Familiar

Após uma noite de sono, tudo pareceu diferente. Diferente, porém familiar.

Familiar é um conto escrito por Adah Conti, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Familiar

Abriu os olhos e ficou confusa. Estava na cama - não a do seu quarto - mas o ambiente parecia familiar. Sentiu o coração palpitar.

- O que está acontecendo?

Fechou os olhos e abriu novamente.

- Que lugar é esse?

Sem saber bem o que fazer, tentou se levantar e congelou.

- Corpo de menina. Sou eu. É meu quarto. Mas quando?

O coração quase saia pela boca. Sentiu tontura enquanto, vagarosamente, buscava a calma. Tinha certeza de não estar sonhando.

Passando os olhos pelo quarto, percebeu o irmão no berço. Ele começou a falar daquele jeito engraçado, com sílabas trocadas. Levantou os bracinhos pedindo ajuda para sair das grades. Ela sorriu porque não se lembrava dessa cumplicidade matutina.

Ouviu um latido e um arranhar na porta. Imediatamente o nome preencheu sua mente: Diana. Abriu a porta e a cachorrona entra, estabanada, acompanhada pelo pequinês preto e cego.

- Negrinho!

No corredor, avistou um revisteiro grande e redondo, repleto das revistas que a mãe colecionava e do jornal que a avó lia antes de começar o dia.

Desceu as escadas ouvindo as vozes e risos que preenchiam o local, juntamente com o cheiro de cigarro, hortelã e café.

Abriu a porta estranhando a altura da maçaneta. Do outro lado, o pai. A garota desaba em lágrimas.

Um abraço apertado, alguns minutos de silêncio, o desespero e o consolo.

- Eu morri?

O pai a abraça.


Esse conto foi escrito por Adah Conti para o Contos Iradex.
Para reprodução ou qualquer assunto de copyright a autora e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Adah é cientista por profissão e bruxa por vocação. Tem muitas vontades e poucas certezas. Ama gatos, chocolate e futebol. Tem sangue latino e alma britânica.
Sobre o projeto: Contos Iradex é um projeto colaborativo do site, com textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Se você tiver uma história que merece ser contada, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • thayna

    Mais uma vez Adah me levando as lágrimas!
    Que conto lindo dá pra sentir todo o amor por trás de cada palavra ♥

  • Mackenzie Melo

    Quanto sentimento em tao poucas palavras… Obrigado Adah!

  • Vamos lá, teoria dos fãs: quem disse a última frase? Eu acho que foi o pai.

    • thayna

      Eu acho que foi a menina.

    • Eu tenho duas interpretações. Uma mais direta seria simplesmente que ela morreu e encontrou o pai. Mas a que eu prefiro é a que ela viajou no tempo pra dentro do própria corpo (como em Efeito Borboleta) e esse comentário seria como uma piada de pai, mas que pra ela (que veio do futuro) tem outro significado.

      • thayna

        Eu entendi outra coisa. Para mim também foi uma viagem como Efeito Borboleta mas como ela sabe que o pai já faleceu, ela se pergunta “Eu morri?”.

        • Adah Conti

          😉

      • Adah Conti

        Você é demais. Mas nunca saberemos, não?

      • Robisom Lima

        Eu ja acho que foi uma viagem, mas tipo About Time… Ou ainda como em A Mulher do Viajante No Tempo. E concordo com a Thayna, ela ja sabia da morte do pai.

    • Mackenzie Melo

      Eu acho que é da menina que reencontra o pai que não via há muito, pois ele já tinha morrido. Ela, provavelmente, de sua vida, o que mais gostava era da infância junto com ele e queria muito vê-lo quando morresse, daí se ver como menina quando “acorda”. Ele vem até ela e ela, confusa, faz a pergunta para ter certeza do que está acontecendo. Sem palavras para descrever a situação ele apenas a abraça, como que dizendo a ela, “Como você pode ter morrido se ainda sente meu abraço?”

  • Adah Conti

    O nome do conto foi do editor. Porque eu nomei e depois resolvi não colocar o titulo que pensei, pois iria “explicar” o texto. Pelo jeito, fiz certo.

  • Robisom Lima

    Fiquei aqui pensando na minha infância, na casa onde morava quando moleque. Nas lembranças que ficam e nos detalhes que se perdem. Tentei recordar os cheiros e sons do café sendo passado no coador de pano da vó… Obrigado pela viagem! Lindo conto!!!

  • Mackenzie Melo

    Pelo menos duas coisas inesperadas aconteceram com esse conto que já se tornou, pelo menos para mim, parte do Folclore Iradex.
    1. O conto foi publicado e alguns minutos depois uma parte dele foi alterada, pois a @disqus_8bSrCEq5tt:disqus percebeu que algo não estava exatamente como ela tinha escrito. O editor notou que tinha alterado e reverteu a mudança para o original. A versão do conto que foi inicialmente publicada não existe mais e se perdeu num limbo qualquer da internet (os dois primeiros comentários – o meu inclusive – foram feitos enquanto essa primeira versão ainda estava no ar e se referem a ela)
    2. Adah nos informa em um de seus comentários (nesta mesma lista de comentários) que o título original “explicava” o texto e ela decidiu retirar. Que título era esse? Será que realmente explicaria ou daria ainda mais panos para as mangas nas discussões sobre o conto? Fico em dúvida se quero saber o nome “original” do conto, mas decido por preferir não saber já que ela decidiu removê-lo…
    É isso!