Doses Natalinas

Especial de Natal: Um dia mágico em doses natalinas

Alguns presentes Papai Noel manda entregar. Outros ele prefere resolver pessoalmente.

Um dia mágico em doses natalinas é um conto da nossa série Especial de Natal, escrito por AJ Oliveira, ilustrado por Miguelito Silva e distribuído em primeira mão aqui no Contos Iradex.


Um dia mágico em doses natalinas

Lá em São Paulo existe um bairro que ninguém gosta de ir. Neste bairro, há uma vila que quase ninguém conhece, e é nessa vila que o Noel visitou uma casa pouco popular, tipo essas que raramente são elogiadas por quem passa na frente. Essa casa também é marcada por não receber visitas constantes, como se estivesse abandonada pelo carinho alheio, mas essa rotina caiu por terra durante a noite do dia vinte e cinco de dezembro.

Antes de bater na porta, Noel escutou a conversa que rolava dentro daquela casa. De um lado, a voz infantil perguntava se seu vídeo game seria mandado para o conserto como presente de natal. Do outro, o mesmo repertório de desculpas que se dá para uma criança se esgoelando no supermercado rebatia o pedido, aquela clássica vitória contra o lado mais fraco da corda.

De todas as casas que Noel já visitou, de todas as pessoas que já conheceu, era fácil traçar um perfil após cinco minutos de conversa, fossem estas com ou sem ele.

Então a campainha toca.

A porta demora a ser aberta, alguns minutos se passam entre a ameaça de uma cintada e o som de abertura do olho mágico. Noel já está acostumado com a relutância em ser atendido, dado o quão inesperada é a visita de um barbudo de vermelho com um saco nas costas, em pleno fim de noite.

- Pois não?

Mais alguns segundos são resumidos a olhares silenciosos de constrangimento, então Noel joga o saco à frente e tira uma Coca-Cola de dentro.

- Fim de expediente, Arlindo. Estou cansado – Noel abre a garrafa com os dentes e vira numa golada só – É sério que eu preciso me apresentar?
- Como sabe meu nome?

Noel respira fundo em busca de paciência e guarda um palavrão pra si mesmo.

Após uma longa explicação sobre fenômenos natalinos, dois passos colocaram Noel para dentro da casa mal pintada, mal arrumada e sem um enfeite de natal que fosse. Os sofás pareciam mofados e uma mesinha trabalhada chamava a atenção entre os móveis, não pelo acabamento em vidro temperado, mas pela cinta dobrada que repousava como um troféu da última discussão familiar.

- Me desculpe não ter nenhum café pra te oferecer, é que eu não estava preparado para...
- Eu sei, eu sei – respondeu Noel enquanto mergulhava o traseiro no estofado – e pela tua barba por fazer, pela roupa amassada, além do hálito de bar vazio, imagino que você prefira bebidas que não vão ao fogo.

A atmosfera de constrangimento aumentou, até ser quebrada por uma risada de Noel por trás da barba.

- É brincadeira, Arlindo! Vamos lá, quem não gosta de tomar um quentezinho de vez em quando, né? – a risada alternava as palavras com ruídos suínos. – Ei! Não me olha com essa cara! Já estou há quase vinte e quatro horas trabalhando, será que não mereço algo do tipo?
- Err... Se você quiser eu tenho um doze anos aqui, comprei hoje.
- Não, não! – retrucou Noel, desta vez tirando cinco notas de cem, do saco vermelho – se eu aceitar um presente no dia de hoje, a Coca tira meu patrocínio. Vamos fazer assim, eu vou comprar sua garrafa, então bebemoramos o fim de natal. O que acha?
O homem desconfiou de início.
- Mas com essa quantia você compra duas dessa mesma garrafa.
- É natal cara, aproveita. Vai que é teu dia de sorte.

Não demora até que os copos estejam com uma dose cada. O homem parece não entender o motivo de estar fazendo aquilo, mas o brilho nos olhos perante o “um dedo” de líquido amadeirado no copo é um convite ao “apenas aceite”. Depois disso, ambos os brindes se chocam, as bebidas balançam feito um barco viking, então o copo do homem se espatifa em cacos. Noel olha fixo para o copo, sem se importar com o homem se ajoelhando ao chão com a mão no estômago.

- Está doendo? – aos poucos, Noel vira o copo fazendo uma pequena cachoeira marrom contra o piso da casa.

Entre gemidos, o homem encara o barbudo com asco nos olhos, mas a faceta também se estilhaça em mil pedaços quando ele levanta a camisa e nota uma cicatriz com um número incontável de pontos na altura do fígado.

- O que... Você...
- É a magia do natal, Arlindo. Já fazem alguns anos que recebo cartas do seu filho me pedindo de presente que você largue a bebida. – uma nova Coca-Cola é retirada de dentro do saco, dessa vez uma pet, o que facilitou a abertura enquanto o discurso seguia – Convenhamos que este não é o tipo de presente que um anão possa fabricar lá no polo norte. Por isso resolvi vir pessoalmente.

Os gemidos prosseguiram enquanto Arlindo encerava o chão da sala com seu próprio corpo.

- Ah, mas não se preocupe, a magia do natal só te deu um fígado bem usado, sabe, desses que não aceitam muito bem o consumo de qualquer líquido. Então, ano que vem, se você se comportar, talvez eu desista de te entregar esse “carvão” e volte pra devolver um órgão um pouco melhor. Que tal?
Nenhuma palavra foi captada por Arlindo, na verdade, suas preocupações se resumiam a buscar ar enquanto sentia o gosto de sangue lhe subir até a boca. Enquanto se debatia, o branco deixava sua pele para dar lugar aos tons de roxo, escurecendo cada vez mais, até seus olhos se fecharem.

FIM?

Não!

Pois, lá em São Paulo existe um bairro que ninguém gosta de ir. Neste bairro, há uma vila que quase ninguém conhece, e em uma das casas dessa vila, um pai acorda assustado no sofá com o som da campainha tocando, esse susto também poderia ter vindo do pesadelo que acabara de ter, ou da dor intensa que ele sentiu vindo da boca do estômago, porém, era a mesinha de vidro que seus olhos miravam, arregalados, mais precisamente onde as cinco notas de cem jaziam ao lado de uma garrafa de uísque vazia. E o mais interessante de tudo é que a campainha só parou de tocar, quando o dinheiro foi entregue na mão do garoto, de castigo em seu quarto, sobre o som de uma frase que há muito não era dita.

- Feliz Natal.


Esse conto foi escrito por AJ Oliveira e ilustrado por Miguelito Silva para o Contos Iradex. Para reprodução ou qualquer assunto de copyright o autor e o blog deverão ser consultados.


Sobre o autor: AJ Oliveira é um leitor da filosofia de banheiro público. Aspirante a escritor e podcaster nas horas vagas.
Sobre o projeto: Contos Iradex é uma iniciativa daqui do site de colocar textos, contos, minicontos ou até livros mais curtos para a apreciação de vocês, leitores. Emendaremos algumas sequências com materiais da própria equipe e, em seguida, precisaremos de vocês para mais publicações. Se você tiver uma ideia de projeto, envie um e-mail para contos@iradex.net.
  • Guilherme Jales

    CARACA, VEI.

    • AJ Oliveira

      😉

  • Ahhhhh que foda!

    • AJ Oliveira

      Obrigado, man! =)

  • Adah Conti

    Meu, não é que você tem talento mesmo? Excelente texto, congrats AJ!

    • AJ Oliveira

      Hahahaha! Valeu Adah 😉