Raposas, Vaga-lumes e Viagens no Tempo

O que fomos? Somos o que esperávamos de nós? O mundo nos molda?

Raposas, Vaga-lumes e Viagens no Tempo é um conto escrito por João Rodrigues Lima e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Raposas, Vaga-lumes e Viagens no Tempo

Uma constelação de vaga-lumes chamegando no quintal. Sentada no escuro, me pego pensando neles, em como se acendem na noite quente. De algum canto de mim uma acadêmica se apressa a dissertar sobre eles. Mas fala em sinapses e bioquímicas, cita um fulano-de-tal qualquer. Não dou bola. De repente surge uma vozinha fina, feliz, que não ouço a muito, muito tempo.

- Devem ser anjos. Ou viajantes do tempo...

Olho para o lado e ali está a menina de olhos curiosos e tranças no cabelo. Conserva a aparência dos seus nove anos, como da última vez que a vi, muito tempo atrás. Minha infância me visitando. Logo surge o constrangimento por sua presença, acompanhado pela culpa. Ela parece ler meus pensamentos.

- Não esquenta. Eu entendo porque teve que me abandonar no acampamento. Não foi culpa sua. Nem da mamãe. Você tinha que crescer...

- Você nunca vê nada de errado no mundo, não é?

Ela me irrita, toda ‘romanticazinha’, toda ingênua. Gente assim não dura nesse mundo. Me viro no escuro para dizer isso, mas ela me desarma com um sorriso, devolve um olhar alegre. Desisto da bronca. Olho os vaga-lumes, tento sorrir também, mas já não lembro como. Preciso treinar isso...

- Você parece feliz. Nunca entendi como sempre pareceu feliz, apesar do clima de guerra, das bombas, dos ataques?

- Era só um jogo, lembra? Da raposa cientista? Quando a sirene tocava, mamãe nos mandava para baixo da cama, para nossa toca secreta, e a gente tinha que estudar os estrondos. Se foi longe ou perto, quanto tempo entre eles. Tinha que adivinhar como seria o próximo.

- E não tinha medo da próxima bomba cair em casa?

- Mamãe tinha, às vezes. Por causa do que aconteceu com papai. Mas quando eu ficava assustada ela me dizia que a nossa toca era secreta. Que ninguém podia acertar ela. E apesar de tudo a gente gostava de Alepo, lembra?

- Eram duas cidades...

- Sim! Ia comprar pão de manhã, olhar as vitrines, os prédios chiques. Tudo tão moderno. Aí virava uma esquina e era como atravessar um portal mágico. Era outra época, as casas antigas, os velhos conversando na calçada. Não era mais Alija, ou a filha do advogado. Eu era uma viajante do tempo.

- Verdade! Me lembro de mamãe tentando explicar a trajetória do desenvolvimento arquitetônico da cidade, os padrões históricos. Não entendia nada na época...

- Porque ela falava umas coisas difíceis. Tudo tinha que ter uma explicação. Igualzinha você hoje em dia...

- Pois é! Também sou arquiteta e...

-...e também vê número e motivo em tudo. Quer explicação de tudo. Esqueceu como enxergar as coisas?

- Tudo bem, espertinha. Então me diz, como você enxerga esses vaga-lumes aí?

Ela faz cara de especialista, uma mão no queixo, os olhinhos em fendas.

- Acho que anjos quânticos atravessando o espaço-tempo aos sopetões. Tipo viajantes pulando os instantes, sabe, desses bem pequenos que a gente só vê com os olhos da saudade.

- E por que você acha isso? - pergunto, cética.

- Porque a gente só consegue olhar para onde eles não estão mais e nunca sabe onde vão aparecer outra vez... Vaga-lume é como eu você, lampejo de saudade e mistério..


Esse conto foi escrito por João Rodrigues Lima para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: João Rodrigues Lima é bandoleiro, Psicólogo, escritor, mestre chefe, transborda poesia, dono de um cão idoso, humano de um gato vesgo, leitor compulsivo, já disse que transborda poesia!?
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Muito, muito, muito, muito bom!

    • Robisom Lima

      Muito muito muito obrigado!

  • thayna

    Mais um conto daqueles que terminamos de ler com os olhos lacrimejando. Muito bom!

    • Robisom Lima

      Obrigado! Que bom que gostou!!!

  • Mackenzie Melo

    Caraca! Esse é um daqueles que a gente diz, nossa, queria ter escrito esse! Lindo demais, João. Estou com saudade do próximo, que não sei quando vai aparecer, mas que tenho certeza que vai…

    • Robisom Lima

      Que bom que curtiu! Obrigado pela saudade!

  • Aline Hack

    Meldels que coisa linda, me senti olhando pro céu na Chapada dos Veadeiros, meu lugar preferido! Obrigada pela experiência sensorial.

    • Robisom Lima

      O mais legal de escrever é nunca saber com que olhos (ou sentidos) vão ler o texto. Não tinha imaginado esse conto como algo sensorial!
      Obrigado pelas palavras e pela nova interpretação!!!

  • Vinícius Hilario

    que coisa linda, Parabéns. é triste, mas muito tocante.

    • Robisom Lima

      Obrigado!!!

  • Luiza Lima

    Quando eu soube que tinha conto seu pra sair não aguentei e pedi pro Gusta pra ler logo e, como já esperava, me encantei. Parabéns!

    • Robisom Lima

      Eita! Fiquei totalmente sem jeito aqui! E feliz por saber que tu gostou!!! Obrigado!