Cartas do Mundo: Normandia

Mackenzie,

Eu estava aqui pensando em como escolho os lugares para onde viajo. Não tenho regras. Fui para regiões que sonhava desde criança, lugares que eu imaginava debruçada sobre os livros da biblioteca da escola. Outros cantos foram desejos bem mais tardios. Alguns locais eu fui pelas pessoas, outros pela história, outros pelas paisagens. Muitas vezes as circunstâncias me arrastaram para lá ou para cá. E num tempo que a vida me apresentou um ano muito difícil, eu fechei esse ciclo em um passeio pela Normandia. Não fui pelas praias do dia D ou pelos jardins de Monet. Eu tinha uma vontade específica.

Saindo de Paris, atravessei boa parte da região num ônibus que recebia e despejava nas vilas e cidadezinhas da estrada, gente daquela região. Uma das coisas que aprecio fazer em terras estrangeiras é observar gente comum. Mas o comum para alguns é o extraordinário para outros e naquelas horas no ônibus, olhando as paisagens tão perfeitinhas do norte da França, me senti totalmente imersa num conto de fadas ou numa fábula medieval.

Numa das paradas desci numa vila cujo nome deve estar perdido em algum lugar inacessível na memória. Comecei a explorar o lugarejo e não demorou nem um minuto para que eu avistasse uma pequena Boulangerie. Uso o nome em francês mesmo porque na França a comida e os lugares que a servem são cercados de certa aura presunçosa. Mesmo numa vila do interior, os franceses vendem e comem seu croissant e seu fromage com toda a classe e pompa. Eles têm um senso de estética e paladar que nunca encontrei em outro povo. E também, reiterando o seu estereótipo para o mundo, pelo menos os franceses que cruzaram meu caminho não distribuíram muita simpatia para uma turista que não falava bem a língua. Porém, como em muitos lugares e por diferentes razões, acabei me valendo do contato com as crianças, cuja curiosidade sempre permite uma conversa em línguas misturadas, mímicas e risadas. Um grupo uniformizado me contou que estava indo para a cidade de Caen, pois a vila não possuía escola para eles, “seulement pour les petits”, e que meu destino estava a menos de uma hora dali. Caminhando de volta para o ponto de ônibus, observei um pouco mais da vida pacata do lugar. Pela vitrine do salão de beleza, uma senhora bem idosa estava tendo seu cabelo cortado por uma moça muito magrinha, cujo próprio corte em estilo punk destoava do clássico estilo da cliente. No colo da madame estava sentado um cachorro enorme, daquelas raças esquisitas, absolutamente quieto, como se esperasse sua vez de cortar as madeixas. Achei inusitada a cena e devo ter feito cara de espanto, espelhada pelas três criaturas do salão que viraram para mim naquele momento, encarando a estrangeira meio desgrenhada pela viagem.

De volta ao ônibus e seguindo viagem, finalmente avistei o imponente Monte Saint-Michel. A abadia enorme, incrustada na ilhota que se transforma em península com a dança das marés, é uma silhueta inesquecível. E quando você chega mais perto percebe que existe um vilarejo de ruas estreitas e casinhas de pedra serpenteando monte acima. O cenário é totalmente medieval mas a horda de turistas, visitantes enxeridos do mundo moderno, poderia acabar com a tentativa de imaginar aquele lugar séculos atrás. No entanto, se você esquecer as roupas e não prestar muita atenção para o que vendem nas bancas montadas em frente das casinhas, pode se fingir de peregrino na balbúrdia da chegada ao seu local de adoração.

A subida é bem puxada e no topo da ilha a parte de dentro da igreja é bem simples, com apenas uma imagem em pedra do anjo Miguel, como ele é representado pela igreja católica. Os que chegavam até ali, possivelmente por não verem nada parecido com os espetaculares vitrais góticos das catedrais europeias, não se demoravam na sala e guardavam um silêncio respeitoso. Aproveitei então para sentar, recuperar o fôlego e pensar. Pensei nas minhas perdas e como cada um tem que aprender a lidar com elas. Sempre tive certa inveja de quem tem crenças verdadeiras em uma vida após a morte, em um criador que tem planos especiais para os seres humanos, em encontros em outras dimensões. Por muito tempo tentei acreditar e não consegui, até que fiquei em paz com minhas próprias crenças sobre sermos seres finitos, apenas um grupo de primatas que desenvolveu uma espécie de consciência vivendo em um universo incrível, pois totalmente cheio de mistérios para nós. Tudo o que sentimos e pensamos está inserido nesse todo. Temos nossas certezas profundas e nossas dúvidas eternas

Na Normandia eu tive duas certezas. A primeira é que os que construíram aquela abadia não estavam enganados. Algo muito poderoso e misterioso apareceu ali para os homens e foi nomeado por eles. A segunda é que, conscientes ou não, precisamos de certos rituais para sobreviver às mortes dos que amamos.

