Manhãs de Sábado

Após 30 anos de trabalho, o zelador de um zoológico reflete sobre uma história peculiar que marcou sua vida.

Manhãs de Sábado é um conto escrito por Claudio Gaspari, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


Manhãs de Sábado

Em quase 30 anos de trabalho como zelador diurno do zoológico da cidade, muitas histórias passaram por mim. Algumas boas, outras ruins, outras tantas indiferentes.

Nesses últimos anos, minha função básica era cuidar para que os visitantes não se excedessem na interação com os animais, mas, no início, eu era ,praticamente, um "faz-tudo". Chegava cedo para varrer o trajeto do passeio, ajudava os tratadores de animais a alimentá-los, limpava jaulas. Onde quer que alguém precisasse de ajuda, eu estava por lá.

Durante os dias úteis, o movimento era bem fraco, mas, nos fins de semana e feriados, a mágica acontecia. Desde às 8:30 da manhã, começavam a aparecer os mais variados tipos de pessoas. Vendedores de todos os tipos formavam um corredor encantado do lado de fora do zoológico, tentando arrancar o máximo de dinheiro que conseguissem dos visitantes. Eram balões coloridos, sacos de pipoca, algodão doce, brinquedos, animais de pelúcia. Tudo para encantar as crianças, que eram a maioria do público do parque.

Vi um sem número de pessoas ir e vir. A grande maioria era formada de caras novas. Apesar de não ser um bom fisionomista, uma ou outra pessoa se destacava na multidão e é , justamente, de um casal específico que eu quero falar.

Eu tinha pouco mais de três meses de trabalho no zoológico, quando eles me chamaram a atenção. Provavelmente já os tinha visto por lá, sem notar, no meio do aglomerado de pessoas. Entretanto, naquele dia, por algum motivo, eles se destacaram aos meus olhos.

Ele, bem idoso, pequeno, magro, de ralos cabelos grisalhos e com uma roupa social clara. Ela, aparentando uns 40 anos, cabelos escuros, vestido florido, parecia ser sua filha. Juntos, passeavam pelas jaulas dos macacos e faziam a sua visita ao parque. Com pouco mais de uma hora, foram embora, retornando no sábado seguinte. E no seguinte. E no seguinte.

Estivesse chovendo ou fazendo sol, lá estavam eles. Não era nada demais, afinal, pessoas idosas costumam ter rotinas de passeios em parques e praças. Ele devia morar perto, aproveitava para dar uma caminhada e a filha o acompanhava. Mas, havia algo diferente. Essa tal rotina possuía uma característica única, que fui notando ao longo dos meses. Eles chegavam sempre às 10:00. Eram como um relógio suíço, como costumam dizer. Entravam pelo portão inferior e andavam até a gaiola do tucano. Dali, existiam duas opções de passeio. Pela esquerda, onde veriam as siriemas ou pela direita, onde entrariam na simulação de Mata Atlântica. Independente de onde fossem, após o passeio completo, voltariam ao portão principal, pois era uma rota fechada. Eles sempre seguiam à esquerda até chegar no cercado do veado da caatinga. Lá, ficavam por uns 10 minutos conversando, independente do animal estar lá ou não. Depois voltavam, sem seguir em frente e ver os ursos. Eu achava estranho, pois o poço dos ursos era um dos locais preferidos dos visitantes.

No retorno, sentavam num banquinho próximo à entrada e ficavam uns 5 minutos. Levantavam e seguiam para a direita, fazendo o trajeto até a jaula do macaco-prego. Chegando lá, não seguiam em frente. Davam meia volta e iam embora.

Obviamente, algumas vezes eles não conseguiam repetir à risca a rotina. Em alguns dias, o banquinho, próximo à entrada, já estava ocupado ou o caminho para o veado da caatinga estava interditado. Nessas situações, eu via, claramente, a irritação nos olhos da filha. Era um misto de incômodo com fúria contida. Não consigo descrever de forma melhor. Já o velho, ficava com um olhar tristonho, beirando à pena. Mas, eles sempre ficavam o mesmo tempo no parque, independente das intercorrências.

E um bom tempo se passou até que o zoológico precisou fechar por alguns meses para uma reforma geral. A primeira grande obra em mais de 40 anos. Seria uma reformulação completa, com transferência de animais, chegada de outros, modificação de estrutura. Coisa grande.

O primeiro sábado após o fechamento do zoológico, foi um dia chuvoso. Ventava muito e estava bem frio para os padrões da cidade. Apenas três funcionários estavam por lá. Além de mim, havia Marcos o vigia, e uma tratadora de animais que estava na sala da administração.

Eu estava ajudando a levar algumas caixas para o portão de entrada quando o vi. Lá fora, do outro lado da rua, sozinho e molhado, o velho olhava para nós. Ele parecia choroso e podia jurar que haviam lágrimas misturadas com a água da chuva que escorria pelo seu rosto. Pensei em ir até ele e conversar. No mínimo, tirá-lo da chuva, mas, quando menos dei conta, ele se virou de costas e foi embora.

Eu já ia comentar sobre ele com o Marcos, quando este disse, olhando para o velho que ia ao longe:

-É, seu Pereira! Não foi dessa vez...

-O nome dele é Pereira? - perguntei, percebendo que nunca havia falado com ninguém sobre ele.

- Uai? Não conhece a história dele? Ah! Você não tem tanto tempo aqui... Vou te contar o que me contaram. Se é verdade, eu não sei. Disseram que ele morava aqui por perto, há muitos anos. Um dia, veio passear com a esposa e, na saída, ela foi assassinada, bem ali, pertinho daquele poste. Acho que foi assalto ou coisa assim. Depois disso, o Pereira endoidou e, todo sábado, ele vem aqui e fica passeando e falando sozinho. Dizem que ele repete o mesmo último passeio que fez com a mulher. Mas, sério que nunca te contaram a história?

Achei que o Marcos estava brincando, mas não quis questionar. Nunca falei para ninguém sobre o que eu via. Por sinal, aquela foi a última vez que eu vi o velho, o tal Pereira. Não sei dizer o que aconteceu com ele. Depois que o zoológico abriu para visitação, ele não mais retornou.

Já eu, passei muito tempo sem conseguir andar sozinho pelo parque. A ideia de encontrar com a esposa dele me causa arrepios até hoje, quase 30 anos depois.


Esse conto foi escrito por Claudio Gaspari para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Claudio Gaspari é pai, marido, nerd, blogueiro e cirurgião dentista nas horas vagas
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  • Mackenzie Melo

    Claudio, que lindo conto! Obrigado por me fazer ser trabalhador desse seu zoológico e me emocionar de alegria com a vida que nunca acaba. Conte-nos mais desses episódios humanos, muito humanos. Parabéns!

    • Claudio Gaspari

      Obrigado, Mack. Pelo seu comentário, já valeu ter escrito esse conto.

  • Arthur Zopellaro

    CA RA CA
    Não me arrepiava assim com uma história faz tempo!
    Não sei nem mais o que dizer, to aqui boquiaberto