Caça aos Fatos: Na Minha Pele

Não quero fazer patrulha nem fiscalização do politicamente correto, mas trazer uma reflexão sobre como nós, um país extremamente diverso, ainda somos tão atrasados em nossa percepção sobre nós mesmos.

– Feliz dia dos pais! Comprei esse livro Na Minha Pele do Lázaro Ramos para o senhor. Depois me diz o que achou pois quero ler também.

– Obrigado filho! Não sabia que ele era escritor também. Vou ler sim e te digo.

– Vi que o senhor já esta na metade do livro. Tá lendo rápido hein?

– Filho, que narrativa boa desse livro. Muita coisa parecida com a minha história.

– Bom saber que está gostando. Me conta essas histórias. Como se identificou?

– A criação no “interior” sem eletricidade com pouco acesso a informação, os deslocamentos para a cidade grande, a família grande e seus relacionamentos. Além das brincadeiras e cultura regional como identidade, apesar de diferentes do Ceará.

– Pois é.. nunca tinha ouvido falar da Ilha do Paty, um lugar histórico para o Brasil pouco divulgado. Pelo menos não aparece nos livros da história “branca” do país.

– Mas achei ele muito preocupado pela questão da cor de pele em alguns momentos.

– Pai, ele é um ativista da causa que tem essa necessidade de dialogar sobre o racismo. Tem um ator americano chamado Morgan Freeman que apresenta atitude contrária. Para ele quanto menos se falar do assunto, melhor. O Lázaro escolheu ser uma voz.

– Entendi e li o relato daquela professora que você me mostrou na revista. Bonito.

– Verdade. Como é aquela história de quando você estava no Raimundo dos Queijos* com o seu amigo deputado e tinha um cara querendo saber quem era o senhor?

– Ah… um enxerido metido a besta estava achando que eu era segurança ou algo parecido do deputado. Ele queria saber para tratar bem ou não.

– E o que o senhor disse para ele?

– Falei minha formação, onde trabalhei, a empresa que tenho… que ele podia me chamar de "Dotô" e cuidar da vida dele, pois a minha ia bem e meus filhos criados e formados.

– Hehehe. É como diz aquele ditado: “Quem fala o que quer, escuta o que não quer.”

– E respeito para com outros não é questão de classe social ou racial, sim educacional.

Esses somos nós, reflexos de um espelho quebrado que, como um mosaico, apresenta um pedacionho de nossa história. Se visto com carinho, cada pedaço pode ter sua beleza, valores e complexidades reconhecidos. Para isso têm surgido novas vozes, novos portadores do microfone, prontos para ampliar suas falas, experiências e histórias.

* Raimundo dos Queijos é um bar e mercadinho localizado no centro de Fortaleza frequentado por escritores, músicos, artistas, políticos e boêmia da cidade.


Aconteceu na vida? O documentário mostrou? A biografia revelou? A coluna Caça aos Fatos recomenda!
Conheça histórias dos outros, analisadas por Bruno Garcia.