Uma das minhas dúvidas eternas é o porquê eu tive que cumprir o primeiro ano de luto pela perda do meu pai sem orações ou esperanças de reencontro, mas visitando lugares erguidos em memória do anjo a quem ele devia o nome.

Post scriptum : Apesar desta carta ter sido escrita para o querido Mackenzie, sua gênese foi o incrível texto do admirável Legalzão, que mesmo não por escolha, também é Miguel e ainda por cima Arcanjo.


Cartas ao Mundo é uma série especial, escrita por Adah Conti sobre suas viagens.
O destinatário costumava ser apenas seu filho, Felipe, mas agora somos todos nós. Conheça o mundo pelas palavras de Adah.

  • A parte que me deixou mais bolada nesse texto foi “precisamos de certos rituais para sobreviver às mortes dos que amamos”. Quando meu avô morreu eu procurei um lugar para ir, mas a exigência era que não fosse nenhum que eu tivesse ido com ele. Às vezes temos medo do que as nossas próprias memórias podem nos trazer ou, às vezes, apenas queremos esquecer por um momento.

    • Adah Conti

      Pois é. Acho que esses rituais, seja quais forem, tem a função de nos equilibrar ou curar mesmo. Se não “cumprimos”, seguir em frente é mais complicado. Bjs

  • Carta linda! Me pegou muito esse sentimento do ceticismo indo de encontro com a crença. Só que ao contrário de você, eu tentei me obrigar a não acreditar em nada. Meio que uma continuação daquela conversa de ontem sobre acreditar em providencia divida…. Eu me vejo como uma dessas construções erguidas pela força de sentimentos religiosos. Precisei aceitar que mesmo deixando de praticar a religião onde eu cresci, ela nunca ia deixar de ser parte da minha história e em parte definidora do que eu sou. Por mais ateu que eu me torne, ainda vou ter sempre essa abertura pra imaginar alguma(s) possibilidade(s) de pós-vida.

    • Adah Conti

      Pines, muitas vezes vamos vindo de caminhos opostos e nos encontramos pelo meio da estrada. Eu adorei saber sobre esse conceito da providencia divina. Obrigada por estar no meu caminho.

  • Mackenzie Melo

    Adah, existem coisas realmente inexplicáveis.

    Ouvindo você falar sobre a Normandia, me peguei pensando muito sobre as “coincidências” – será que são mesmo, @pingabriel:disqus? – que a vida nos apresenta.

    Será que por você ter escrito para mim é que identifiquei expressões pouco comuns no vocabulário diário das pessoas, ou você realmente captou parte de minha essência usando expressões relativamente comuns em meu vocabulário de Natalense?

    Será que foi por ter lembrado de algo da viagem e relacionado comigo que você escolheu a Normandia para falar comigo, ou será que viu em mim um amante da língua francesa – apesar de bem distante, ultimamente -, coisa que realmente sou? (Espero, entretanto, que eu não seja nem soe, e me esforço bastante para não sê-lo, presunçoso como na sua descrição)

    Será que foi por não ter ainda “perdido” alguém tão importante quanto a perda de Seu Miguel, o seu texto me tocou profundamente por ser algo que certamente irá acontecer um dia e no qual tenho pensado com relativa frequência recentemente, ou porque ontem mesmo uma grande amiga, quase uma mãe, partiu e deixa lágrimas de saudade, mas também de alegria de te-la conhecido e convivido de perto com ela?

    Muitas dúvidas… Algumas certezas…

    Um dia pretendo visitar a França – espero conseguir – e agora tenho um lugar a mais para ir quando por lá estiver, a Normandia. Não por ela em si, mas por você e por tê-la tornado ainda mais especial para mim.

    Muito obrigado pelas suas certezas e suas dúvidas, minha amiga. Elas só aumentam cada vez mais a minha certeza: não existe nada que o Amor verdadeiro não consiga superar.

