O Beijo e A Eternidade

O som dos tambores dá início a um combate brutal no coração da floresta, onde apenas um sairá vivo. Ao vencedor, além da glória aos olhos da tribo, O Beijo e A Eternidade.

O Beijo e A Eternidade é um conto escrito por Adams Pinto, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


O Beijo e A Eternidade

Uma garoa anunciou a entrada da noite; gotas tocaram gentilmente a copa das árvores. O chiado agradável e quase imperceptível se misturou à melodia do riacho, que ladeava um amplo terreno perfurado por uma clareira no meio da vegetação. Lá, seis búfalos caídos se encontravam dispostos em forma de círculo.

Cada um havia recebido uma cor distinta em seu dorso: vermelho, amarelo, azul, verde, branco e violeta. Os olhares vazios e as moscas vagueando sobre suas carcaças apontavam a ausência de vida. Porém, uma batida de tambores oriunda das profundezas da floresta gerou movimentos bruscos no interior dos animais.

O frenesi das percussões ganhou mais intensidade e uma costura na barriga do búfalo pintado de amarelo rompeu, exibindo um braço humano seguido de um grito em busca de fôlego. A cavidade cuspiu um sujeito arqueado e sujo de sangue – usando trapos sobre suas vergonhas, pinturas tribais e um tecido mostarda cobrindo o nariz –, que cambaleou até o centro da circunferência. Afoito, enfiou a mão em um cesto, retirou um tacape e imediatamente açoitou a criatura tingida de azul até quebrar os ossos de outro ser humano que tentava se libertar. Repetiu a mesma violência contra o vermelho, o lilás, em seguida rugindo com cólera saltando da garganta.

Enquanto limpava o suor que lhe turvava a visão, foi surpreendido por uma pancada em suas costas. A pedra do martelo de um oponente definitivamente trincara alguns ossos. O mundo desapareceu por dois ou três segundos.

"O Verde", ruminou, ao se virar e encarar um homem com quase dois metros de altura, uma tira de pano sobre metade do rosto e musculatura incrivelmente delineada para alguém provavelmente tão velho quanto ele.

Quando o agigantado já se preparava para desferir o golpe mortal, foi surpreendido por um terceiro indivíduo, que saltou em suas costas. Este era esquelético e possuía uma cabeleira prateada que tocava as nádegas nuas. As ataduras ao redor da face, embora enodoadas, apontavam para a cor branca que representava.

"Tenho que eliminar logo o grande", avaliou, ao presenciar aqueles dois se engalfinhando de maneira animalesca. Avançou, confiante, mas uma reviravolta brusca à sua frente o fez atingir o crânio errado. Um jorro de sangue brotou e somente dois continuaram em pé.

Os tambores cessaram. Um silêncio nervoso ocupou todo ambiente e pairou sobre aqueles que acreditavam estar diante do último instante de suas vidas.

O selvagem de amarelo deu uma olhadela para trás, onde jazia um dos búfalos, e discretamente recuou em sua direção. Já o homenzarrão, tomado pela fúria, acometeu sem identificar o ardil que o aguardava e, imprudente, saltou sobre o rival. Mal percebeu que, durante a queda sobre o adversário, seu rosto foi direcionado para o chifre de um dos animais. A ponta penetrou com intensidade no olho esquerdo e cessou sua jornada nos recantos obscuros da morte.

Com certa dificuldade, o sobrevivente retirou o inimigo abatido de cima de si e se afastou do cenário, embrenhando-se em uma fileira de tochas que seguia por uma abertura na mata.

Os borrões de sangue sobre sua pele o incomodavam e, enquanto os esfregava, foi cercado por um grupo singular, portando jarros e vestidos com palhas, cipós e galhos. Sem qualquer cerimônia, despejaram água sobre o homem até limpar toda a imundície, para em seguida sumirem em meio aos arbustos.

