Memórias de um Mal

Uma pequena cidade sofre com acontecimentos que trazem lembranças de uma antiga história, uma tragédia que deveria ter ficado esquecida. Mas que cidade não tem seus monstros?

Memórias de um Mal é um conto escrito por Klebia Dantas, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Memórias de um Mal

A cidadezinha parecia ser calma. Como a maioria das cidades pequenas aquela tinha se desenvolvido de uma pequena vila. A rua que dava para a nova casa também parecia pacata. Parecia o lugar ideal para se viver. Na realidade o único problema era o terreno no final da rua onde dava para perceber que uma antiga casa tinha ruído ali. As paredes que tinham resistido estavam enegrecidas e cobertas de mato. Nem mesmo as crianças entravam no local para brincar. Os vizinhos não falavam muito uns com os outros e tampouco eram amigáveis, particularmente não pareciam querer falar sobre o terreno da casa em ruínas e a razão de ninguém tê-lo comprado (estranho, pois em cidades pequenas como aquelas todos se conheciam e o que mais havia era falatório). Isso tudo mudou quando alguns incidentes começaram a acontecer.

Primeiro os telhados de algumas casas caíram. Fios de eletricidade eram encontrados cortados. Visitantes diziam se perderem no meio do caminho para a cidade, pois uma névoa os rodeava e ficavam rodando a esmo até encontrarem alguém para lhes ajudar. Ventos fortes derrubavam árvores. Em uma noite chuvosa barulhos foram ouvidos por todos da rua, gritos em meio ao barulho do vento. Depois de uma noite excepcionalmente fria, um acontecimento ainda mais sinistro abalou a cidade, um homem foi encontrado morto com uma pancada na cabeça e jogado em uma ruela, a polícia local não sabia o que fazer, pois nada como aquilo havia acontecido antes e nenhum suspeito foi encontrado pelo assassinato ou tampouco a arma do crime. Em meio a tudo isso e com algumas coisas ainda sem explicação lógica, como o motivo de vários pássaros estarem morrendo e gatos sendo encontrados mortos completamente estripados na frente das portas das casas alguns rumores começaram a correr pela cidade principalmente sendo disseminados pelos moradores mais velhos. Rumores do que eles chamavam de um mal antigo e alguns de pura superstição.

O fato é que algumas pessoas em várias conversas mencionavam sentir a presença de alguém em alguns desses acontecimentos, principalmente os viajantes que se perdiam. Diziam ver alguém na estrada momentos antes da névoa. Para muitos isso poderia ser explicado facilmente, era nada mais que o criminoso de todos esses eventos, porém para outras pessoas, aquelas coisas terríveis só podiam estar acontecendo por vias de forças malignas, algo sobrenatural estava acontecendo como já havia acontecido há muitos, muitos anos. Uma força que já havia habitado naquela cidade estava de volta e assim todos que ainda não sabiam ficaram conhecendo a história de Romãozinho.

Alguns diziam que o garoto era apenas uma lenda local criada pelas mães para que seus filhos se comportassem e não contassem mentiras. Mas para outros a lenda se originou de uma história real, acontecimentos que assolaram aquela cidade há algum tempo. Ali viveu uma família que tinha problemas com seu filho mais novo, o menino era mimado e irrequieto, gostava de brigas e, principalmente, de pregar peças e contar mentiras. Seu pai tentava a todo custo controlar o garoto, mas nada surtia efeito, na verdade parecia criar nele uma espécie de ira vingativa. O pai tentando conte-lo o manda trabalhar em várias fazendas. Logo ele sai de todas. Os proprietários alegavam que coisas estranhas estavam acontecendo depois de sua chegada como vários animais encontrados mortos quase todos passados a faca e galinheiros depenados sem nenhum ovo, os proprietários por algum motivo não conseguiram provar que era o garoto, porém o menino também não podia provar sua inocência. Com todos esses acontecimentos seu pai começou a cogitar a hipótese de que realmente o filho estava fazendo todas aquelas coisas por pura diversão, que gostava daquilo e que deveriam afasta-lo do seio familiar.

Percebendo a desconfiança do pai o garoto vai até sua mãe implorar para que ela não o deixe leva-lo para longe e jura que não fez aquelas coisas. A mulher sensibilizada com o pedido do filho mais novo fala com seu esposo e coloca o menino sobre o seu olhar pedindo que ele ajude nas tarefas de casa com ela e suas irmãs. Por algum tempo tudo parecia bem, Romãozinho ajudava e não se metia mais em confusões, assim todos pensavam, porém o menino estava criando um jogo de mentiras que visava livrar-se do pai.

