Blade Runner 2049 | Resenha

Se você chegasse pra mim ontem e perguntasse o que eu esperava do novo Blade Runner 2049, provavelmente minha resposta seria essa: “Pelo trailer, não muita coisa. Talvez um filme de ação genérico, com um pano de fundo de ficção científica. Quem sabe um ‘Quinto Elemento’ repaginado.”

Eu não poderia estar mais enganado.

Remake ou Reboot?

Primeiro de tudo que não é um novo filme.

Blade Runner 2049 não é um reboot, remake ou qualquer "re" que você possa nomear. O título do filme não poderia estar mais correto.

O que o diretor Denis Villeneuve nos entrega é o mundo de Blade Runner 30 anos depois de nosso primeiro contato.

Mais do que uma continuidade, vemos evolução. Mas, apesar dessa evolução, ainda temos tudo que Riddley Scott nos apresentou no clássico de 1982.

Água. Sangue. Chuva. Lágrimas. Lágrimas na chuva. Células. Whisky. Cigarro. Macarrão. Revolver. Interligados. Sexo. Violência. Escuridão. Silêncio. Frio. Células dentro de células. Solidão. Confusão. Terror. Opressão. Sadismo. Interligados. Memória. Mistério. Perguntas. Respostas. Incertezas. Células interligadas dentro de células interligadas dentro de células interligadas dentro de um eixo.

Dica

E aqui eu aproveito pra fazer uma ressalva.

Não vá ao cinema sem antes ter visto o primeiro filme.

Você não só vai perder muitos detalhes importantíssimos pro enredo (e não meras camadas de fan service), como não vai entrar no clima do mundo cyber noir criado por Phillip K. Dick em seus livros, o que é essencial pra aproveitar as mais de 2h e meia de filme.

Atendida essa condição, você já pode se preparar para uma experiência memorável.

Finalmente...

Agora, você pode refazer a pergunta: O que esperar de Blade Runner 2049?

São 163 minutos de algo que daqui a 30 anos ainda estaremos comentando, talvez ainda sem entender tudo, ainda especulando. Algo que nem todos gostarão (principalmente os que não seguirem o conselho dado acima), mas que definitivamente imortaliza Villeneuve no rol dos grandes diretores (se é que ele já não estava).

Resumindo: um novo clássico.

  • Vinícius Hilario

    Quero muito ver, otima critica…
    Irrei ver o mais rapido possivel.
    Villeneuve é sempre incrivel.

    • Gabriel Franklin

      Minha vontade é tatuar a filmografia toda dele.

  • Mackenzie Melo

    Cara, que texto lindo Rudi. Se eu já considerava ver Blade Runner no cinema, agora vou correndo. Obrigado.

    • Gabriel Franklin

      Tem que ver Mackenzie. É um daqueles filmes que a gente vai lembrar pra sempre.
      Depois quero sua opinião sobre a trilha, se Vangelis fez falta.

      • Mackenzie Melo

        Gabs, fui ver. E que decisão acertada! Iria ver de qualquer maneira pois, como disse Adah no seu comentário inicial, é um dos filmes de minha vida. Um dos que mais assisti e que volto a ele de vez em quando.

        Como você bem sabe, Gabs, amo Vangelis e a trilha sonora original de BR me toca profundamente. Como você me pediu para falar sobre ela, aqui vou eu, não sem antes fazer um pequeno ‘disclaimer’.

        Tudo na vida evolui e é muito raro quando conseguimos, no momento em que algo novo acontece, aceitá-lo de braços abertos, sem receios ou reservas. Em especial quando crescemos com esse algo anterior a ser ‘substituído’ pelo novo e que ‘nos pertence’, ‘é perfeito’ e ‘se melhorar estraga’. É preciso, nesse caso, que nos demos tempo para análises menos apaixonadas e mais sentidas e racionais, em busca sempre do equilíbrio tão desejado.

        A trilha sonora original [desde Main Titles com partes do diálogo do filme, com Deckard, Rachel e Tyrell, passando por Love Song – uma das músicas mais íntimas e tocantes de toda a história do cinema – e por One More Kiss, Dear – música totalmente diferente de tudo do filme, mas que é perfeita para ele e indispensável no contexto total da produção – e chegando a Tears in Rain – tocante e filosófica, bem no tom da cena final do filme – e encerrando, é claro, com End Titles, tema que já nas primeiras notas, todos que conhecem um pouco de cinema reconhecem imediatamente] é perfeita.

