Farsudeste: Céu Vermelho

John "Vermelho" Henry arrependeu-se da pausa que deu em sua jornada. A presença do Vermelho não era bem vinda naquela cidade e o tiroteio tornou-se iminente. Seria essa a primeira e a última vez que ele visitaria o famoso Salão Azul?

Farsudeste: Céu Vermelho é um conto escrito por Arthur Zopellaro e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex. Embarque nessa leitura.


Se você ainda não leu, leia a primeira parte desse conto aqui.

Farsudeste: Céu Vermelho

O caubói ficou nervoso, não com o xerife, mas com si próprio. Perguntou-se por que entrou naquela droga de cidade. Seus instintos o mandaram acampar longe da civilização mas seu corpo ansiava por um pouco de descanso, não era mais jovem como antigamente. O famoso Salão Azul parecia uma boa ideia.

Aquela droga de Ashby. Foi uma jornada localizar aquele homem, foi uma batalha conseguir capturá-lo vivo, foi um sacrifício carregá-lo por todo esse caminho evitando qualquer tipo de conflito. Agora, quase em seu destino, esta droga de Salão Azul estragava tudo.

— Você está preso em nome da lei, John “Vermelho” Henry. — O Xerife falou com propriedade.

Henry tomou o último gole de uísque, a garrafa estava vazia. O Xerife começara a levantar-se mas o caubói o interrompeu com uma garrafada na cabeça e dois tiros no peito. Antes que os ajudantes pudessem reagir, Henry cavou três buracos em Jefferson. O outro ajudante levantara seu revólver mas o caubói já havia pulado para o outro lado balcão.

O garçom sacou uma espingarda de cano duplo mas caiu morto antes que pudesse disparar contra Henry. O salão transformou-se em um festival de munições. Tiros voavam de todas as direções mas se concentravam no balcão. Os estrondos eram frequentes mas inconstantes, vez ou outra alguns dos pistoleiros paravam para recarregar.

O famoso Salão Azul passou a feder pólvora.

O caubói se espremia no canto do bar, afastando-se ao máximo do balcão tentando prever por onde os tiros poderiam atravessar a madeira. Henry recarregou sua arma enquanto esperava por uma abertura. Ele havia contado 23 homens quando entrou no salão. Por sorte alguns correram, imaginou.

Os estrondos cessaram, seria uma boa oportunidade para derrubar alguns homens, ou até mesmo para correr. Mas não para Henry. O Vermelho não corria.

Silêncio. Ele resistiu a vontade de se levantar. Esperou.

Um dos homens andou lentamente até o bar. Todos os outros o observavam inertes. O homem enfiou a cabeça por cima do balcão e um clarão explodiu, o estampido expulsou um projétil pela nuca do curioso. Os pistoleiros se assustaram e voltaram a disparar no balcão. Henry ouviu atento por algum padrão. Um dos homens a direita disparava três tiros por vez. Esse seria seu alvo.

O caubói pegou a espingarda do garçom. A precisão com seu revólver era indiscutivelmente superior mas a espingarda possibilitaria um tiro cego que por sorte derrubaria alguém. Qualquer pistoleiro que se preze não contaria com a sorte mas o Vermelho não se importava. Sabia que um disparo extra não se desperdiça.

Contou os três tiros à direita, levantou a espingarda e atirou. Ouviu o barulho de um corpo caindo. Largou a espingarda em cima do balcão.

A frequência dos disparos diminuíram mas a precisão dos projéteis aumentaram. Henry precisava mudar de local, arrastou-se para a outra extremidade do balcão e se deitou. Aquele ponta dava para a cozinha, mas o pequeno caminho até a porta era aberto. Estudou o padrão de tiros, contou os intervalos, esperou o momento certo, impulsionou-se com ajuda da parede e deslizou para a parte aberta do balcão.

Avistou três homens, dois atirando em direção ao seu último disparo e o outro recarregando. Disparou uma vez contra o primeiro acertando em cheio o crânio do coitado. Mudou de pontaria atirando mais três vezes, o primeiro projétil enterrou-se na parede, os outros dois pegaram no ombro e peito incapacitando o segundo pistoleiro. Por último, o homem que recarregava se assustou e derrubou o revólver. Com mais tempo para poder mirar, o Vermelho efetuou um disparo perfeito substituindo a órbita ocular do atirador por um buraco.