Sentindo-se purificado, ele retirou o pano amarelo que lhe cobria rosto e duas sementes das cavidades nasais. Inspirou o ar com um sorriso exultante e continuou o percurso até apontar na entrada de uma caverna, cuja borda era entalhada com símbolos indecifráveis.

– Fui glorificado com a vitória! – Vociferou em sua língua nativa. – Exijo o que é meu por direito: O Beijo e A Eternidade!

Após um silêncio prolongado, notou uma figura indistinta que emergiu da boca da gruta, trazendo consigo o odor de jasmim. Sob a luz da lua, pôde identificar uma mulher jovem e nua, com idade para ser sua filha ou neta, de pele alva feito leite, cabelos pretos e uma estranha cicatriz, que seguia da ponta do queixo até o sexo.

– Você está disposto a pagar o preço? – Ela sussurrou em tom de convite.

Engoliu a resposta e desejou-a intensamente naquele instante, como se uma fome se apoderasse da sua alma. Foi conduzido de forma gentil para dentro da caverna. No solo barrento, penetrou-a com uma vivacidade que desconhecia. Entre um avanço e outro, sentiu um formigamento, e vislumbrou tentáculos frios provenientes da cicatriz da mulher sobre seu abdome. Aquela visão grotesca, porém, não diminuiu seu ímpeto.

Um pouco antes do clímax, olhou-a nos olhos e perdeu-se no negro da íris, onde inexplicavelmente mergulhou no cosmos e em toda sua opulência. Contemplou nebulosas, asteroides, planetas, satélites e imagens que jamais permearam seus sonhos mais obscuros. Parou diante de um solitário sol vermelho e viu com assombro uma criatura de dimensões incalculáveis se movendo por trás do corpo celeste.

"A chave mais escura! A última mantilha! A agonia cairá do céu!", uma voz gutural transpassou sua mente, a ponto de fazê-lo sentir os miolos em brasa.

O toque dos lábios da mulher o resgatou abruptamente dos devaneios, fazendo-o esmorecer, até que o sopro da vida foi arrancado dos seus pulmões.

Abriu um sorriso emocionado e, no seu último fôlego, murmurou:

– Eu o vi.

*

O dia seguinte trouxe um céu desbotado e com muitas nuvens. Os búfalos na clareira agora eram cinzas fumegantes e, um pouco mais adiante, dezenas de selvagens estavam prostrados diante da caverna.

Subitamente, um bando enfeitado com penas exuberantes e centenas de adornos espalhados pelo corpo saiu da gruta. Em seus ombros, o peso de um trono de bambu, no qual descansava em pose majestosa o campeão da noite anterior, rijo e poderoso. Mas, apesar do balanço, ele permanecia extraordinariamente duro.

Havia resina sobre sua pele, do mesmo modo que palha usada para estufá-lo. Seus olhos eram vítreos.

O mistério que presenciara no zênite de sua vida agora descansava em estado puro e imortal, aguardando para ser sussurrado em eras vindouras.


Esse conto foi escrito por Adams Pinto para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Jardim dos Famintos

O conto inédito O beijo e A Eternidade é ambientado no universo do romance Jardim dos Famintos, que está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Se você gostou e quer penetrar ainda mais nessa fantasia obscura, acesse o link www.catarse.me/jardimdosfamintos e apoie o projeto. Os valores vão de R$18 a R$126 e as recompensas exclusivas são fantásticas.


Sobre o autor: Adams Pinto, ilustrador e designer, tem uma carreira conhecida internacionalmente na área de estampas geeks para lojas como Teefury, Qwertee e outras. Mas apesar da perícia com artes gráficas, sempre nutriu um amor secreto pela literatura. Desta maneira, influenciado por nomes como H.P. Lovecraft, Stephen King, Bernard Cornwell e contando com o apoio espiritual de J. R. R. Tolkien, levou adiante a confecção do seu primeiro romance: Jardim dos Famintos.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.