        Já a trilha de BR 2049, hoje, no calor da primeira audição, logo após assistir o filme, traz uma mistura de muitos acertos, repetições e, infelizmente, para mim, um erro imperdoável. Não ouvi a trilha ainda fora do filme. Vou ouvir amanhã durante o dia

        Acertos. Vários. Cito dois. 1. A ambientação se mescla com a sonoridade das notas que se perdem na musicalidade de Hans Zimmer – um dos meus compositores favoritos. Eu não sabia que a trilha seria dele e muito menos que seria feita com o novato (até onde eu saiba) Benjamin Wallfisch. 2. A utilização, pouca, mas acertada, de alguns motivos musicais originais de Vangelis, mesmo que apenas incidentais que dão a familiaridade necessária aos fãs, mas que avançam e não se prendem a eles demasiadamente para não se tornar apenas uma versão da original, mas ser original em si mesma.

        Repetições. Também cito duas. 1. Entendo que o filme original usou uma música cantada e que, como falei acima, acrescenta ao filme. Achei legal nesse a utilização de recurso semelhante, só achei que utilizar mais de uma música cantada e, infelizmente, músicas bem mais conhecidas, acabou destoando da sensação de estranhamento e reflexão que o filme pretende passar. 2. Não senti cansaço da trilha, como acontece em muitos outros filmes, mas tive, em muitos momentos, a sensação de que temas se repetiam demais, sem uma variação suficiente para fazer essa sensação desaparecer. E é isso que, infelizmente, me leva ao erro imperdoável.

        Erro imperdoável. Disse acima que um dos meus compositores favoritos é Hans Zimmer. Amo, por exemplo, a trilha sonora de Regarding Henry – também com Harrison Ford – e Backdraft – com Kurt Russel. Elas me emocionam e me fazem viajar sem sair do lugar, me transportando aos locais que os filmes apresentam. BR 2049, infelizmente, me levou para Batman e Man of Steel. Como não sou especialista, não sei dizer o que é exatamente, mas tem um som metálico muito forte e característico que toda vez que aparecia me tirava do mundo de BR e me levava a outro. E então eu tinha que me desconcentrar para retornar. Que pena! Tantos sons característicos tem o mundo de BR e acaba que um dos sons musicais que mais me chamaram a atenção são de outros filmes.

        Coloco tudo na balança, agora, e chego a uma conclusão: gostei da trilha. Apesar dos pontos negativos que citei, senti Vangelis presente o que me alegrou demais. Elementos deixados por ele foram muito bem utilizados e me fizeram ficar emocionado em vários momentos.

        Vou ouvir mais vezes, como disse anteriormente, e certamente vou notar outras coisas que essa primeira ouvida encobriu. Torço para que, o passar do tempo, como aconteceu com o filme original, possa me fazer gostar dela cada vez mais.

        Neste momento, entretanto, só tenho uma certeza. Quanto mais eu ouço BR por Vangelis, mais percebo nela uma obra prima e um personagem indispensável ao filme.

        Sim, quase esquecia. Ele esteve presente. Mas mesmo assim fez falta.

        É isso.

  • Adah Conti

    Naquela brincadeira do filme da sua vida, sempre Blade Runner é o primeiro que me vem à cabeça. Nem preciso rever, mas vou.
    A dúvida depois desse texto: aguentarei até amanhã? Todas as células dentro das minhas células anseiam.

    • Gabriel Franklin

      Revê Adah, vai ser como se fosse um filme só.

  • Adah Conti

    Olar. Voltei depois de ver o filme e aviso aos navegantes que este comentário terá SPOILERS.
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    Bom, achei o filme belíssimo em termos de cenários, luz ( fotografia, né?), trilha. A reconstrução do universo original está toda aqui, com ganhos como bem disse o Gabriel.
    Porém o filme não me emocionou em nenhum momento. Pensando sobre o porque, acho que a história que resolveram contar não faz jus à discussão filosófica do original. O que nos faz humanos? O que é o nosso self? Nossas memórias como a dos replicantes se perderão no tempo como lágrimas na chuva? Queremos viver sempre mais e lutamos pela nossa vida. Exigíramos mais tempo se pudéssemos? O que é ser livre?
    Neste novo filme me pareceu que o problema se reduziu a reprodução. O fato de um casal de replicantes ter um filho muda o status destes, destruindo perigosamente o muro que os separam dos humanos. Ora, esse muro nunca existiu quando entendíamos que as angústias dos replicantes eram as nossas. Neste ponto o filme novo não evolui. Pra mim, uma história besta, com um plot twist que não leva a nenhum aprofundamento. Também achei totalmente desnecessário a introdução de uma nova forma de inteligência ( a IA) para discutir exatamente a mesma coisa. Se não tivesse, o plot principal não se perderia. Já vimos melhor em Her ou Ex-Machina. Ou no meu querido oitentista Eletric Dreams.
    E voltando a reprodução, Jurassic Parque nos tinha dito: a biologia acha um jeito. Ok. Poderiam até discutir a libertação da criação humana, através da multiplicação autônoma. Mas pra mim, a discussão do “ self” e do seu fim é o que “ pega” no filme de 82.