Os disparos rapidamente voltaram-se para sua nova posição. Henry se apressou para a cozinha com seus pés derrapando no chão azul por tentar correr agachado.

A cozinha estava vazia, os funcionários haviam fugido pela porta dos fundos. Henry recarregou seu revólver enquanto analisava sua rota de fuga. Ela o chamava como uma miragem chama um morto de sede. Não. O Vermelho não fugia.

Vermelho, pensou. Sentiu uma fisgada na altura da barriga. Vermelho, um dos tiros atravessara o balcão. Maldito Ashby!

— Você está cercado, fora da lei! — gritou o ajudante do Xerife.

Henry sorriu. A liberdade o fitava, daria alguns passos e estaria livre.

— Renda-se e garanto apenas um enforcamento!

Um cavalo relinchou tão alto que alguns dos homens no Salão Azul atiraram de susto. O caubói reconheceu o relinchar, eles estavam tentando pegar Ashby mas Granada não aceitava ser encostado por ninguém além de Henry. Maldito Ashby! Vermelho sacou seu segundo revólver. Ninguém encosta em Granada. Ninguém!

O Vermelho aproveitou o susto dos homens para emergir da cozinha. Disparou antes mesmo que os pistoleiros pudessem vê-lo. Nove tiros no total, derrubou sete homens. Poupou o ajudante do Xerife e buscou novamente cobertura na cozinha para recarregar ambos os revólveres.

Restavam apenas o Ajudante e um corajoso no Salão Azul. O corajoso assumiu-se covarde e fugiu. O Ajudante pensou em fazer o mesmo mas não podia, não existia mais Xerife naquela cidade. Ele seria enforcado pelo prefeito se deixasse o bandido escapar. Ele era o novo xerife. Prometeu para si mesmo que só sairia dali com o Vermelho.

A testa do Ajudante explodiu. O Vermelho não esperou que o rapaz concluísse o raciocínio.

Henry foi até o balcão passando por cima dos corpos, contou dezesseis no total. Olhou em volta, o salão parecia sangrar dos buracos providos pelo tiroteio. Viu seu chapéu misteriosamente intacto, ainda em cima do balcão. Ajeitou o chapéu na cabeça e olhou mais uma vez para o famoso Salão Azul. Agora vermelho, a droga do vermelho.

O caubói ouviu um novo relinchar e correu para fora do salão.

Três homens lutavam contra Granada. Dois tentavam desamarrar o homem entre os coices do garanhão enquanto o outro tentava confundí-lo batendo em sua fuça. Henry empunhou um de seus revólveres e disparou um tiro contra cada um dos homens. Os três caíram. Granada se acalmou.

Henry olhou para o homem em seu cavalo. Tudo isto era culpa dele. Maldito Ashby!

Desistiu da droga do descanso, pelo menos o uísque fora de graça. Subiu em Granada e rumou para a saída da cidade. O galopar fez com que Henry sentisse a ferida em seu abdômem. Olhou para baixo, vermelho. A droga do vermelho. Henry iria entregar aquele homem nem que isto custasse sua própria vida. Maldito Ashby!

O sol intimidava-se contra o horizonte, pintado os céus de um vermelho cor de sangue. A droga do vermelho. Chegara ao famoso salão incrivelmente azul e o deixara embebedado em sangue. Sangue vermelho. Sempre a droga do vermelho.

Esse maldito Ashby Randell! Por onde John Henry passava era isso. Nunca importava a cor inicial, o fim sempre era vermelho. A droga do vermelho. John “Vermelho” Henry. Ele preferia a mentira de que ficara vermelho de vergonha e fugira mas sabia que esta história não era real.

Chegara naquela cidade com um maravilhoso céu azul de um belo dia ensolarado mas a deixava com um noturno firmamento banhado em sangue. Sangue vermelho. Sempre a droga do vermelho.


Esse conto foi escrito por Arthur Zopellaro para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Arthur Zopellaro é nerd de nascença e estudante de Sistemas de Informação nas horas vagas. Sempre gostou de histórias, independente do formato (filmes, jogos, etc). Atualmente tenta transmitir sentimentos através de palavras, uma forma de agradecer pelas excelentes obras que o fizeram sentir-se mais humano.
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