Missão: O Filho do Desertor

Na década de 80 um agente israelense chega ao sul do Brasil em busca de pistas importantes do paradeiro de criminosos de guerra. Essa é sua missão de vida há mais de 40 anos desde que teve os seus sonhos destruídos pelos nazistas durante a segunda grande guerra.

Missão: O Filho do Desertor é um conto escrito por Marcelo Lv Cabral, distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


Missão: O Filho do Desertor

O ano é 1985 e Maurice, um experiente membro da polícia secreta israelense, está voando a caminho do Brasil para investigar algumas comunidades de imigrantes alemães na América do Sul. Todos no mundo estão interessados na recente descoberta da possível ossada do "Anjo Negro", o médico da SS Josef Mengele, mas Maurice não quer desenterrar corpos, sua missão é encontrar aqueles que ainda estão vivos, e ele tem uma boa pista que aponta para o interior de Santa Catarina. Ele não descansará enquanto houver um deles escondido e vivendo uma vida feliz. Maurice não sabe o que é uma vida feliz há muitos anos.

O avião começou a balançar muito e o acordou, trazendo recordações de como tudo isso começou: Ele e a bela Judith estavam casados há menos de um ano, e moravam em uma pequena vila no interior da França. No inverno de 1940 os alemães invadiram o povoado, dividiram homens e mulheres e os enviaram em comboios separados para os “campos de trabalho”. Eles eram judeus, e isso estava acontecendo por toda a Europa. A turbulência do voo o transportou para aquele dia, pois um acidente com o caminhão que ele viajava foi a sua salvação, ele sentava na última fileira da traseira e foi jogado para fora logo no primeiro solavanco quando a viatura nazista despencou abismo abaixo, matando a todos. O comboio seguiu viagem, deixando-o para trás, considerando todos mortos. Ele conseguiu abrigo em uma fazenda na região e depois seguiu para Paris, na esperança de conseguir ajuda para localizar sua esposa. Na capital une-se então às primeiras células da lendária Resistência Francesa e passa a lutar contra a dominação alemã.

Por anos Maurice tentou resgatar Judith mas, já no final da guerra, mesmo com a difícil comunicação naqueles tempos, ele recebeu desesperado a confirmação de que todos os judeus do campo de concentração onde estava a sua esposa foram assassinados pelos nazistas. A sua dor agora era muito maior, e a única coisa que o manteria vivo era a vontade de libertar o seu país e vingar a sua esposa e o seu povo. Ele foi condecorado herói de guerra após a libertação da França em 1944. Mas assim como vários outros colegas, não considerou o fim da guerra suficiente, era preciso caçar todos aqueles que fugiram e se esconderam. O avião se afastou da tempestade assim como as recordações se dissiparam e Maurice voltou a dormir.

Incrível, uma cidade no interior do Brasil que tem placas em alemão nas lojas e onde o idioma germânico é falado nas ruas! Maurice já sabia que encontraria esse cenário, mas não foi menos surpreendente ver e ouvir in loco. A sua primeira missão é encontrar o filho de um oficial alemão desertor, que colaborou por anos com informações sobre criminosos de guerra. O filho tem documentos que certamente ajudará nas investigações.

Como sempre, Maurice se apresenta como Remy, e o jovem Stefan o recebeu em sua casa, logo entregando ao convidado uma pasta que seu pai o confiou antes de morrer. Mas Maurice sempre teve curiosidade sobre a história de Klaus Lehmann, o que o levou a desertar do exército alemão? Então ele decidiu aceitar a oferta de tomar uma cerveja e perguntou a Stefan como sua família havia chegado ao Brasil.

Stefan sorriu com a pergunta, ele sabia que Remy era um agente, devia saber a história dos seus informantes, mas nem sempre ele pode conversar abertamente sobre o passado de seu pai, então relatou orgulhoso.

— Meu pai tinha ascendência judaica, mas meu avô sempre escondeu isso de todos por medo do antissemitismo crescente na Alemanha. Com o início da guerra ele foi convocado, por ter boa educação, para a escola de oficiais. Ao formar-se tenente foi transferido para um campo de concentração, o que a princípio o agradou, pois não estaria na frente de batalha. O campo era novo, e eles recebiam muitos homens, mulheres e crianças judias vindas dos países invadidos. Mas o destino fez com que ele conhecesse e se apaixonasse pela minha mãe, uma jovem que estava presa no campo, ela rejeitou seus galanteios, mas ele continuou facilitando a vida dela no campo, conseguindo um trabalho melhor para ela e eles ficaram amigos.

— Com o avançar da guerra, vieram as ordens de extermínio para o campo e meu pai então decidiu que era hora de contar à sua amada que também era judeu, e que ele estava disposto a desertar para fugir com ela e salvá-la do destino fatal que a esperava. A fuga do campo não foi difícil devido à sua patente, mas a jornada em direção ao exílio foi complicada e perigosa, o que acabou por aproximá-los muito e eles casaram pouco antes de virem para o Brasil.

Maurice pontua que deve ter sido difícil para a mãe de Stefan a morte de Klaus.

Stefan então parece voltar à realidade e comenta que ela sempre pareceu uma pessoa triste apesar de demonstrar um imenso carinho pelo marido. Ele emociona-se ao relatar que depois da morte de seu pai, ela começou a apresentar problemas de memória e que hoje não mais reconhece os filhos e vizinhos, é vítima do mal de Alzheimer e passa os dias a contar histórias sobre o seu amor por um jovem francês chamado Maurice que ela afirma ser seu esposo e de quem eles nunca ouviram falar.

Maurice, já com lágrimas nos olhos pergunta a Stefan, como é o nome da sua mãe?

Ele responde: Judith.


Esse conto foi escrito por Marcelo Lv Cabral para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: Marcelo Lv Cabral é desenvolvedor de software, host do PODebug podcast e um dia pensou em ser jornalista. Fã de Formula 1 e Star Wars, no seu tempo livre já foi jogador amador de poker, colecionador de selos, quadrinhos e DVD's mas hoje é apenas um acumulador de hobbies.
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  • Claudio Gaspari

    Foda. Minha mente estava num caminho totalmente diferente e fui pego de surpresa!

  • Arthur Zopellaro

    Marcelo… que texto bom!
    Assim que Stefan começou a relatar a história da mãe, fiquei com a cara enfiada no computador lendo feito louco.

    Ótima leitura!