Cartas do Mundo: Barcelona

Igor,

Eu poderia te falar de vários locais. De varias cidades. Porque todo lugar tem seus encantos e todas as cidades têm suas particularidades. Mas existe uma cidade que é a mais peculiar entre todas que eu conheço. Minha história com ela começou na adolescência, quando uma professora de história das artes apresentou para classe do segundo ano do ginásio os slides da “casa dos ossos”.

Aqui vale uma explicação. Quando eu tinha 13 anos, ensino fundamental se dividia em primário e ginásio, história das artes era matéria do currículo, slides e transparências eram o que havia de mais moderno em tecnologia de ensino e “casa dos ossos” foi um nome possivelmente inventado pela Pepa, a professora gordinha que usava um broche de lagartixa.

Foi nessa aula que eu ouvi falar pela primeira vez de Gaudi, e guardei bem o nome da cidade para procurar no mapa depois. Eu sempre tive uma lista de lugares que eu queria conhecer e Barcelona entrou nela. Tempos depois, na época das Olimpíadas, fiquei desesperada para ir, mas ainda não tinha chegado a hora. Apesar de sempre ter viagens como uma das prioridades da vida e achar que programação e renuncias são necessárias, as minhas sempre tiveram uma boa interferência do acaso. Destino soberano. Portanto, apesar de me debater naquela época, só coloquei os pés na Catalunha mais de uma década depois.

Amigo, vá conhecer essa cidade extraordinária. Se, por acaso, for sua primeira vez na Europa, não tem problema. Ela te apresenta um centro medieval preservado, com ruelas estreitas, casas de pedra e a indefectível igreja gótica de cair o queixo. Caminhando por apenas um bairro, você conhecerá e se sentirá na Europa com toda certeza. E saindo de lá que começa a cidade única, nada parecida com qualquer outra no mundo. As ruas e praças são locais de passagem e encontros. Pessoas nas ruas. Uma cidade viva. Um povo amável que te tratará melhor ainda se você esquecer o espanhol e se arriscar um pouquinho com algumas frases em catalão, uma língua interessante para nós, estranha e familiar ao mesmo tempo.

Até que chega meio dia e você se sentirá num filme de ficção científica. Fecham os museus, as igrejas, os restaurantes, os bares de tapas, tudo. E no primeiro dia você fica lá, andando como uma alma penada numa cidade fantasma, até que por volta das três da tarde as pessoas retornam. Mas no dia seguinte, já se sentindo um nativo, você se adapta e adere a siesta. Sim, Barcelona tem um amanhecer e um entardecer. São as horas de sair e ir para as Ramblas, a pé ou de metro, pelo Passeig de Gràcia, onde parece que anda-se até Portugal pelos subterrâneos. Curta os bares, que dizem servir o melhor presunto cru do mundo (não posso confirmar ou desmentir este ponto), além dos artistas de rua e da população local, gente do mundo todo e de todo o tipo aproveita o fim de tarde e a noite nos famosos bares de tapas.

Cartas do Mundo - Barcelona 02

Eu fiz tudo isso e nesta altura eu já amava Barcelona. E ainda nem tinha ido à praia e ao píer ver aquele por do sol arrebatador. Nem tinha ido ao Camp Nou ver o Messi jogar. E nem tinha ido ver as maravilhas de Gaudi.

Eu fiz de propósito e fui me encontrar com a arquitetura genial do mestre só no terceiro dia. Recomendo fazer o mesmo. Capaz de você passar mal se for logo ao chegar. Se prepare antes. Leia. Veja fotos. Chegue devagarinho. Mesmo assim, o impacto é considerável. Você nunca verá nada como a igreja da Sagrada Família, que continua em eterna construção. Você vai invejar aqueles que moram no edifício Milà. O prédio é habitado e existe um apartamento para visitação dos turistas.

Você vai achar incrível subir escadas rolantes no meio da rua, a céu aberto, indo em direção ao imperdível parque Guel.
E quando você achar que não pode ver nada de mais incrível no mundo real, você finalmente chega à casa Bartlò, aquela que minha professora chamou de casa dos ossos. Desculpe, não tenho como descrever. Você lerá mil descrições, estudos sobre a obra, ouvirá sobre cubismo, surrealismo e mais uma série de ismos.

Cartas do Mundo - Barcelona 03

Acredite amigo, Gaudi está fora de alcance de qualquer categorização ou definição.

Depois daquela visita eu não tinha mais condições de absorver mais nada e me refugiei num shopping, onde sabia que ia encontrar a mesma cena familiar. Lojas, praça de alimentação, barulho, enfim, um lugar para espremer as emoções de volta para dentro do corpo. Comi alguma coisa qualquer que não lembro e certamente com cara de pateta, procurando um lugar para deixar a bandeja suja, vejo escrito numa lata de lixo: “Si us plau, bidéu aqui la vostra safata” *. Lembrei na hora de Vaca Profana, tive um daqueles momentos preciosos de felicidade e, talvez por isso, essa é a frase que me vem à cabeça sempre que ouço falar de Barcelona.

* Em tradução livre: ”Por favor, esvazie aqui a sua bandeja.”


Cartas ao Mundo é uma série especial, escrita por Adah Conti sobre suas viagens.
O destinatário costumava ser apenas seu filho, Felipe, mas agora somos todos nós. Conheça o mundo pelas palavras de Adah.

  • Igor Vieira

    Adah do céu! Muito obrigado por esta carta linda! Barcelona também é uma das minhas cidades favoritas sem nunca ter posto os pés na Europa. E, sim, Gaudí tem grande parcela de culpa nisso. Quando (e não mais se) eu realizar este sonho, pode ter certeza que terei em mente suas recomendações. Mais uma vez, muito obrigado! ;)***

  • Mackenzie Melo

    Imagino que não há descrição que faça jus a estar presente numa dessas cidades que você nos apresenta Adah, mas que você nos faz sentir pessoas de carne e osso passeando por elas, ah faz! Um dia espero poder visitar Barcelona também.

  • Luiza Lima

    Apenas maravilhada!

  • Aqui estou eu no fim de mais uma carta, mais uma vez abobado.

  • Aline Hack

    Nossa, sempre quis conhecer a Espanha, agora ainda mais!