Serial Reader: Wytches

Acho prudente começar esta resenha assumindo que eu não curto histórias em quadrinhos. Obviamente que eu amo e aprendi a ler com a Turma da Mônica e também li uma lapada de revistinhas do Demolidor (melhor herói, beijos) quando era adolescente, mas minhas experiências adultas com HQs (foram poucas) simplesmente não fizeram muita diferença na minha vida de leitora. Não gosto da maneira brusca como as histórias se desenvolvem, das frases curtinhas e dos layouts que às vezes dão dor de cabeça com tanta informação. Demorei muito para aceitar essa realidade para não ter minha carteirinha de geek revogada, mas quanto mais velha você fica, mais percebe como é sem sentido fingir que gosta de alguma coisa simplesmente porque esperam que você goste daquilo. Então esse parágrafo inteiro foi mesmo só pra dizer isso: eu não curto HQs.

Feito este disclaimer, vamos lá para a resenha onde eu vou recomendar uma – exatamente – HQ. Aliás, não sei como os fãs do formato o chamam, se preferem HQ ou graphic novel, mas vou usar ambas as expressões porque, enfim, eu quero.

O livro Wytches – cujo título não foi traduzido para o português, embora na história esteja como Brvxas – é uma coletânea das 6 HQs escritas por Scott Snyder e ilustradas por Jock, duas pessoas de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas que já considero pacas (aparentemente eles escreveram/ilustraram algumas várias histórias do Batman). A série acompanha a família Rook, que se muda para a cidade de Litchfield após um incidente envolvendo Sailor, a filha única do casal Charlie e Lucy. A clássica história de vamos começar uma nova vida, numa nova cidade, com novas experiências (e novas tretas). Obviamente que esse recomeço vai ser tudo, menos fácil, e é aí que entram as gloriosas personagens título da série, as Brvxas.

Cruéis e sanguinárias, as tais Brvxas evocam uma atmosfera de terror que é ainda mais intensificada graças às ilustrações macabras de todo o quadrinho. Cada página é de encher os olhos e isso certamente é um dos pontos altos da HQ. Em diversos momentos eu precisei passar minutos pra entender e absorver todas as informações visuais de algumas das páginas.

A premissa não é exatamente inovadora, mas a maneira como a história nos é apresentada e a breve mitologia em torno das Brvxas as torna muito mais assustadoras e interessantes do que as bruxas que costumamos ver em séries e filmes. Aliás, não vá esperando mulheres lindas e fatais que seduzem homens desavisados – as bruxas de Wytches são horrendas. O tempo inteiro eu só conseguia pensar em como queria que a versão cinematográfica daquela história já existisse. Os estímulos visuais são incríveis, o que me fez pensar em como tudo aquilo poderia ser explorado num formato diferente, como cinema ou TV. O texto, aqueles trechinhos mínimos que me deixam sempre querendo mais, tem um potencial absurdo para se tornar sequências de diálogos ricos. A sensação constante era de querer mais - mais cenas intermediando acontecimentos, mais detalhes sobre personagens, mais histórias, MAIS. Nas mãos de um roteirista competente – preferencialmente o próprio Scott – e do diretor certo, isso seria incrível.

Outro ponto positivo do livro são as cartas do autor. Ao fim da história, temos três colunas de Scott Snyder detalhando as inspirações que o levaram a escrever Wytches, algumas anedotas e impressões dele sobre assuntos aleatórios. As colunas são fáceis e interessantes de ler, ou talvez eu só estivesse feliz por finalmente chegar em páginas cheias de palavras e sem desenhos.

Não propositalmente essa é minha menor review até hoje, o que faz sentido visto que o material também foi bem menor. Mas vale frisar (caso já não tenha ficado óbvio) que em termos de qualidade, Wytches realmente não deixa a desejar. E ainda que eu não seja particularmente fã do formato graphic novel, aceito de goodreads aberto boas recomendações de leituras nesse formato. É sempre bom enfiar umas 3 ou 4 HQs por ano no desafio de leitura para garantir que a lista de livros lidos termine um pouquinho maior, não é mesmo? Gabs tá aí que não me deixa mentir.


Ana Negreiros é atriz, leitora, mãe de dois gatos, louca por tatuagens e viciada em Red Bull em recuperação. Ela acredita em lobisomens.

  • Mackenzie Melo

    Que texto incrível.

    Não conhecia Wytches, mas já vou atrás!

    Se eu puder recomendar uma (duas, na verdade), Ana, que eu li há algum tempo e que me deixou muito impressionado é Daytripper, dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (PJ já os entrevistou e o papo deles está num dos HQ Sem Roteiro).

    A segunda indicação é uma americana que também me lembro sempre – e me lembro de ter me assustado, literalmente, em uma das viradas de página – é The Wake. E sabe de uma coincidência? Não lembrava o nome do autor quando comecei a escrever essa resposta. Sabe de quem é? Isso mesmo, Scott Snyder. É capaz de você gostar também!

    Abração e obrigado!

  • Adah Conti

    Pouco conheço de HQs “adultas”. Também li Monica na infância ( alguém não leu?) e gosto de Mafalda e Calvin e Haroldo. E adorava a Rê Bordosa, na época que lia jornal impresso. PJ me introduziu a esse admiravel mundo novo e estou colocando os pés na beiradinha da praia. Portanto sua recomendação veio muito a calhar.