A Múmia: o que aconteceu com as grandes aventuras?

Por: Miguel "O Legalzão" Arcanjo

Aventura. O dicionário descreve como algo inesperado, excitante e possivelmente perigoso. Se olharmos no IMDB veremos que filmes de heróis geralmente se encaixam nesse gênero. Star Wars, Harry Potter e praticamente todas as grandes franquias da atualidade também.

Há alguns anos, mais precisamente em 1981, chegava aos cinemas a obra conjunta de George Lucas com Steven Spielberg, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, contando a história de um arqueólogo que buscava por peças raríssimas, com intenção de leva-las para museus, enquanto lutava contra nazistas. Inspirado pelos heróis aventureiros das matinês, ele é um dos grandes representantes do cinema de aventura.

Hoje, depois de quase 4 décadas, quase não se vê filmes com o espírito que existia nos filmes de Indiana Jones. Em 1996, nascia Tomb Raider, contando a história da britânica Lara Croft, exploradora de tumbas perdidas que, até o momento, já teve 15 jogos. Ainda depois, em 1999, foi lançado “A Múmia”, dando uma repaginada na história do filme clássico de terror, inspirado pelos exemplos citados anteriormente.

Toda essa mini-análise serve para responder uma pergunta: O que aconteceu com as grandes aventuras?

Eu cresci assistindo esses filmes e jogando esses jogos. Via Indiana Jones na televisão e corria pro vídeo game para jogar com a Lara Croft. Como criança que era, queria sentir essa aventura. Sempre que fazia algo como subir em uma árvore eu me sentia mais próximo da aventura que eu sempre quis ter. Era isso que esses heróis passavam.

As aventuras que mais são vistas nas histórias atuais são com heróis com superpoderes e habilidades fantásticas. Indiana Jones era humano e isso fazia com que ele se aproximasse do seu público.

A Múmia, 2017

A Múmia, 2017

Nesse ano de 2017, a Universal lança mais uma versão de “A Múmia”, para fazer parte do “Dark Universe”, contando a história da rainha Ahmanet (Sofia Boutella), que ao tentar tomar o trono à força, faz um pacto com o deus da morte, Set, e acaba sendo presa e mumificada viva. Nos dias atuais ela é tirada acidentalmente de sua prisão por Nick Morton (Tom Cruise) e tenta novamente ser a rainha mundo. É uma história que mostra-se promissora em dar continuidade ao espírito aventuresco que o seu antecessor teve, mas desiste desse caminho no momento que para de dar importância aos seres humanos que ali estão vivendo a história, dando ao público belíssimas cenas de ação com efeitos especiais fantásticos mas completamente sem peso. Nick é um personagem que constantemente está se arriscando e nós não sabemos por quê e nem nos importaríamos tanto se ele morresse. Só um pouco mais na frente que ele começa a realmente demonstrar que se importa com algo, e é aí que ele começa a ganhar o carisma que vai seguir com ele ao longo desse universo sombrio.

Frequentemente enquanto eu assistia ao filme, eu me recordava de uma série de jogos chamada “Uncharted”, que segue os passos de Tomb Raider nos jogos de aventura a lá Indiana Jones. A série segue Nathan Drake, um ladrão interessado em encontrar artefatos antigos e lucrar com eles. Enredo simples para servir de plano de fundo para setpieces exageradíssimas e entreter os jogadores com momentos espetaculares. Porém, no quarto jogo, lançado em 2016, intitulado “Uncharted 4: A Thief’s End”, nós encontramos o aventureiro Drake casado, trabalhando, estabelecido e, supostamente, feliz. Ele sente o desejo de desbravar, encontrar o que ninguém encontrou e ir aonde ninguém foi e está disposto a arriscar tudo o que conseguiu na vida para ter essa sensação outra vez. E vemos durante as várias horas de jogo o conflito desse personagem que é constantemente chamado para viver.

Esse jogo me fez realmente entender e responder a essa pergunta que há anos rondava por meus pensamentos. Foi algo que vendo “A Múmia” faltou: entender por que a aventura existia. Não conseguimos sentir as pessoas, e pessoas fazem uma aventura. Emoções, ter o que perder.

É disso que são feitas as verdadeiras aventuras, fazer algo arriscando perder tudo o que tem, e ver heróis que ao fazer isso vão nos inspirar a arriscar um pouco mais.

Heróis como Drake, Indiana Jones e Lara Croft. Infelizmente, não como Nick.