O Macacão

Em um canto escuro, jogadas pelo chão ou curtindo uma balada, elas vivem nossas histórias.

O Macacão é um conto escrito por Luiza Lima, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


O Macacão

Elas viviam num lugar apertado, na maioria das vezes escuro, separadas em categorias. Às vezes as categorias se misturavam e elas eram todas retiradas do seu habitat para posteriormente serem colocadas de novo em suas categorias, organizadamente. Essa organização não durava uma semana. Ficavam a maior parte do tempo na escuridão, esperando a porta ser aberta pela moça que as usava. Quando isso acontecia, viam uma cama desarrumada e uma janela com vista para grandes prédios de apartamentos e esperavam ansiosas para serem escolhidas e saírem de lá para acompanhar a moça no seu dia. Quem ela escolheria dessa vez? Para onde iriam? Quem iriam encontrar?

Ainda assim estavam divididas em funções: para trabalhar, para ficar em casa, para dias de calor, para dias de frio, para passeios do fim de semana, para saídas a noite, e as de dormir, que ficavam em outro lugar. Tadinhas.

As de trabalho eram as mais esnobes, afinal eram muito populares e saíam bastante. Elas sempre voltavam falando de como a moça foi bem ou mal naquele dia, como notaram nelas, os elogios que receberam. Elas adoravam toda aquela atenção.

Porém, eram as roupas da noite que voltavam com as melhores histórias, principalmente os vestidos. Sempre era uma diversão ouvi-los contar como ela dançou, bebeu, riu, conversou, tirou fotos. Algumas noites eram tão incríveis que eles nem se importavam de dormir no chão, porque a moça parecia muito feliz.

Tem um tempinho que as roupas da noite não tem saído. Elas estão cada vez mais no fundão.

Toda vez que as portas se abrem é um alvoroço. As de trabalho nem esnobam mais, o que é normal nas férias, quando as de dias quentes saem mais. Dessa vez elas estão duvidando que a moça esteja de férias, já que os vestidos e as blusinhas coloridas estão bem esquecidas.

Certo dia a moça voltou, mexeu, remexeu e o escolhido foi um velho macacão jeans. Ele era um querido, sempre disponível, sempre confortável, sempre a postos, mas pouco usado. Nesse dia ele saiu e demorou 3 dias para voltar. Voltou cheirosinho, mas suas histórias não eram felizes.

Em uma das vezes em que a porta foi esquecida aberta elas puderam ver como as de dormir estavam populares, saindo bastante de suas gavetas, mas sempre que a moça precisava sair, voltava pra buscar o macacão.

O macacão era especial. Ele servia para ir a todos os lugares, era confortável, escondia os quilinhos a mais, a parte de baixo protegia do frio e a de cima diminuía o calor. A blusa de baixo não precisava ser engomada, e ela não precisa se preocupar se caía bem. Afinal, o macacão ia por cima de tudo, até da perna que ela “esquecia” de depilar. Tinha bolsos para esconder as mãos e facilitava andar com a guarda baixa, era o conforto que ela precisava e não achava em lugar nenhum.

As colegas do macacão ficaram enciumadas, porque não entendiam o que ele tinha feito de tão especial para ser o novo preferido.

Ele sabia e voltava cada vez mais triste, preferindo não dividir o que ouvia. Melhor não falar como ele se molhava com pequenas gotas salgadas que vinham de cima.

Mas um dia ele não foi o escolhido. Uma novata, do time das de calor saiu.

Os meses passaram, algumas outras voltaram a ser escolhidas. As coisas pareciam voltar ao normal e quando as demais começavam a se empolgar, lá vinha ela e pegava o macacão novamente. De repente novas moradoras começaram a chegar e o macacão começou a sair menos, descansar.

Até que, num sábado, um vestido de sair foi eleito. Ele voltou cheio de novidades, mas não dormiu no chão naquela noite. Ainda não.


Esse conto foi escrito por Luiza Lima para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Luiza Lima é mestre em matemática, professora universitária e cozinheira nas horas vagas. Adora cozinhar para os amigos e é mais fã de Raça Negra que o meninozinho do Sílvio Santos.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Mackenzie Melo

    Como as paredes, esse macacão também tem ouvidos. Que bom podermos confiar nele, não é Luíza!? Torcendo para que ao ser lavado tantas vezes não perca a sensibilidade e a confiança em sua dona e que algum desses dias o vestido ou qualquer das outras peças possam ser molhadas de gotas salgadas felizes. E que ao acordar, estejam espalhadas por toda a casa… Obrigado por nos despir de preconceitos e nos vestir de sentimentos minha amiga!

    • Luiza Lima

      Chorei. ❤

      • Emilia Braga

        Eu ia comentar, mas o Mackenzie veio e fez melhor do que qualquer palavra minha faria. ❤

        • Luiza Lima

          Esse Mackenzie… <3

  • Robisom Lima

    Terminar é sempre triste, mas o fim é sempre uma chance de recomeçar. Achei que rola uma rima poética com o conto do Mackenzie sobre as muda(nça)s. Muito bonito!!!

    • Luiza Lima

      Que lindo

  • Teve uma camisa cinza que chegou arrepiar lendo esse texto.

    • Luiza Lima

      ❤❤❤

    • Aline Hack

      50 tons de cinza?

  • thayna

    Contos como esse são de aquecer o coração. Obrigada Luiza, por compartilhar conosco um pouco do seu sentimento <3

    • Luiza Lima

      Foi bem pessoal, mas foi com carinho

  • Adah Conti

    Adoro esses narradores improvaveis.<3

    • Luiza Lima

      Vcs que me inspiram ❤

  • Claudio Gaspari

    Que delicia de conto!

    • Luiza Lima

      😍😍😍

  • Guilherme Jales

    Pequenas coisas acompanham a gente pelo resto da vida… Seja uma roupa, um cheiro ou um som. Belo conto, Lu

    • Luiza Lima

      <3

  • Aline Hack

    “ainda não” – oramarrapaiz

  • Felipe Lopes

    Diva maravilhosa! Arrebenta até na escrita!

    • Luiza Lima

      ❤❤❤

  • Arthur Zopellaro

    Senti pelo macacãozinho, o pobi 🙁

    • Luiza Lima

      Bissim. Mas ele é muito amado