Serial Reader: A Beleza é uma Ferida

Vocês costumam escolher livros pela capa? Eu sim. Na verdade, é um combo capa + título + sinopse. Um dos meus livros preferidos (A Solidão dos Números Primos, do Paolo Giordano) eu escolhi assim. Uma cliente chegou na livraria procurando por ele e quando ela disse o título meu coração já ficou levemente encantado, mas ver a capa e ler a sinopse foi o que cimentou minha decisão. Com A Beleza é uma Ferida, de Eka Kurniawan, não foi muito diferente. Estava eu zanzando pelo shopping numa dessas tardes de desemprego, entrei na livraria e logo de cara me deparei com aqueles oito livros de aba rosa Barbie bem na entrada. Li o título, a sinopse e soube ali mesmo que eu precisava daquele livro o quanto antes – só não pude sair com ele da loja por motivos de dinheiro, mas chegando em casa mendiguei o livro de presente no Facebook e acabei ganhando-o de um amigo leitor maravilhoso e que adora me mimar com livros (beijo, Luciano!).

Como descrever A Beleza é uma Ferida? Acho bem difícil pensar numa sinopse sucinta para ele, porque a impressão que você tem quando o lê é que são umas 17 histórias diferentes. E isso nem é uma hipérbole, o livro realmente é um emaranhado (delicioso) de histórias. Mas como não se recomenda um livro sem explicar pelo menos um pouco do que se trata, vai uma tentativa, começando com a primeira frase dele:

Numa tarde de fim de semana em março, Dewi Ayu levantou-se do túmulo onde estava enterrada havia 21 anos.

Toda a história gira em torno desta mulher, Dewi, a melhor, mais famosa e mais bela prostituta da cidade de Halimunda. Dewi tem quatro filhas e uma dessas filhas ironicamente se chama Beleza – ironicamente porque Beleza é o "Jason" de feia, algo que os demais personagens não têm o menor problema em comentar. A menina mal nasce e já é descrita com palavras como “horrenda” e “horripilante monstro”. Para Dewi, porém, isso é uma bênção pois Beleza nasceu assim graças as preces da própria mãe, que desejou fortemente ter uma filha feia. Segundo a prostituta, é uma maldição parir fêmeas bonitas, pois o mundo é cheio de “homens perversos no cio”. Essa percepção de Dewi não foi construída à toa – com uma vida marcada por violência, ela tem todos os motivos do mundo para acreditar que as coisas seriam diferentes se não tivesse nascido tão bonita.

Um aviso de gatilho é necessário: esse livro tem muitos estupros. Mesmo. Game of Thrones é fichinha perto dele. Houve um momento em que cada vez que uma nova personagem feminina surgia, meu primeiro pensamento era “ai deus, tomara que ela não seja estuprada também”. E não para por aí: na lista de tópicos será-que-meu-estômago-aguenta também temos zoofilia, necrofilia, incesto e uma lapada de assassinatos. No entanto (até para vocês não acharem que eu sou uma doente que só gosta de assuntos perturbadores) também preciso enfatizar que a narrativa do Eka é tão crua e deliciosa que o fato dele lidar com temas extremamente difíceis não torna a leitura desconfortável. A maneira como ele escreve é quase desconcertantemente factual, nada é romantizado em excesso ou poetizado sem contexto. Ele simplesmente narra os acontecimentos. Se algo pode ser contado em um parágrafo, vai ser contado em um parágrafo, nada de três páginas descrevendo as cachoeiras, árvores e estradas (beijo, Tolkien!). Isso, obviamente, não significa que não exista poesia ou beleza na escrita dele. Dependendo do tipo de leitura que você prefere, essa escolha literária pode ser ou não um mérito.

O livro é cheio de alegorias históricas, mas como eu sei praticamente nada sobre a Indonésia, melhor não me estender nessa questão para não acabar falando merda. Porém é nítido que boa parte da obra – bem como a maneira pragmática com que o autor descreve várias situações – tem grandes nuances de uma crítica social, ainda que o livro seja essencialmente uma ficção fantasiosa.

Essa não é uma obra fácil de ler - tive vontade de passar o dia inteiro grudada nesse livro, mas em alguns momentos realmente precisei dar uma pausa. É uma história complexa e cheia de situações que se interligam. A narrativa flui com facilidade, mas o leitor precisa ter uma mente aberta e disposta a embarcar nas tramas inusitadas. A experiência chega a ser indescritível, pois mesmo sendo uma obra que possui uma carga dramática pesada, a história acaba se desenrolando, em grande parte, de uma maneira surpreendentemente leve. Não tenho dúvidas de que daqui a algumas décadas esse livro estará no hall dos grandes clássicos da literatura mundial. Muito dele me remeteu à uma citação, da finada série Nip/Tuck, que fala por si só:

“A beleza é uma maldição no mundo. Ela nos impede de ver quem são os verdadeiros monstros”.

Dados os avisos necessários, espero que os temas fortes não assustem potenciais leitores. Se você é alguém que realmente gosta de ler e tem prazer em reservar horas do seu dia para curtir a companhia de um livro, por favor não hesite em dar uma chance a esse. Ainda que recheado de temas tão feios, “A Beleza é uma Ferida” é sem dúvida um dos livros mais bonitos que eu já li.


Ana Negreiros é atriz, leitora, mãe de dois gatos, louca por tatuagens e viciada em Red Bull em recuperação. Ela acredita em lobisomens.

  • Adah Conti

    Opa. Mais um pra lista.