacionamento ia durar. Se muito, estávamos juntos há dois meses, ainda nos conhecendo.

Eu imaginava que aquela viagem poderia ser o fim de tudo. Ela ficaria um mês por lá e muita coisa pode acontecer em um mês. Joana me contava que amava visitar aquele país no período do inverno, pois nevava às vezes. Eu disse que nunca tinha visto neve. Na verdade eu nunca tinha viajado para o exterior. Mal conhecia meu próprio país, quanto mais ir para fora.

Fiquei sem nenhum contato com ela por umas duas semanas. Telefonar para o exterior era muito caro e não existia internet. Uns 15 dias depois, recebi pelo correio uma carta com esse pote e um bilhete dentro. Tudo o que estava escrito era "NÃO ABRA O POTE".

Fiquei olhando para esse potinho sem entender o que era. Obviamente não havia filme dentro dele, pois estava muito leve. Eu sacudi e não fazia nenhum som característico. E a carta, se é que podia chamar aquilo de carta. "NÃO ABRA O POTE". Sua mãe sempre foi meio diferentona, mas, na época, eu não a conhecia bem. Então, aquilo se tornou um grande mistério para mim. Tudo o que eu podia fazer era esperá-la chegar e perguntar de que se tratava.

Entretanto, a secura da mensagem me dava pouca esperança de continuar aquele relacionamento. Sem nenhuma demonstração de afeto, nenhuma descrição do que estava fazendo por lá. Enfim, eu não abri o pote. Deixei jogado numa gaveta até que ela retornou. Joana ligou, dizendo que tinha acabado de chegar e queria me ver. Perguntou se podia passar na minha casa. Estava estranha ao telefone. Eu imaginava do que se tratava. Ela queria oficializar o termino do namoro.

Porém, ao chegar, ela tinha o mesmo brilho no sorriso pelo qual me apaixonei. Tirou uma fita de vídeo da sacola e pediu que eu colocasse no videocassete. Ela perguntou se eu tinha recebido o pote e se eu tinha aberto. Abri a gaveta e lá estava ele, do jeito que ela enviou. Ela sorriu. Apertei o play e lá estava, na TV, sua mãe, toda encasacada, sentada num monte de neve e com o mesmo pote nas mãos. Ela olhou para a câmera e disse:

- João. Você disse que sonhava em conhecer a neve - Então fez uma pequena bolinha gelada, colocou no pote e fechou - Agora, você vai ter um potinho de neve só seu! As imagens a seguir, eram pequenos registros dos dias que se passaram e, ela sempre olhava para a câmera, "conversando" comigo, dizendo que queria que eu estivesse com ela e essas coisas... Tudo o que ela não tinha escrito na carta, estava lá, em vídeo. Eu, que achava que havia sido esquecido, tinha a prova que ela não só sentia saudades como dedicou àquela viagem inteira para mim.
Naquele momento eu soube que nunca mais largaria aquela mulher. Infelizmente, a fita se perdeu com o tempo, mas o potinho ficou...

Meu filho me abraçou. Choramos juntos por uns minutos. Depois, nos recobramos e ele me questionou:

- Só não entendi esse nome estanho que você deu para o pote. Xoró-o-quê-mesmo?

Schrödinger. Na época eu estava na faculdade de física e me encantei com um conceito chamado de o gato de Schrödinger. Ele teoriza a situação onde um gato é preso numa caixa, com um veneno que pode ou não ter sido liberado. Sendo assim, enquanto você não abre a caixa, o gato, para você, está vivo e morto ao mesmo tempo. A lógica diz que não existe neve dentro do pote, mas eu não abri e meu coração diz que tem. Então, resolvi batizar ele como o pote de Schrödinger. Ele era meu e agora é seu, meu filho. Seu potinho de neve!


Esse conto foi escrito por Claudio Gaspari para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Claudio Gaspari é pai, marido, nerd, blogueiro e cirurgião dentista nas horas vagas
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  • Coisa linda esse conto! Me lembrou o começo de UP. Alguém tem um lenço?

  • Adah Conti

    Que conto MARAVILHOSO!!!!!!!