Para conseguir isso ele começou a tecer uma rede de mentiras, envolvendo quem mais tentava ajuda-lo, sua mãe. Dizendo ao pai que ela ia todos os dias para o armazém e ficava horas conversando com o proprietário. Quando seu pai perguntava onde estava a esposa, ele sempre respondia que ela tinha ido ao armazém e não tinha voltado, mesmo quando ela estava em outro lugar completamente diferente. Assim, começaram as desconfianças e brigas entre o casal. O fato de que um tempo depois a irmã mais velha de Romãozinho foi encontrada morta dentro de um açude não melhorou as coisas. O pai culpou a esposa pela morte, pois dizia que ela nunca estava em casa e a acusou de sair com outros homens. Enquanto isso o filho estava cada vez mais feliz, pois pensava que seu plano de separar os pais estava dando certo. De certa forma o desejo do menino se realizou. Em um dia que a mãe tinha saído para lavar roupa e o pai perguntou pela mulher ele respondeu:

-Deve esta no armazém. Pai, eu num queria contar... Vi mainha agarrada com o cara de lá dia desses.

Louco de raiva o homem foi em busca da esposa, a encontrou voltando para casa e partiu para cima da mulher a espancando até a morte, logo depois se suicidou ali mesmo, dando uma facada no próprio peito. Quando o menino chegou tudo que viu foi o sangue jorrando do corpo do pai.
Em meio a todos estes acontecimentos a irmã mais nova de Romãzinho entrou em desespero e o culpou por tudo. Apesar das acusações, nada podia ser provado, desta forma por um tempo ele continuou morando na casa da família. Depois do enterro dos pais a menina foi morar em outro lugar. E o garoto sumiu. Sumiu completamente, não deixando na casa nenhuma pista da sua estadia lá ou sendo visto por alguém da vila... Por um tempo.

A partir daqui a história trágica dessa família começa a se tornar uma lenda. Tempos depois do desaparecimento coisas estranhas começaram a acontecer, viajantes se perdiam, telhados eram quebrados, barulhos estranhos eram ouvidos pelos moradores. Fazendas pareciam ser invadidas a noite, pois os rebanhos eram encontrados soltos fora de suas cercas. Assim começaram os boatos sobre a vingança do menino, na verdade a maldição que a irmã teria jogado nele depois das mortes dos pais.

A irmã teria dito que ele jamais descansaria em paz nem mesmo depois de sua morte pelos crimes que cometeu. Isso bastou para que vários moradores começassem a acreditar que um fantasma estava assombrando a todos que moravam naquela região.

A história foi passando de geração em geração na cidade e também fora dela, o que aconteceu aquela família foi se tornando um exemplo de tragédia e reprimenda para os mais jovens assim como uma ferramenta de medo para os mais crentes de que uma força má rondava a cidade de tempos em tempos. Esse era o motivo do terreno baldio no fim da rua nunca ter sido comprado e de tantos sentimentos ruins em volta dele. Dizia-se que ali era o lugar da antiga casa deles, uma família que há muito tinha quebrado.

Quanto aos acontecimentos recentes o caso de assassinato nunca foi desvendado pela policia local, assim como as mortes dos gatos e passarinhos. Os casos de viajantes perdidos foram atribuídos ao clima e as visões de uma pessoa na estrada aos olhos cansados dos motoristas. Com o tempo até os mais incrédulos foram se convencendo que coisas estranhas acontecem, seja por causa de um maluco que passou rapidamente pela cidade e foi embora, seja por algo que ainda permaneça lá sem explicação. Na realidade o assassinato foi no mínimo fácil. O infeliz estava bêbado caminhando a esmo, tudo que tive que fazer foi escolher o porrete certo para afundar seu crânio. Assombrada ou não a cidade é um lugar perfeito para continuar vivendo, matando e me escondendo.


Esse conto foi escrito por Klebia Dantas para o Contos Iradex.
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Sobre o autor: Klebia Dantas gosta de escrever esporadicamente, mas de ler sempre. É graduada em Filosofia e tende a preferir o "tudo é vir-a-ser" de Heráclito do que o "tudo é" de Parmênides.
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  • stephen king feelings? medo desse conto. quero mais!

  • duhbits

    Oramarrapaiz…

  • Adah Conti

    Eita! Tive que ler de novo depois do meu queixo cair na revelação do narrador.