    Ame muito e continue escrevendo essas lindas cartas de amor. Para cada um de nós. Para o mundo.

    P.s.: uma outra coisa que me fez ficar muito feliz com seu texto foi Miguel fazer parte dele. Pense num cara Legalzão com quem tenho trocado muitas ideias ultimamente!

    • Adah Conti

      Makenzie, como falei a carta surgiu do texto do Legalzão, que me lembrou o nome do meu pai, que me lembrou essa viagem. Como tem uns questionamentos do lado espiritual e nós já falamos algumas vezes desse tema lá pelo bando, pensei imediatamente em você. Não tinha ideia (consciente pelo menos) do teu gosto por francês e muito menos sobre o vocabulário. Quais palavras você se refere?
      Quanto a morte, de vez em quando preciso falar sobre isso. Tive muitas perdas ao longo da vida, família e amigos. Também,devido a profissão, a morte é uma companheira do meu dia a dia. Já nem tenho a conta de quantas pessoas vi morrer, muitas vezes sendo a unica pessoa a presenciar este momento. Mas também foi “coincidência” o momento de perda (?) que você teve e eu também não sabia.
      Enfim, deixemos os mistérios misteriosos e celebremos a vida. Bjs.

      • Mackenzie Melo

        Isso mesmo, minha amiga, celebremos sempre a vida.
        As duas palavras que mais me chamaram a atenção logo na primeira passada de olho foram madeixas e enxeridos.
        A primeira – madeixas – pois sempre abro um sorriso quando escuto/leio por lembrar de uma história que aconteceu comigo e da qual não lembro muitos detalhes, mas que sei que era engraçada para mim. (Será que isso faz algum sentido?)
        A segunda – enxeridos – pois era realmente algo que minha vó e minha mãe falavam muito e nunca vi ninguém fora do meu convívio infantil/juvenil e fora de Natal falar.
        As outras duas foram reiterando e desgrenhada. A primeira também por ouvir pouco e tê-la usado com uma certa frequência, me encheu os olhos; já desgrenhada também tem um pouco do ar de mãe falando.
        Sei que falei Natalense no meu texto, mas mais e mais percebo que – apesar de existirem dialetos culturais e regionais – morando longe como moro hoje e convivendo com pessoas dos mais variados lugares do Brasil, esses dialetos são diferentes do que imaginava. Vejo que coisas que achava que eram locais não são tão locais e coisas que achei que todo mundo conhecia e falava igual, muitas vezes soam bem estranhas na boca de pessoas de outros locais do Brasil.
        Para dar um exemplo, descobri recentemente que – e como é só uma experiência que tive com uma única pessoa, ainda não confirmei com outros – a frase “Maria está olhando Frozen” é o mesmo que “Maria está assistindo Frozen” o que, para mim e minha definição de olhar e assistir são bem diferentes nesse contexto.
        Mas, bem, já me alonguei demais.
        Muito obrigado mais um vez pela carta que me tocou muito.
        Abração.

  • Vinícius Hilario

    que carta linda Adah, parabéns

    • Adah Conti

      Brigada Vini

  • Miguel Arcanjo

    Me senti tocado, quando vi que era meio que pra mim não esperava que a relação fosse essa do anjo Miguel. Pego de surpresa. Ainda mais porque assim como você eu não tenho crenças de vida após a morte. E levo o nome de um anjo a quem as pessoas constroem monumentos. Incrível como pessoas separadas pela distância, idade e tempo pensam nas mesmas coisas hahaha. Querendo ou não, a escolha do meu foi um ritual que criei pra sobreviver mais facilmente a tudo isso como você deixou claro. Amei o texto. Nunca tinha pensado nisso por essa lado. Obrigado ❤️

    • Adah Conti

      Obrigada você. Assim como disse para o Pines, às vezes a gente se encontra em uma estrada vindo de começos muito diferentes. O seu texto, questionando sobre essas nominações, me fizeram pensar em varias coisas.

  • Muito sentimento envolvido 🙂 Já tinha vontade de conhecer a Normandia pela história da guerra. Com esse belo texto, sei que existe muito mais a ver e sentir. Obrigado!

    • Adah Conti

      Obrigada Bruno. A ideia é falar de sentimentos que podem ser comuns a todos nós em qualquer lugar e quem sabe uma dica pessoal sobre uma cidade ou região.